Reflexões de um velho militante de esquerda

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Rafael Jasovich*

Tocou-me viver numa época nefasta para América Latina quando as ditaduras mais sangrentas governavam praticamente todo o Cone Sul. Tortura, assassinatos e desaparecimentos de militantes de esquerda e sindical eram a pratica comum.

Comecei a militância nos idos de 1958, com apenas 12 anos, saindo ás ruas contra a privatização do ensino na Argentina. Perdemos, mas começava para mim um longo caminho ao lado dos interesses do povo.

Estudei direito em principio porque achava que podíamos fazer a defesa jurídica dos excluídos. Defendi presos políticos e participei de defesas de operários e grevistas. Mas claro se houvesse prestado mais atenção a Marx, Lenin e cia, saberia que estrutura do judiciário está e sempre estará a serviço da classe dominante, daqueles que detém os meios de produção (com o STF, com tudo)

Enveredei por outros caminhos que me custaram a fuga de meu país para o Brasil. Naturalizei-me em 1982, mas já havia começado a participar de atividades políticas no Brasil.

Participei da luta pela anistia, diretas já, fora Collor, todas as campanhas eleitorais de Lula para presidente e muitas outras menores, mas não menos importantes.

Muitos tombaram nessa luta e é por respeito a eles e aos que arriscaram suas vidas em prol de um Brasil mais justo, de uma sociedade livre e democrática que não podemos aceitar o ódio que está sendo gerado pelas elites mais retrógradas para tramar de maneira permanente o retrocesso das conquistas dos últimos 14 anos.

Rafael Jasovich, advogado e jornalista, militante de esquerda (Fotos:MCJR Fotografias e acervo JB)

A classe média, massa de manobra da direita radical, das elites insensíveis, da imprensa a serviço do golpe que não se conformam com um pais que tem a maior inclusão social do mundo realizada em 12 anos.

Brasil saiu do mapa da fome no governo Lula, se livrou das garras do FMI, moradia, ensino gratuito universal e muito mais era o saldo positivo do governo do PT.

Vivemos agora o maior retrocesso que o pais já sofreu. Em pouco mais de um ano voltamos cinquenta anos no tempo.

O retrocesso está ai a vista de todo mundo. Dias horríveis virão, a destruição do Lula e do PT é a mira da direita golpista, mas vamos resistir, continuaremos a lutar.

Terminei esta primeira parte do texto antes da prisão do maior líder do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva e da “eleição” do Capitão.

O golpe continua se consumando e não tenham duvidas que vá até as últimas consequências. Ou seja, Lula fora do pleito eleitoral e a vitória de um candidato da atual estrutura de poder; se isto não for possível anularão as eleições e governarão retirando os poucos direitos dos trabalhadores que ainda restam e a entrega total do patrimônio do nosso País.

Pequeno engano com notícias falsas, semeando ódio e mentiras se elege Jair Bolsonaro.

A luta deverá ser travada pela esquerda em seu conjunto e por todos aqueles que tenham sensibilidade social para entender que é imperioso a devolução dos direitos dos trabalhadores da cidade e do campo e pôr um fim a entrega para as metrópoles dos bens mais preciosos de nosso país.

O Brasil está sangrando.

Eu sei que a luta será árdua e longa, mas não podemos esmorecer e cada um de nós fará o papel que escolher para enfrentar as elites retrógradas amparadas na mídia inconsequente, nos usurpadores do poder e a estrutura judiciaria sempre historicamente aliada a classe dominante.

Nunca pensei que em menos de 30 dias o governo ia esfarelar da maneira que está acontecendo. É só ler os sites e até assistir a rede globo e entenderão quem foi eleito e aquém responde.

Restam-me poucos anos de vida. E a única coisa que posso deixar como herança para minha filha é minha coerência e minha posição sempre ao lado da classe trabalhadora.

Do alto de minha avançada idade continuarei a lutar. Até a vitória final.

*Rafael Jasovich é advogado e jornalista, membro da Anistia Internacional

 

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