Predestinado, João Nogueira nasceu com o DNA do samba

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Lenin Novaes*

 “E lá vou eu/Melhor que mereço/Pagando a bom preço/A evolução/Ai, se não fosse o violão/E o jeito de fazer samba/Do tempo que quem fazia/Corria do camburão/Hoje não corre não/Hoje o samba é decente/E ninguém agüenta, oh, gente/A força de um samba não/Pois quem faz samba fale/E quem fala, atenção!/Força nenhuma cala a voz da multidão/E cantar inda vai ser bom/Quando o samba primeiro/Não for prisioneiro/Desse desespero/E resignação/E lá vai minha voz/Espalhando então/O meu samba guerreiro/Fiel mensageiro/Da população”.

“Lá vou eu”, além de título de um dos muitos sambas da dupla João Nogueira e Paulo César Pinheiro, deu nome ao segundo disco do cantor e compositor. Mais que isso: consagrou estilo de interpretação inconfundível de um compositor fértil, talentoso, irreverente, que nos legou uma obra musical admirável na vida do samba. No ano de 1974, há mais de 40 anos, no show de lançamento do disco, no Teatro Senac, na Rua Pompeu Loureiro, em Copacabana, eu estava lá e, creio, como a larga maioria da plateia, vi despontar um talento artístico que segui, admirado, por toda a carreira. Espetáculo arrebatador, sem frenesi. Intimista.

Clara Nunes gravou Bela Cigana, de Nogueira e Ivor Lancellotti (Fotos: acervo Lenin Novaes)

“Lá vou eu” foi a ponta de um novelo de sambas de alta qualidade que se desenrolou num repertório impecável, contendo, “Batendo a porta”, “Sonho de bamba”, “Meu canto sem paz”, “De rosas e coisas amigas”, “Eu heim, Rosa”, “Do jeito que o rei mandou”, “Partido rico”, “Tempo a beça”, “Braço de boneca”, “Gago apaixonado” e “Eu sei Portela”, este, em parceria com a irmã Gisa Nogueira, reafirmou sua declaração de amor à escola de samba azul e branco de Madureira. O disco traz na capa João Nogueira caminhando, à noite, na calçada musical do Boulevard 28 de Setembro, em Vila Isabel, homenageando um dos seus ídolos, Noel Rosa.

Com respeito e relevância, ele saudou a Portela por sua integração à ala de compositores, em “Sonho de bamba”, com esta poesia:

“Hoje eu estou cheio de alegria/E sou até capaz de me embriagar/Uns amigos bambas nesse dia/Me convidaram a participar/De uma escola de samba que é todo meu dengo/De um terreiro de bambas que é todo meu mal/Vou me mudar da tristeza/E morar na beleza do seu carnaval/Vou me mudar da tristeza/E morar na beleza do seu carnaval/Quero existir nesse azul/Repousar nesse branco/Portela, sou franco em dizer/Que em matéria de samba/O meu sonho de bamba/Era mesmo você/Pois se o azul é poesia/E se o branco é a paz/Minha Portela querida/Um poeta da vida/O que vai querer mais/Minha Portela querida/Um poeta da vida/O que vai querer mais”.

João Nogueira tirou onda no disco seguinte, Vem que tem, em 1975, tendo no repertório “Nó na madeira”. “Mineira”, a segunda música, dedicada à cantora Clara Nunes. Deu visibilidade a Monarco e Alcides Dias Lopes, compositores da Portela, com “Amor de malandro”. Autoria própria em “Convênio com cupido”, “Vem quem tem, vem que não tem”, “Albatroz” e “O homem de um braço só”. Em parceria com Cláudio Jorge “Samba da bandola”, “Chorando pelos dedos” e “Prá fugir nunca mais”. E “Seu caminho se abre”, de Ivor Lancellotti..

Sambista e missão

João Nogueira e Cartola: o FlaxFlu no Projeto Pixinguinha

Predestinado. João Nogueira nasceu com o DNA do samba, com a missão de ser sambista. Legado transmitido pelo pai, João Batista Nogueira, que, atualmente, tem continuação com o filho, Diogo Nogueira. Na casa que nasceu, em 12 de novembro de 1941/11/1941, e foi criado, no Méier, subúrbio da zona norte do Rio de Janeiro, teve o privilégio de conhecer e ouvir Jacob do Bandolim, Pixinguinha, João da Baiana e Donga, entre outros músicos, amigos de seu pai, que era violonista e tocou com Noel Rosa.

Perdeu o pai aos 10 anos de idade e com ele aprendera os primeiros acordes do violão e frequentara a quadra da Portela. Enfim, muito jovem – infelizmente, situação que até os dias de hoje, no Brasil, obriga adolescentes a trabalhar para ajudar no sustento da família, tirando o ensejo de formação acadêmica – foi vitrinista e vendedor, antes de se tornar funcionário da Caixa Econômica Federal.

Frequentou, foi compositor e diretor do Bloco Labareda do Méier, já contabilizando composições musicais nos anos seguintes. E se arriscou em festival em Juiz de Fora; frequentador assíduo de rodas de samba no subúrbio carioca. Nas primeiras gravações reuniu “Mulher valente”, em homenagem à mãe, e “Alô Madureira”, de sua autoria, em compacto simples. Em 1969, a cantora Elizeth Cardoso, a Divina, gravou “Corrente de aço”. Ele ficou conhecido e respeitado no meio artístico.

Ilustração: Lina Costa

Estilo de compor e cantar de João Nogueira era marca inconfundível. A música “Para um samba”, que abre o repertório do primeiro disco, Grito no subúrbio, em 1972, revela o compromisso com a qualidade de compor. Não é a música pela música. Vem acompanhada de “Mariana da gente”, “Das 200 prá lá”, “Morrendo verso em verso”, “Meu caminho”, “7º dia”, “Alô, Madureira”, “Blá, blá, blá”, “Beto navalha”, “Maria sambamba” e “Heróis da liberdade”, de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira.

O samba “Das 200 prá lá”, gravado por Eliana Pittman, tendo tom nacionalista afirmativo, defendia a política de expansão da fronteira marítima brasileira ao longo das 200 milhas da plataforma continental. Como a bandeira das 200 milhas era defendida pelo regime da ditadura militar (196/1985), o compositor, arguido tempos depois, de maneira chistosa declarou: “Pensaram que eu tinha virado Dom e Ravel”.

Em 1977, o LP com título do samba autobiográfico Espelho. É possível que seja a música mais conhecida de João Nogueira, em parceria com Paulo César Pinheiro. Com o mesmo parceiro compôs “Além do espelho”, pensando no filho Diogo Nogueira. As novas gerações pensam que foi Diogo que fez o samba para o pai. Quem ainda não ouviu, um e/ou o outro, com certeza vai se encantar ao ouvir. É, prezados leitores e leitoras da Vila da Utopia, pode ser o sinal decisivo que falta para vocês mergulharem na obra de um dos mais expressivos sambistas.

Com o samba “Wilson, Geraldo e Noel”, no repertório do disco, ele revela a influência da estirpe musical. João Nogueira foi a síntese refinada dos três bambas. Aliás, em 1981, ele lançou disco com músicas dos seus três sambistas preferidos, com o título: Wilson, Geraldo e Noel.

Eis as letras de “Espelho” e, respectivamente, “Além do Espelho”.

“Espelho” – “Nascido no subúrbio nos melhores dias/Com votos da família de vida feliz/Andar e pilotar um pássaro de aço/Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço/Com as fardas mais bonitas desse meu país/O pai de anel no dedo e dedo na viola/Sorria e parecia mesmo ser feliz/Ê vida boa, quanto tempo faz/Que felicidade/E que vontade de tocar viola de verdade/E de fazer canções como as que fez meu pai/Num dia de tristeza me faltou o velho/E falta lhe confesso que ainda hoje faz/E me abracei na bola e pensei ser um dia/Um craque da pelota ao me tornar rapaz/Um dia chutei mal e machuquei o dedo/E sem ter mais o velho pra tirar o medo/Foi mais uma vontade que ficou pra trás/Ê que vida à toa, vai no tempo, vai/E eu sem ter maldade/Na inocência de criança de tão pouca idade/Troquei de mal com Deus por me levar meu pai/E assim crescendo eu fui me criando sozinho/Aprendendo na rua, na escola e no lar/Um dia eu me tornei o bambambam da esquina/Em toda brincadeira, em briga, em namorar/Até que um dia eu tive que largar o estudo/E trabalhar na rua sustentando tudo/Assim sem perceber eu era adulto já/Ê vida voa, vai no tempo, vai/Ah, mas que saudade/Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade/E orgulho de seu filho ser igual seu pai/Pois me beijaram a boca e me tornei poeta/Mas tão habituado com o adverso/Eu temo se um dia me machuca o verso/E o meu medo maior é o espelho se quebrar”.

Espelho, samba clássico de João Nogueira, dá título a um dos discos do sambista

“Além do espelho” – Quando eu olho o meu olho além do espelho/Tem alguém que me olha e não sou eu/Vive dentro do meu olho vermelho/É o olhar de meu pai que já morreu/O meu olho parece um aparelho/De quem sempre me olhou e protegeu/Assim como meu olho dá conselho/Quando eu olho no olhar de um filho meu/A vida é mesmo uma missão/A morte é uma ilusão/Só sabe quem viveu/Pois quando o espelho é bom/Ninguém jamais morreu/Sempre que um filho meu me dá um beijo/Sei que o amor do meu pai não se perdeu/Só de olhar o seu olhar sei seu desejo/Assim como meu pai sabia o meu/Mas meu pai foi-se embora no cortejo/E no espelho chorei porque doeu/Só que vendo meu filho agora eu vejo/Ele é o espelho do espelho que sou eu/A vida é mesmo uma missão/A morte é uma ilusão/Só sabe quem viveu/Pois quando o espelho é bom/Ninguém jamais morreu/Toda imagem no espelho refletida/Tem mil faces que o tempo ali prendeu/Todos têm qualquer coisa repetida/Um pedaço de quem nos concebeu/A missão de meu pai já foi cumprida/Vou cumprir a missão que Deus me deu/Se meu pai foi o espelho em minha vida/Quero ser pro meu filho espelho seu/A vida é sempre uma missão/A morte é uma ilusão/Só sabe quem viveu/Pois quando o espelho é bom/Ninguém jamais morreu/E o meu medo maior é o espelho se quebrar/E o meu medo maior é o espelho se quebrar/E o meu medo maior é o espelho se quebrar/E o meu medo maior é o espelho se quebrar”.

João Nogueira, em 1978 – imagine, não poderia ser realmente diferente – lançou novo disco com o título Vida Boemia. Na capa, em foto noturna, tem ele pitando cigarro, com os Arcos da Lapa ao fundo. Na contracapa, ele tá à frente de uma roda de sambistas na mesa de um bar, repleta de garrafas de cerveja. Cenário mais autêntico de quem se inspirou em Wilson, Geraldo e Noel na música e no hábito de viver não poderia ser diferente.

O samba de abertura do repertório, “Bares da cidade”, em parceria com Paulo César Pinheiro, dá a exata dimensão do seu propósito. São citados os bares Lamas (antes na Glória, na Rua do Catete e, depois, transferido para o Flamengo, na Rua Marques de Abrantes), Capela (na Rua Mem de Sá, na Lapa), Bar Luiz (na Rua da Carioca) e Amarelinho (na Cinelândia) que integravam o círculo do roteiro da vida boemia da noite carioca, principalmente, nas décadas de 60,70 e 80. Ah, como era bom vadiar, bebericar e conversar sobre política naqueles ambientes, incluindo o Beco da Fome, em Copacabana. Reforçam o repertório “Baile no Elite”, dele com Nei Lopes; “Recado ao poeta” e “As forças da natureza” com Paulo César Pinheiro; “Moda da barriga”, “Bate boca”. “Maria Rita”, “Bela cigana”, “Amor de fato”, “Sem medo”, “A cor da esperança” e “Ao meu amigo Edgard”, letra de Noel Rosa. O samba “Baile no Elite” é ou não representação da vida noturna carioca?

“Fui a um baile no Elite, atendendo a um convite/Do Manoel Garçon (Meu Deus do Céu, que baile bom!)/Que coisa bacana, já do Campo de Santana/Ouvir o velho e bom som: trombone, sax e piston/O traje era esporte que o calor estava forte/Mas eu fui de jaquetão, pra causar boa impressão/Naquele tempo era o requinte o linho S-120/E eu não gostava de blusão (É uma questão de opinião!)/Passei pela portaria, subi a velha escadaria/E penetrei no salão/Quando dei de cara com a Orquestra Tabajara/E o popular Jamelão, cantando só samba-canção/Norato e Norega, Macaxeira e Zé Bodega/Nas palhetas e metais (E tinha muitos outros mais)/No clarinete o Severino solava um choro tão divino/Desses que já não tem mais (E ele era ainda bem rapaz!)/Refeito dessa surpresa, me aboletei na mesa/Que eu tinha já reservado (Até paguei adiantado)/Manoel, que é dos nossos, trouxe um pires de tremoços/Uma cerveja e um traçado (Pra eu não pegar um resfriado)/Tomei minha Brahma, levantei, tirei a dama/E iniciei meu bailado (No puladinho e no cruzado)/Até Trajano e Mário Jorge que são caras que não fogem/Foram embora humilhados (Eu estava mesmo endiabrado!)/Quando o astro-rei já raiava e a Tabajara caprichava/Seus acordes finais (Para tristeza dos casais)/Toquei a pequena, feito artista de cinema/Em cenas sentimentais (à luz de um abajur lilás)/Num quarto sem forro, perto do pronto-socorro/Uma sirene me acordou (em estado desesperador)/Me levantei, lavei o rosto, quase morto de desgosto/Pois foi um sonho e se acabou/(O papo é pop e o hip-hop/A Tabajara é muito cara/e o velho tempo já passou!)”.

Capa do disco Boteco do Arlindo

E aí, em 1979, João Nogueira gravou o disco Clube do Samba, chancelando uma agremiação que criou naquele ano, com a participação de Beth Carvalho, Martinho da Vila, Alcione, entre outros artistas e jornalistas. Na ocasião, confesso, tive resistência em participar da proposta, com o convite do saudoso jornalista e amigo José Carlos Rêgo. É que a idéia me remetia a casos nos quais criadores acabavam se apropriando de entidades recreativas, sendo, por exemplo, presidentes vitalícios. Bem, a questão não é relevante, no momento. O fato é que o clube funcionou na casa do João Nogueira, no Méier; depois em outros endereços, até ter sede na Barra da Tijuca. No disco, o samba de maior sucesso foi “Súplica”. Em “Iô, iô” ele tira sarro com artista baiano adotado pelo Rio, mas que andava falando mal da cidade.

A dupla João e Paulo colocou carga máxima no Boca do Povo, disco lançado em 1980, com “Poder da criação” abrindo o leque. O samba virou hino em rodas de samba e, até, hoje, é cantado pelo povo em todas as partes do país. Consta ainda da discografia de João Nogueira, em quase 20 discos, Homem aos 40, Bem transado, Pelas terras do Pau-Brasil, De amor é bom, Boteco do Arlindo, João, João Nogueira e Paulo César Pinheiro, João Nogueira e Marinho Boffa (com letra e música de Chico Buarque de Holanda) e João Nogueira de todos os sambas.

A morte de João Nogueira, vítima de infarto, na madrugada de 5 de junho de 2000, em casa, levou artistas a homenageá-lo com show Além do Espelho, transformado em disco, com participações de Chico Buarque de Holanda, João Bôsco, Arlindo Cruz, Sombrinha, Dona Ivone Lara, Emílio Santiago e Zeca Pagodinho, entre outros.

João Nogueira, em sua obra musical, registrou o compromisso assumido na vida: a concepção com o samba como expressão de alegria e contestação. Conferem em “Minha missão”:

Quando eu canto/É para aliviar meu pranto/E o pranto de quem já/Tanto sofreu/Quando eu canto/Estou sentindo a luz de um santo/Estou ajoelhando/Aos pés de Deus/Canto para anunciar o dia/Canto para amenizar a noite/Canto pra denunciar o açoite/Canto também contra a tirania/Canto porque numa melodia/Acendo no coração do povo/A esperança de um mundo novo/E a luta para se viver em paz!/Do poder da criação/Sou continuação/E quero agradecer/Foi ouvida minha súplica/Mensageiro sou da música/O meu canto é uma missão/Tem força de oração/E eu cumpro o meu dever/Aos que vivem a chorar/Eu vivo pra cantar/E canto pra viver/Quando eu canto, a morte me percorre/E eu solto um canto da garganta/Que a cigarra quando canta morre/E a madeira quando morre, canta!”.

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS. Atualmente é Assessor de Imprensa do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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