O guloso comeu tudo… Em defesa de seus direitos  

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Por Antônio Crispim*

Movimenta-se a cidade do interior (Itabira) que dá ao Brasil o maior número de divisas – Quer a mudança da direção da Vale do Rio Doce

Em 1910, um prospecto distribuído na Inglaterra, com o objetivo de reunir 500 mil libras para a compra dos depósitos de ferro de Itabira, continha estas palavras: “Dentro de algumas dezenas de anos, as jazidas do Rio Doce estarão valendo milhares de vezes mais do que o preço pelo qual podemos adquiri-las hoje, e o Império Britânico disporá da maior reserva de minério do mundo”.

Em 1942, com a guerra ameaçando a própria sobrevivência do Império, e os Estados Unidos empenhados em ganhar a partida contra o nazifascismo, acordos assinados em Washington, asseguraram ao Brasil auxílio financeiro americano para a extração e exportação, em termos amplos, do ferro do Rio Doce. E em consequência, Lord Halifax cedeu ao nosso país sem maior ônus, a posse das minas: o império britânico renunciava ao sonho.

Data daí a criação da Companhia Vale do Rio Doce, entidade controlada pelo governo brasileiro, pois a União é seu maior acionista. Instalando em Itabira, junto ao pico do Cauê, maquinaria extrativa moderna, reequipando totalmente a velha Vitória a Minas e estendendo seus trilhos até à boca da mina, essa empresa, até agora, extraiu mais de sete milhões de toneladas de ferro, das quais exportou mais de seis milhões. O valor da exportação monta a US4 73.253.487,63, ou sejam Cr$ 1.476.330.272,20.

Perto de um bilhão e meio de cruzeiros rendeu, pois, nos primeiros anos a hematita de Minas Gerais, e esse resultado permite afirmar que Itabira, sede da exploração mineira, é de todos os municípios do interior do brasileiro o que nos vem dando o maior número de divisas. Inclusive para “cadillacs”. O café, por exemplo, é um produto difuso, de várias regiões. O ferro sai, quase todo ele, só de Itabira.

Continua pobre                                                             

Extração de Ferro na mina Cauê, em 1952 (Fotos: acervo Cristina Silveira/CVRD). No destaque, a cava da mina: “o guloso comeu tudo.”

Tendo tamanha expressão econômica, era de crer que Itabira fosse hoje um município altamente evoluído, com índices modelares de progresso. Não seria concebível que vegetasse apenas à margem desse jacto intenso de dinheiro.

A verdade, porém, é outra: Itabira continua pobre, dos municípios mais pobres que possuímos. Sua zona rural, como na maior parte do território nacional, está abandonada a si mesma: sem escolas, mal servida de estradas, a subnutrição e as doenças de carência campeando entre as roças.

Quanto à sede do município, vive ainda em boa parte dos benefícios de uma câmara municipal de 1912, já inválidos pelo desgaste do tempo. Cidade de luz fraca e mau calçamento, sem esgoto, sem água tratada higienicamente, sem qualquer desses característicos básicos de uma comunidade moderna. Falta-lhe um mínimo de conforto para a vida de hoje.

De resto, trata-se de um município tradicionalmente abandonado pelos poderes públicos. Sempre lhe gabaram as riquezas e nunca lhe deram nada. Em 1910, a cidade deu-se ao luxo de votar em Ruy Barbosa para presidente da Republica e, de castigo perdeu a estrada de ferro , que ia sendo locada nas suas imediações.

E só veio a conhecer trilhos quando a segunda guerra mundial impôs aos Estados Unidos e à Grã-Bretanha a necessidade de abastecer em tempo relâmpago a sua indústria bélica, consumindo minério itabirano. Os maiorais do Estado Novo apareceram como beneméritos sem maior esforço. E da outra vez em que se lembraram de Itabira, foi para trocar-lhe o nome lendário por um nome do dia. Não pegou, é claro.

De Itabira ao Rio

Correio da Manhã, quinta-feira, 21 de abril de 1955 

Notícias de Minas dão conta do movimento popular que ora se esboça, e que já repercutiu na Assembléia Estadual. Todo o município de Itabira, cansado de esperar em vão que sua fabrica de divisas lhe dê ao menos um pouco de eletricidade e esgotos, se arregimenta para reclamar da Companhia Vale do Rio Doce esta coisa simples: que sejam cumpridos os seus estatutos. Porque estes estatutos determinam, em seu art. 3⁰.: “O domicílio da Companhia para todos os efeitos jurídicos, é a cidade do Rio de Janeiro, e o lugar de sua sede administrativa é a cidade de Itabira, no Estado de Minas Gerais”.

Acontece que a sede administrativa, localizada – nem podia deixar de ser – no ponto em que a empresa tem uma atividade fundamental, isto é, a extração de minério, funciona há treze anos, não em Itabira, mas… no Rio de Janeiro, avenida Presidente Wilson, 164.

Isto porque aos primitivos estatutos da Companhia foi adicionado um parágrafo nestes termos: “Enquanto não estiverem concluídos os trabalhos de reconstrução da E.F. Vitória a Minas e o aparelhamento das minas de Itabira, a sede administrativa da Companhia será na cidade do Rio de Janeiro”.

Missão cumprida

Observam os itabiranos, pelo seu porta-voz, sr. José Hindenburgo Gonçalves, que redigiu um lúcido e fundamentado memorial sobre o assunto, não haver razão para que permaneça no Rio o comando da Vale do Rio Doce. E provam, com o próprio relatório da diretoria, que a estrada foi reconstruída, e a mineração aparelhada:

Enquanto a Central do Brasil, com 42.819 empregados, transporta …. 1.393.306,000 toneladas-quilometro, a Vitória a Minas, com apenas 4.004 empregados transportou 1,617.622.940. no primeiro caso, cada empregado tem em seu ativo 26.136 toneladas; no segundo, 404.001. Está ou não funcionando admiravelmente a Vitória a Minas?

Gaba-se a Companhia: “É a única ferrovia brasileira que se aproxima – apesar da bitola estreita – do índice americano, cuja média, em 1951, foi de 720.000”. Mais: “A E.F. Vitoria a Minas permanece no rol das ferrovias nacionais que vivem no regime de saldo real”. Saldo que não se pode deixar de levar à conta da mercadoria por ela transportada preferencialmente e em máxima escala, o minério itabirano. Outros dados demonstram que esse produto contribuiu com 64% da receita total, e 75% da rubrica de mercadorias.

O aparelhamento das minas, por sua vez é notório: a Companhia se ufana de haver, desde 1952, cumprido a etapa inicial do seu programa (exportação anual de 1.500.000 toneladas de minério).

Em 53 – sempre o relatório – a produção foi de 2.017.355.000 toneladas. Não seria possível um resultado desses sem o aparelhamento cabal e satisfatório das minas. Mas, não se trata de dedução ou conjetura.

Consta do relatório de 52, publicado pelo “Minas Gerais” a 16 de maio de 1953, e reproduzido pelos jornais do Rio: …”A Cia. Vale do Rio Doce S.A. já concluiu a instalação mecanizada de suas minas e remodelou 91% do traçado da E.F. Vitória e Minas com o objetivo de aparelhá-la para o transporte de grandes massas de minério de suas jazidas de Itabira ao porto de Vitória.” Faltavam há três anos, 9% de recomposição da estrada. E agora?

Os que vão mudar de casa…

Tornou-se tão patente a necessidade de cumprir os estatutos da Vale do Rio Doce, que nas esferas oficiais se cogita do assunto. Mas, ao que se sabe, anda no ar a idéia de transferir a sede da Companhia, não para Itabira, mas para Belo Horizonte. Por que? Para que? Não sabemos.

A explicação que acode é simplesmente a de que, se B. Horizonte ainda não é tão gostoso como o Rio, pelo menos o é muito mais do que Itabira. Uma administração como a da Vale do Rio Doce, ocupando dois andares no Castelo, mudar-se para os casarões coloniais e inconfortáveis da terra do guarda-mor Lage?… É muito sacrifício. Folheie-se a lista telefônica e veja-se os que seriam obrigados a esse sacrifício:

Um presidente; um assistente administrativo; alguns assistentes técnicos; a consultoria jurídica, um superintendente geral, uma diretoria, um secretário da diretoria, uma sessão técnica e seus especialistas, uma secretária, uma divisão financeira (diretor, assistente, serviço de compras, serviço de importação e exportação); uma divisão administrativa: diretor, assistente, serviço de pessoal, comunicações, serviço médico, advogados, arquivo, biblioteca, estação radiotelegráfica…). O lógico seria que todo esse estado-maior, desde a primeira hora, funcionasse no local das operações, e não a centenas de quilômetros de distância.

No Rio deve existir, naturalmente, uma agência da Companhia, não a sua administração. Os ingleses mestres no assunto, ao explorarem as minas de ouro de Morro Velho, transportaram para lá seus corpos, roupas de tênis, cachimbos e hábitos. E Morro Velho é menos cidade do que Itabira. Não estão na macieza de Belo Horizonte.

A reação Municipal

Prefeito, vice-prefeito, vereadores, juízes, promotor, coletores, os dois vigários, médicos, advogados, engenheiros, banqueiros, bancários, comerciantes, comerciários, fazendeiros, operários, estudantes, o povo em suma, lembra agora ao governo federal (atenção presidente Carlos Luz), que a cidade quer ter a honra de agasalhar os dirigentes da Vale do Rio Doce.

Quer recebê-los da melhor forma e que eles indo para lá, colaborem na solução dos problemas locais. Estão satisfeitos com a eficiência da Companhia, no que toca à extração e transporte de minério, mas não estão nada satisfeitos com o resultado: 514 milhões de cruzeiros obtidos com a exportação obtidos com a exportação de 1.300.000 toneladas de minério em 1953, renderam de importação de imposto a Itabira a brincadeira de 500 mil cruzeiros (cerca de um milésimo) o que dá para pavimentar as ruas por onde rodam os pesados caminhões da Empresa, antes de inaugurada a grande transportadora mecânica.

Por outro lado, pagos os dividendos e fortalecidos os fundos de reserva e renovação patrimonial, o art.47 dos estatutos manda que os lucros excedentes sejam levados a um fundo de melhoramento e desenvolvimento da zona do Rio Doce, para execução de projetos elaborados de acordo com os governos de Minas e Espirito Santo.

As contas de 53 registram um lucro de 265 milhões de cruzeiros, mas o relatório não diz se esse fundo já está constituído. Através dele muito poderia fazer a Companhia em benefício de ambos os estados e, particularmente, da cidade que vai perdendo substância com o gradativo empobrecimento de suas jazidas, sem nenhuma compensação industrial ou urbanística.

O guloso comeu tudo…

O sr. Hindenburgo Gonçalves expôs a questão com muita objetividade, e conclui: Fez-se Volta Redonda; está em construção a usina Manesmann; projeta-se uma em Vitória com base no fornecimento do nosso minério; outra em Laguna, em Santa Catarina; e finalmente, outra em Lafaiete; em Itabira, nada. Até a que tem nome de “Aços Especiais Itabira” está situada fora de nossas plagas. Mas a nossa riqueza mineral é o sangue que fornece a sua energia. Se os técnicos opinam que as grandes siderúrgicas que dão trabalho a milhares de operários e transfiguram a face econômico de um país, não devam ser localizados em Itabira, então compete-nos procurar uma compensação para minorar as consequências dessa circunstancia negativa.”

O deputado padre Vidigal, em discurso na Assembléia mineira, agitou o assunto de maneira viva, dizendo:

“O dono da casa ficou com as migalhas que caíram da sua mesa, ocupada por um guloso que comeu tudo.”

Não queira a Vale do Rio Doce fazer esse papel de guloso insaciável, e dê a Itabira um pouco do que lhe toma…

*Antônio Crispim é pseudônimo de Carlos Drummond de Andrade

[Correio da Manhã, Rio, 21 de abril de 1955. BN-Rio/pesq.mcs1375]

 

 

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5 Comentários

  1. Cristina, A Velha em

    Minha irmã me telefona e conta da “balburdia” que a publicação dessa crônica provoca nos meios provincianos e gulosos da cansada de guerra Itabira. Foda-se! Eu digo com todas as letras: Foda-se. Tô nem aí e acho graça da descompensação emocional e de nada para o nada. Entrementes, esclareço as amigas leitoras e leitores, deste site iluminado: O que faço é ir à BN-Rio e à Casa de Rui (conserva e disponibiliza boa parte do acervo documental do poeta Drummond), e copio o que desejo. O que significa que a minha fonte não está em Itabira, a minha fonte está no Rio e tenho documentos, em papel, que me autoriza trazer pra casa as cópias. E olha, que dá um trabalhão danado transcrever do papelorium de jornal tanta informação. E muitas outras crônica do poeta serão transcritas aqui, sempre com a boa intenção por Itabira, tenho dito e amém, assim como dizia Marinha, mãe do Arp.

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