Museu de Itabira é reaberto com exposição de objetos que pertenceram a Elke Maravilha

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Depois de ficar abandonado por mais de seis anos, foi reinaugurado, no sábado (29/09), o Museu de Itabira (antigo Museu do Ferro), criado em 1971, idealizado pelo historiador itabirano José Antônio Sampaio.

Além de preservar peças rudimentares do início da mineração – e muito pouco, quase nada da atual fase da mineração, em sua nova montagem o museu ganhou uma sala de fotografia que homenageia o fotógrafo belo-horizontino Miguel Bréscia.

A fotografia na parede, clicada na década de 1936 a 1940 pelo fotógrafo Miguel Bréscia (Fotos: Divulgação/PMI)

Diferentemente do que foi divulgado pela Prefeitura, Bréscia não foi o primeiro fotógrafo a registrar em daguerreótipos a cidade de Itabira do Mato Dentro. Esse pioneirismo pertence ao latinista, tabelião, juiz de paz, jornalista e fotógrafo Brás Martins da Costa (1866-1937), que registrou a cidade no início do século passado – ele nasceu em Bom Jesus do Amparo e residiu a maior parte de sua vida em Itabira, onde hoje funciona a Escola Livre de Música.

Painel com o poema O Maior Trem do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade

Já Miguel Bréscia fotografou a cidade na década de 1930. A sua filha Maria do Carmo Bréscia Fonseca nasceu em Itabira. Ela participou da inauguração e disse que a sua família se sente honrada com a homenagem prestada ao pai.

“Sentimos orgulho ao ver que o seu nome faz parte da história da cidade de Itabira. Em nome dessa história, tenho um apelo a fazer: não deixem que ela vire cinzas”, pediu, numa alusão ao trágico incêndio que consumiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro (RJ), na noite de domingo de 2 de setembro, destruindo um dos maiores acervos de antropologia e história natural do país.

Elke Georgievna 

Outra novidade, e que permanece no Museu de Itabira até janeiro de 2019, é a exposição Uma Maravilha Itabirana: Elke, com figurinos, acessórios, objetos pessoais e fotos da artista Elke “Maravilha” Georgievna Grunnupp.

Francisca Grunnupp, irmã de Elke, nasceu em Itabira

Nascida na Rússia, na antiga Leningrado (atual São Petersburgo), ela se mudou para Itabira aos 6 anos, em 1949, com os pais, o russo George Grunnupp e a alemã Liezelotte von Sonden, que vieram para o Brasil fugindo das perseguições do stalinismo soviético.

Elke Maravilha passou, juntamente com os pais e outros três irmãos que nasceram em Itabira, parte da infância na fazenda Cubango, no distrito de Ipoema. A fazenda pertenceu a Amintas Jackes de Morais, que contratou o seu pai. “Foi doutor Colombo quem ‘pariu’ os meus três irmãos que nasceram em Itabira”, contou a artista em entrevista ao O Cometa, em março de 1981.

A sua irmã, a itabirana Francisca Grunnupp veio para a reinauguração do museu – e aqui permanece até o dia 7, recebendo os visitantes. Curadora da exposição, ela conta que a irmã e os irmãos aprenderam a gostar da culinária mineira em Itabira.

“Aqui aprendemos a apreciar a gastronomia mineira, a cachaça que o nosso pai nos oferecia para provar ainda criança, o torresmo, a feijoada, os doces. Minas é doce”, disse ela na reinauguração.

Elke Maravilha com a turma de O Cometa, no Rio (Foto: Humberto Martins)

“Elke vinha muito a Itabira e aqui fez grandes amigos, como a Myriam Brandão (ex-gestora da cultura itabirana, nas décadas de 1970/80) e a família França (Francisco Péricles França, tabelião aposentado)”, contou.

Artista genial, Elke foi modelo, manequim, fez cinema e teatro – e ficou conhecida também como jurada do Cassino do Chacrinha.

Mas Elke foi também uma militante política, uma artista que ousou desafiar a ditadura militar, que prendia e arrebentava todos os que ao regime se opunham.

Ela foi presa em 1972 depois de rasgar cartazes espalhados no aeroporto Santos Dumont, no Rio, com fotos de perseguidos políticos, procurados pelo regime militar. Entre essas fotos estava a de Atuar Angel, que depois foi assassinado pela ditadura, filho de sua amiga estilita Zuzu Angel.

A artista ficou pouco tempo presa, mas teve a nacionalidade brasileira revogada, passando a viver por muitos anos no país como cidadã sem nacionalidade. Mesmo nessa condição, ela não fugiu da luta – e brigou também pelos direitos das minorias, de cada um viver como lhe aprouver.

Elke faleceu em 16 de agosto de 2016, aos 71 anos. Foi uma pessoa alegre e descontraída – e é esse estilo de vida, leve e solto, que a exposição no Museu de Itabira procura reportar a.

“Itabira, cuja riqueza se compõe de material pesado que é o ferro, possui também duas personalidades emblemáticas que representam a leveza, a emoção, a sutilidade, a elegância, as emoções diversas, que são Carlos Drummond de Andrade e Elke Grunnup, a Elke Maravilha”, acentuou a irmã na porta do museu itabirano.

A reabertura do Museu de Itabira foi precedida por palestra do romancista e ensaísta Rui Mourão, ex-diretor do Museu da Inconfidência, de Ouro Preto. Ele contou como foi a sua implantação e a luta pela sua preservação e reunião do acervo.

Autoridades ressaltam a importância da preservação da memória histórica

A Cidadezinha Qualquer e peças do Museu de Itabira

José Don Carlos Alves Santos, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia, Inovação e Turismo (SMDECTIT), contou que há um ano a Prefeitura trabalha no restauro do Museu de Itabira. Segundo ele, a sua reforma não foi um favor, mas um compromisso que foi cumprido.

”Esse importante monumento itabirano é agora reaberto para visitas. Cada sala tem histórias para contar. Que vocês retornem aqui com mais tempo, para conhecer um pouco mais esse acervo que aqui se encontra preservado”, convidou.

O prefeito Ronaldo Magalhães (PTB) disse que com a reinauguração, Itabira resgata uma memória que estava sendo deixada de lado. “É obrigação da administração pública resguardar o patrimônio histórico-cultural da cidade. Como prefeito de uma cidade, com mais de 300 anos de história, não podia deixar que tudo o que foi construído no passado se perdesse no tempo”.

Na reforma do museu foram substituídos várias peças de madeira que estavam com cupim e descaracterizavam o patrimônio histórico.

O casarão onde foi instalado o museu já foi cadeia pública, sede da Prefeitura e da Câmara Municipal. Agora só falta destinar um local apropriado para o Arquivo Municipal, que não deve ficar no museu.

Serviço

A exposição Uma Maravilha Itabirana: Elke fica no Museu de Itabira, na Praça do Centenário, até o início de janeiro. O museu recebe visitas de terça a sexta-feira, de 9h às 18h. Aos sábados, domingos e feriados funciona de 10h30 às 16h30.

 

 

 

 

 

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3 Comentários

  1. Cristina Silveira em

    Engraçado, esta irmã da Elke não se dava com ela, isto ouvi no velório da Bela Maravilha. Mas a Elke é especial mesmo, divina. Outro caso pra contar: minha irmã me contou que em Ipoema a Elke ficou encantada com a beleza de Normando, irmão de Milton Ipoema, e num é que morreram no mesmo dia.

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