Mudar o rumo da vida

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Barba Azul*

É possível, sim, mudar o rumo da vida. Pois não se está mudando o rumo do viaduto, que foi construído em cimento armado e parecia a construção mais definitiva da cidade?

A reta inflexível traçada pelos engenheiros vai morrer agora numa curva macia, entre a avenida Tocantins e rua Sapucaí.

Os homens que passam olham admirados. Há uma surpresa nos queixos caídos. Sim senhor, o viaduto! Com efeito!

Mas a surpresa geral não invalida o fato positivo: deram outro jeito ao viaduto, para o bonde passar nele.

Diante disso, não é possível dar outro jeito à nossa vida, mudar-lhe o rumo e o destino, fazendo com que tais e tais pessoas deixem de existir para nós, que outras pessoas ocupem o lugar daquelas, e que novas combinações dêem a cada dia de nossa existência uma pequena surpresa que será uma grande felicidade?

Pois vamos mudar de destino, como a higiene manda mudar de camisa: diariamente.

*Barba Azul é pseudônimo de Carlos Drummond de Andrade
** Crônica publicada originalmente no Minas Gerais, na década de 1930

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