Leci Brandão, sambista de direito e de fato, é ativista pela igualdade racial e causa LGBT

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Lenin Novaes*

“Vou fundar uma escola de samba/Sem medo/Sem segredo e com enredo/Cheio de sensatez/Vou fundar uma escola de samba/Sem medo/Sem segredo e com enredo/Cheio de sensatez/Vou fundar uma escola de samba/De pouca riqueza e muita verdade/De gente valente cheia de vontade/Será muito mais que simples diversão/Vou fundar uma escola de samba/Que faça um desfile, mas sem passarela/Pra que a gente nobre e o povo da favela/No meu carnaval façam a sua união/E o destaque da escola de samba/Eu vou exigir que seja um sambista/Pra ver sua foto em capa de revista/Por direito e por tudo que ele sempre fez/Pois é/Vou fundar uma escola de samba/Sem serviço de som, mas com muita harmonia/Pois quando o samba é bom não falha a bateria/E pastora cantando não erra uma vez/Vou fundar uma escola de samba/Sem medo/Sem segredo e com enredo/Cheio de sensatez/Vou fundar uma escola de samba/Sem medo/Sem segredo e com enredo/Cheio de sensatez”.

Leci Brandão é deputada estadual em São Paulo pelo PCdoB (Fotos: acervo Lenin Novaes)

A letra é da música “Grêmio Recreativo Escola de Samba”, de Leci Brandão, que já firmava sua inserção no contexto do samba, nossa maior manifestação cultural popular e patrimônio nacional, no primeiro disco, Antes que eu volte a ser nada, de 1975. E, com este samba que deu título ao disco, ela participou do Festival Abertura, na TV Globo, naquele ano, mostrando que era uma sambista de direito e de fato.

Mas, até conquistar respeito e admiração de público e crítica, Leci Brandão, nascida 12 de setembro de 1944, no bairro de Madureira, e criada no bairro de Vila Isabel, redutos dos inesquecíveis Paulo da Portela e Noel Rosa, respectivamente, correu muitos núcleos de samba, sendo a primeira mulher a integrar a ala de compositores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, início dos anos 70.

Dos estudos no Colégio Pedro II e na Universidade Gama Filho, onde se tornou bacharel em Direito, ela soma mais de 20 discos gravados, inúmeros shows e, atualmente, exerce o segundo mandato de deputada estadual em São Paulo pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B). Foi conselheira da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e integrante do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, permanecendo nestes postos por dois mandatos. Em 2010 filiou-se ao PCdoB e candidatou-se ao cargo de deputada estadual, tendo sido eleita e reeleita em 2014. Enquanto parlamentar, ela se dedica à promoção da igualdade racial, do respeito às religiões de matriz africana e à cultura brasileira, pela inclusão da população negra e indígena, por mais cultura e educação, por saúde de qualidade, pela garantia de direitos dos trabalhadores, da juventude, em especial a pobre e negra, das mulheres e do segmento LGBT

A cantora em capa de disco

A primeira música que compôs é “Tema do amor de você”, em 1965. Três anos depois, com as músicas “Minha mensagem”, “Fim de carnaval” e “Favela em três tempos”, obteve o primeiro lugar no programa Flávio Cavalcanti. Em 1970 ficou classifica em 2º lugar no I Festival da Gama Filho, com “Cadê Marisa”; e, em 1973, venceu o segundo Encontro Nacional de Compositores de Samba, com Renata Lu interpretando “Quero sim”, em parceria com o saudoso amigo Darcy da Mangueira.

Convidada por Sérgio Cabral e Albino Pinheiro, em 1974, se apresentou junto com Dona Ivone Lara e Roberto Ribeiro, na Boate Pujol. Naquele ano seu samba enredo foi classificado em 2º lugar na Mangueira e, ainda, gravou “Seu Mané Luiz”, de Donga e Baiano, no disco A música de Donga, do qual participaram Elizetth Cardoso, Altamiro Carrilho, Abel Ferreira e Paulo Tapajós, entre outros, além do próprio Donga.

No segundo disco, Questão de gosto, música de sua autoria, como “Ser mulher”, “E tudo bem”, “Maria bela, Maria feia”, incluiu no repertório “Epitáfio de um sambista”, de Wilson Bombeiro e “Casa-grande e senzala”, samba-enredo da Mangueira, de Zagaia, Comprido e Leleo.

Leci Brandão integrou o grupo Movimento Aberto de Arte, em 1977, que reuniu compositores e intérpretes e com os quais participou do show Cara e coragem na  Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Lançou, no mesmo ano, o disco Coisas do meu pessoal, que tem “Decepção de uma porta-bandeira”, Sidney da Conceição e Paulo Debétio; “História de um preto velho”, Pelado da Mangueira, Hélio Turco e Comprido; e “Dona Beja – Feiticeira do Araxá”, Aurinho da Ilha; além de várias músicas de sua autoria, como “Ombro amigo”, “O chorinho e o passarinho” (c/ Sérgio Andrade), “Vamos ao teatro” e a faixa-título, entre outras.

O disco Metades é de 1978, tendo no repertório “Morenando”, de Sandra Sá; “Bela fatal”, de Paulo André, Antonio Adolfo e Ruy Barata; “Metades”, de Paulinho Rezende e Paulo Debétio; e “Nesse botequim”, de Ivan Lins, além de várias outras de sua autoria, como “Natureza” (c/ Rosinha de Valença), “Troca” (c/ João Nepomuceno) e “Ferro frio”. No ano de 1980 lançou o disco Essa tal criatura, música de grande sucesso. Também se destacam “Dobrando as cobertas”, (c/ Ivor Lancellotti), “Fim de festa” (c/ Rosinha de Valença) e “Não cala o cantor”. E eis a letra:

“Encaminhe quem não sabe ler/A conhecer primeiramente a palavra amor/E conduza quem sabe escrever/A estudar muito mais sempre até ser doutor/Mas aponte pra quem sabe tudo/Que a força da dureza não cala o cantor/Eh, cantor, eh cantor/A força da dureza não cala o cantor/Proibição da emoção/Que traz aquela verdadeira comunicação/Não cala o cantor/A matança da pujança/Dessa nossa esperança/Da nossa razão/Não cala o cantor/E essa gente negligente/Quase sempre indiferente/A nossa canção/Não cala o cantor/Não cala, não cala/Nunca vai calar, jamais, eu sei/Não cala, não/Não cala o cantor         /Não cala, não cala, não cala/Nunca vai calar, jamais, eu sei/Não cala não/Não cala o cantor”.

Por cinco anos, na década de 1980, Leci Brandão ficou sem gravar discos. A sua participação se dava em campanhas políticas, em shows em defesa das minorias. Esteve na Dinamarca, Angola e França. Por duas vezes participou do Projeto Pixinguinha, ao lado de Joyce e do Grupo Fundo de Quintal, respectivamente. Também atuou no Projeto Palco Sobre Rodas, e, no exterior, no Primeiro Festival de Luanda, no Carnaval da Dinamarca, no World Popular Song Festival, em Tóquio e, ainda, no Teatro Mogador de París, ao lado de Martinho da Vila.

Na Copacabana Discos, em 1987, lançou Dignidade, que inclui “Me perdoa poeta” (c/ Reinaldo), “Vai ter que me aturar” (c/ Zé Maurício), “Talento de verdade” (c/ Alceu Maia) e o sucesso “Só quero te namorar”. No ano seguinte gravou Um beijo no seu coração, com o qual conquistou o primeiro Disco de Ouro, devido ao sucesso da música “Olodum força divina”. Confira a música “Me perdoa poeta”:

O poeta falou/Que São Paulo enterrou o samba/Que não tinha gente bamba/E não entendi porque/Fui à Barra Funda/Fui lá no Bexiga/Fui lá na Nenê/Me perdoa poeta, mas descordo de você/Mas é que eu fui lá na Barra Funda/Fui lá no Bexiga/Fui lá na Nenê/Me perdoa poeta, mas descordo de você/Vou lembrar madrinha Eunice, tia Olimpias é Soldados Caiapós primeiro grupo/Do samba mais respeitado/Barra Funda os Boêmios/No Bexiga os Teimosos Paulistanos/Lá da Glória, Despresados Caprichosos/O poeta falou/Que São Paulo enterrou o samba/Que não tinha gente bamba/E não entendi porque/Fui à Barra Funda/Fui lá no Bexiga/Fui lá na Nenê/Me perdoa poeta, mas descordo de você/Mas é que eu fui lá na Barra Funda/Fui lá no Bexiga/Fui lá na Nenê/Me perdoa poeta, mas descordo de você/Lavapés primeira escola, cavaquinho e pandeiro/Nenê da Vila Matilde, de primeiro de janeiro/Seu Inocêncio Tobias, Pé Rachado e Carlão/Xangô da Vila Maria, Dona Sinhá a tradição/O poeta falou/Que São Paulo enterrou o samba/Que não tinha gente bamba/E não entendi porque/Fui á Barra Funda/Fui lá no Bexiga/Fui lá na Nenê/Me perdoa poeta, mas descordo de você/Mas é que eu fui lá na Barra Funda/Fui lá no Bexiga/Fui lá na Nenê/Me perdoa poeta, mas descordo de você/Zeca da Casa Verde, Geraldo Filme Talismã/Os Demônios da Garoa, o saudoso Adoniram/Botecão ao bar da Beth, o Buru esta demais/JB tem só pagode ou então Originais/O poeta falou/quas quasquasquas quasquasquas, quas/quasquasquas quasquasquas”.

Leci recebeu por duas vezes o Prêmio Sharp pelo disco Cidadã brasileira, que no repertório constam “Amor de cangaço” (c/ Mirabô e Vital Santos), “Batida do coração” (c/ Zé Maurício), “Ousadia do olhar” e “Maravilha – Araketu, semente da memória”, de autoria de Tonho Matéria. No ano de 1995 lançou o disco Anjo da Guarda, do qual se destacou “Negro Zumbi”, em parceria com Valdilene e Afro Mandela. Em 1998 participou do CD Chico Buarque de Mangueira, cantando, juntamente com ele e com Alcione a música “Alvorada”, de Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho.

Em 2000 participou do show Nelson Cavaquinho e a Mangueira, no qual apresentou, ao lado de outros artistas, músicas do homenageado e algumas de sua autoria, que versam sobre a Mangueira. Naquele mesmo ano lançou Eu sou assim, onde constam “Isso é fundo de quintal”, “Papai vadiou” e “Sabor açaí”, de Nilson Chaves; e, ainda, participou do disco Os melhores do ano II, interpretando “Auto-estima” (c/ Zé Maurício), que conta com a presença de Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e Almir Guineto, entre outros. Também figura no disco Casa de samba 4, onde canta ao lado de Péricles, “Tudo menos amor”, de Monarco e Walter Rosa.

A ativista em cartaz divulgando o jornal Lampião, em defesa da causa e dos direitos LGBT

No ano 2001 lançou Leci e convidados, cantando em dueto com vários artistas, como Jair Rodrigues, em “O samba é a nossa cara” e Art Popular, em “Teu cheiro”, de autoria de Leandro Lehart. Ano seguinte, com outros artistas, participou do disco Os melhores do ano III, no qual interpreta, em dueto com o grupo Pixote , “Natureza” (c/ Rosinha de Valença). No Sesc Pompéia, em São Paulo, gravou A Filha da Dona Lecy, segundo disco ao vivo, no qual interpreta alguns sucessos de sua carreira, entre eles, “Maria de um só João” e “Luz do teu olhar”, gravadas originalmente em discos anteriores de 1985 e 1987, respectivamente, e ainda inclui “Lilás “, de Djavan; “Sou negão”, de Rappin Hood; e “Cadê a dignidade”, de Arlindo Cruz, Sombrinha e Rubens Gordinho. Consta também “Pomba rolou”, “No mesmo manto” e “A filha da Dona Lecy”, título do disco.

Junto com Casquinha, Jorge Presença, Cláudio Camunguelo, Xangô da Mangueira, Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz, Ivan Milanez e Marquinho China participou do projeto sobre o partido-alto apresentado no Centro Cultural Banco do Brasil. Naquele mesmo ano de 2003 lançou o disco A cara do povo,no qual interpreta “Perdoa”, de Xande de Pilares e Helinho do Salgueiro, e outras composições inéditas e regravações de Jovelina Pérola Negra, Cartola com Elton Medeiros, Serginho Meriti, Bebeto e Carlinhos PQD, entre outros. Ainda no mesmo ano finalizou disco com as músicas “Sofreguidão”, de Elton Medeiros e Cartola, “Negro Zumbi”, dela com Valdilene e Afro Mandela; “Neguinho poeta”, de Serginho Meriti, Bebeto e Carlinhos PQD; “Que tal seguir em frente”, de Douglas Sapa, Didi e Ede; “Sangue bom”, de Beto Corrêa e Lúcio Curvel; e “Natureza esperança”, de Marcelo D’Aguiã e Gilson Bernini, entre outras.

Em 2007 lançou o CD e o primeiro DVD da carreira: Canções afirmativas ao vivo, em São Paulo. No DVD conta com diversas participações especiais, tais como Mano Brown (do grupo Racionais MCs), Zeca do Trombone, Alcione, Jorge Aragão, Reinaldo e Paula Lima. Destacam-se “Mesmo estando separados”, “O morro não tem vez”, “PT saudações”, “Barco à vela”, e “Deixa, deixa”, em dueto com Mano Brown. Estão sucessos como “Zé do Caroço”, “Só quero te namorar”, “Revolta Olodum”, “Bate Tambor”, “Isso é fundo de quintal”,  “Papai vadiou” e “Preferência”.

Em 2008 lançou Eu e o Samba, que conta com as participações de Mart’nália, em “O criador”, de Luiz Cláudio Picolé e Xande de Pilares; Mário Sérgio, compositor e intérprete do grupo Fundo de Quintal que faleceu recentemente, em “Sei que não valeu te amar”, de Arlindo Cruz, Júnior Dom e Maurição; e Wilson Simoninha, em “Tributo a Martin Luther King”, de Ronaldo Bôscoli e Wilson Simonal.

A música de sua autoria “Quero sim”, em parceria com Darcy da Mangueira, foi interpretada por Beth Carvalho num dos discos 100 Anos de Música popular Brasileira, coleção produzida pelo crítico musical e radialista Ricardo Cravo Albin, a partir dos seus programas “MPB 100 ao vivo”, gravações realizadas no auditório da Rádio MEC. O box integrado por quatro CDs duplos, contendo oito discos remasterizados, foi relançado em 2011.

No mesmo ano lançou a coletânea O canto livre de Leci Brandão, com repertório selecionado por Rodrigo Faour, contando com músicas extraídas de discos e compactos lançados entre os anos de 1976 e 1981, tendo as faixas inéditas de “Zé do caroço”, “Assumindo” e “Deixa, deixa”. Também foi lançado Isso é Leci Brandão, produzido por Ricardo Moreira, com foco na obra da cantora nas extintas gravadoras Copacabana e Marcus Pereira. Ela apresentou-se ao lado de Fabiana Cozza na cerimônia da 25ª edição do Prêmio da Música Brasileira, homenageando o gênero Samba, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 2016 participou, ao lado de Tantinho da Mangueira, do dia dedicado ao “Partido-alto, samba de fato”, na série “O século do Samba”, que narrou em quatro shows a evolução do gênero de 1916 a 2016, realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

Em 2004, tornou-se Conselheira da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, permanecendo nestes postos por dois mandatos (4 anos). Em fevereiro de 2010, filiou-se ao PCdoB e candidatou-se ao cargo de deputada estadual, tendo sido eleita e reeleita em 2014. Enquanto parlamentar, Leci Brandão se dedica à promoção da igualdade racial, do respeito às religiões de matriz africana e à cultura brasileira, pela inclusão da população negra e indígena, por mais cultura e educação, por saúde de qualidade, pela garantia de direitos dos trabalhadores, da juventude, em especial a pobre e negra, das mulheres e do segmento LGBT.

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional de Poesias para Jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS. É Assessor de Imprensa do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
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Sobre o Autor

3 Comentários

  1. Muito bom, gostei de poder conhecer a trajetória de Leci, camarada que admiro, verdadeira, discurso claro, simples, incisivo e profundamente comprometido com a vida de nosso povo. Parabéns, Lênin, uma importante iniciativa. Abraços

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