“Eu amo Itabira”, mas não é o que parece

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Por Mauro Andrade Moura

Eu amo Itabira como todos os demais itabiranos a devem, ou deveriam, amá-la. Amo ainda mais por ter nascido e criado meus filhos aqui, bem como por ter a cidade sido fundada por meus antepassados, compondo toda a sua relevante história inserida no contexto da história do Brasil.

Imagem da santa foi posta em um local sacro, com apoio da mesma secretaria que ergueu o monumento à breguice, em um local que nada tem de santo, mas que guarda boas histórias itabiranas: sacrilégio (Fotos: Mauro Moura

Esta crônica escrevo em decorrência do monumento feito há pouco pela atual administração municipal.

Trata-se, aliás, de um monumento à breguice, fora de propósito e de significado, coisa de cidade provinciana, lá bem do interior.

Aliás, semelhante à santa que foi colocada no poço da Água Santa [ninguém na Prefeitura quis informar quem cometeu esse sacrilégio em um lugar que de santo só tem o nome, mesmo tendo sido vista a imagem sendo transportada para o local em carro oficial do gabinete do prefeito].

Mas mesmo que esse monumento “de amor a Itabira” fizesse sentido, deveria ter sido instalado juntamente com campanha conclamando os cidadãos que aqui vivem a cuidarem melhor da cidade, dos bairros, vilas e ruas, bem como dos distritos de Senhora do Carmo e Ipoema.

Só o dizer amar é muito pouco. Aliás, esse amor deve ser demonstrado de muitas maneiras e, assim, o dizer amar se tornaria desnecessário.

Gradil de “boca de lobo” quebrado, na rua Princesa Isabel, centro histórico

A maioria das ruas de Itabira sempre tem algum buraco ou serviço de recapeamento mal feito, apresentando lombadas que dificultam o caminhar do pedestre e o trafegar de automóveis.

Boa parte dos cidadãos mantém o mau hábito de jogar embalagens diversas nas ruas e depositar o lixo doméstico fora do horário de coleta, o que acarreta um transtorno contínuo e a má apresentação aos nossos visitantes.

O serviço de transporte público sempre foi deficitário, ocasionando o excessivo trânsito de automóveis pela cidade e, consequentemente, engarrafamentos constantes.

Somando a esses tristes tópicos, temos que os ônibus são movidos a motor a óleo diesel, altamente poluente. A sua fumaça provoca câncer nas pessoas, bem como os muitos ônibus que levam os operários a trabalhar nas minas de ferro, deixando sempre o seu rastro de fumaça pelas ruas da cidade.

Passeio esburacado e matagal em bairro “nobre” da cidade: desrespeito ao pedestre

Temos ainda os veículos escolares (micro-ônibus) e diversos caminhões e caminhonetes a diesel, público e privado, boa parte sem manutenções preventivas. E são, também, grandes poluidores de nossa cidade com sua fumaça cancerígena.

A maioria dos motociclistas não respeita sinal de trânsito, cruzamento de ruas e ainda mantém o mau hábito de realizar ultrapassagem pela direita ou em espaço ínfimo para tal. Sem contar que muitos retiram o silencioso do escapamento para terem a sensação de pilotar motocicleta de grande porte, mas que na realidade só aumentam o ruído nas ruas da cidade a ser amada.

Resíduos de mercadinho postos fora de hora e sem os cuidados necessários

Outros proprietários de veículos que quase esbarram ao chão insistem em manter o volume do som no volume máximo. Nesse caso, o volume do som é inversamente proporcional ao cérebro e demonstra um péssimo gosto musical.

Os mototaxistas que avisam sua chegada para a entrega em domicílio sempre dão a sua contribuição à poluição sonora, com insistentes buzinadas.

Pedestres que passam de um lado a outro das ruas em qualquer lugar sem observar as regras da boa convivência nas ruas e avenidas são outras demonstrações de quem não está nem aí para os espaços públicos, que são da coletividade. Ou atravessam, ainda que nas faixas, conversando ou mesmo escrevendo no celular. E dão a mínima à própria segurança.

Passeio invade calçada na rua dos Padres: outra manifestação de desamor à cidade

Tudo isso sem contar o hábito de caminhar nas ruas, Nesse caso, o pedestre ainda tem a desculpa de que as nossas calçadas têm deslizes, formatos desiguais, além de entulhos diversos colocados sem a fiscalização de posturas da Prefeitura sem postura.

A falta de cuidados continuados e permanentes das praças da cidade, por jardineiros que como no passado serviam também de vigias, torna a cidade com ares de mais abandono. E de nada adianta fazer maquiagens em véspera de eleição, que não esconde o desleixo.

Mesmo com a campina e pintura, o que se observa somente agora em ano eleitoral, o povo não ajuda: nas praças e jardins a sujeira é constante e permanente. Infelizmente, o itabirano ainda conserva o mau hábito de jogar sacolas de lixo de dentro dos automóveis para as ruas, como se fossem lixeiras do mundo.

Tudo isso e muito mais demonstram que as pessoas, em sua maioria, não tem amor à cidade onde vive. Poderia relacionar vários outros maus hábitos de falta de respeito com o espaço público.

Poeira da Vale: mineradora nunca pediu desculpas pela sujeira que causa na vizinhança, sem contar as doenças respiratórias (Foto: Carlos Cruz)

Mas paro por aqui, mas antes é preciso lembrar que, além de tudo isso, ainda sofremos com a poeira das minas da Vale, que suja nossas casas sem ao menos pedir desculpas pelo incômodo causado – e nos martiriza 24 horas por dia, 365 dias do ano, como se a poluição fosse premissa para o desenvolvimento econômico.

Assim como fez o jornal O Cometa, na década de 1980, quando o Rotary lançou campanha de “Amor a Itabira”, não seria o caso de lançar uma campanha de horror a Itabira?

Mostrar todas essas mazelas provocadas pela má administração pública, e pela própria população, pode ser uma forma mais pedagógica de ensinar a cuidar melhor da cidade.

Não será essa exaltação algo metafísica, cafona e brega, e sem efeito prático, que tornará a nossa cidade uma comuna melhor para se viver. Na prática, aqui não se tem amor à Cidadezinha Qualquer, uma forma carinhosa que o poeta se referiu à sua terra natal, lembrando que vida passa devagar em Itabira do Mato Dentro.

E como passa!

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8 Comentários

    • Mauro Andrade Moura on

      Essa coisa está instalada abaixo de onde funciona a feira de Sábado.
      Naquela confluência da Salvino Pascoal com a Duque de Caxias.

  1. Cristina Silveira, roxa de raiva on

    Mauromeuquerido, o que seria de Itabira se você não fosse colunista da Vila de Utopia? Respondo eu, Itabira estaria envolta na escuridão da vida, sem uma pontinha sequer de luz.
    O prefeito de Itabira, homem raquítico de boas intenções, talvez tenha pensado que se colocasse uma estátua de santa (não consagrada) lhe garantisse a entrada no céu. Mas não entrará no céu. Já padece aqui na terra…. e talvez, daqui alguns anos herdeiros, que ele deixará riquíssimos, poderão dizer: ‘o vovô comportou-se muito mal na Prefeitura. O vovô não garantiu a vida boa pra cidade’.
    Nós ficamos aqui lutando pra garantir a memória da Cidadezinha porque somos marginais, agora Itabira , oh Itabira, tu vendestes o cérebro e corpo à mineradora criminosa (é notório).
    Eu descobri recentemente, que não amo Itabira, eu amo a Cidadezinha, porque a Itabira , a que começa em 1942, é uma cidade xucra, sem gosto, sem gás, sem energia, sem luz, um desespero mortificante. Uma cidade FRIA, sem alma.
    Cidade boa mesmo é Santa Maria de Itabira, Garrucheiro dá mole não.

    • Mauro Andrade Moura on

      Ô Cristina, como você é da procopada, então é de Santa Maria também, pois é lá do Funil.
      Itabira transformou-se numa cidade muito mal cuidada e menos ainda amada, podendo ser pelo poder público, quanto da maioria da população.
      Os maus atos estão aí espalhados pelas ruas da cidade para todos verem, conferirem e sentirem.

  2. José Norberto de Jesus on

    A cidade que se pretende ´um dia ser amada”, como sugere o mandatário mor, já foi um dia, a “cidade do bem querer”. Uma ideia de posse que vai além da cadeira do terceiro da Prefeitura, local de determinação do fluxo criativo de quem se acha proprietário. Oxe!,
    Bem quereria, se nela houvesse uma compostura tal, que fizesse a todos e todas, dela, se sentirem contemplados pela ostentação ofuscada pela ausência coletiva educação de seu povo, que pressupõe-se educado e gentil, não é.

    Distante das questões fundamentais ao bom convívio, se mostra frio, cismado e desconfiado, eis um dos perfis do itabirano, que arredio, é cidadão da conveniência intrínseca: se a benfeitoria lhe convém, aceita complacente; Do contrário, se cala receoso de ser retaliado por quem detém o “poder”.

    Certo é, que nos faltam muitos predicados, a exercer a cidadania plena, que compraz a um povo que carrega a imagem de um escritor e poeta venerado em todo país brasileiro, deixando de lado, a sua envergadura além-mar, como o bastão de nosso turismo local. Evidente que somado ao Drummond, fomos agraciados pela natureza, mas a Vale insiste e resiste aos desígnios dos que dotado de bom senso, a criticam, em véspera de sua exaustão. O legado deixado é triste de ser lembrado.

    Das múltiplas imagens citadas acima, as quais corroboro, bom seria se a ‘campanha´ proposta a ser colocada em vigor, antes de ser veiculada, pudesse ouvir o turista, o grande interessado em aqui, conhecer. O ponto de vista poderia, quem sabe, servir de alerta, essas opiniões isentas de paternalismo. Creio, contribuíram de modo relevante para o conhecimento das belezas desta “Cidadezinha qualquer “de nosso poeta maior.

    Por fim, a partir de uma perspectiva de fora para dentro, isto permitiria uma compreensão da fluidez da essência citadina, que, realmente, tem muito a oferecer, se quiserem investir na Cultura, como alavanca e que venha o Turismo a complementar.

    • Mauro Andrade Moura on

      Muito bem, Norberto, fez um bom complemento à crônica e entrou em outras minúcias a exemplificar mais ainda o desamor por nossa Itabira.

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