Dona Ivone Lara é homenageada no Dia do Samba

WhatsApp Pinterest LinkedIn +

Lenin Novaes*

Estimados leitores e leitoras da Vila de Utopia, creio que, na data comemorativa do Dia do Samba, neste sábado (2/12), é imperativo destacar e homenagear Yvonne Lara da Costa, conhecida como Dona Ivone Lara e também chamada Rainha do Samba, que ilumina nossos horizontes musicais nos seus 96 anos de idade.  Nascida em 13/4/1921, Dona Ivone Lara é diva da MPB e simboliza o meu batismo no samba. Era adolescente, quando a vi e ouvi cantando “Os cinco bailes da história do Rio”, dela, em parceria com Bacalhau e Silas de Oliveira, em 1965. Fiquei deslumbrado com a formosura daquela mulher, voz rara, peculiar, tocando cavaquinho, única entre tantos homens na ala de compositores da escola de samba Império Serrano. A expressão ‘dona’ é exclusiva dela, nossa rainha do samba, como tratamento respeitoso e reverencial. Eis o samba “Os cinco bailes da história do Rio”:

Dona Ivone Lara é reverenciada como Rainha do Samba (Fotos: Acervo Lenin Novaes)

“Lá rá rá lá rá rá rá rá/Carnaval, doce ilusão/Dê-me um pouco de magia/De perfume e fantasia/E também de sedução/Quero sentir nas asas do infinito/Minha imaginação/Eu e meu amigo Orfeu/Sedentos de orgia e desvario/Cantaremos em sonho/Os cinco bailes da história do rio/Quando a cidade completava/Vinte anos de existência/O nosso povo dançou/Em seguida era promovida a capital/A corte festejou/Iluminado estava o salão/Na noite da coroação/Ali no esplendor da alegria/A burguesia fez sua aclamação/Vibrando de emoção/O luxo, a riqueza/Imperou com imponência/A beleza fez presença/Comemorando a independência/Ao erguer a minha taça/Com euforia/Brindei aquela linda valsa/Já no amanhecer do dia/A suntuosidade me acenava/E alegremente sorria/Algo acontecia/Era o fim da monarquia”.

Décadas depois, produzindo e apresentando a Roda de Samba Museu da Imagem do Som (MIS), na Praça XV, tive o prazer de revê-la, majestosa, dominando o palco com sua dança e contagiando o público com suas músicas de grande sucesso. A minha satisfação era incontida, assim como a de Marília Trindade Barbosa da Silva, presidente do MIS; do artista plástico e pintor Melo Menezes (era dele a arte do painel com a logomarca do evento que emoldurava o palco do show) e do saudoso jornalista e amigo José Carlos Rêgo, autor do livro Dança do samba: exercício do prazer, publicação indispensável para quem deseja conhecer a performance do samba.

Numa outra oportunidade fiz a ponte entre Dona Ivone Lara e o amigo André Vianna, vocalista e instrumentista do grupo Nosso Canto, que se apresentou por anos no Botequim do Martinho da Vila, no Shopping Iguatemi, em Vila Isabel. O levei na casa dela, próxima do Conjunto Cidade do Som (Conjunto dos Músicos), onde resido. E ela o autorizou a gravar a música “Centelha de emoção”, Dona Ivone Lara e Bruno Castro, no CD O samba é a nossa paixão, gravado pelo conjunto Nosso Canto.

Compositora qualificada

Quando próximo dos 94 anos, Dona Ivone Lara, por ocasião das comemorações dos 50 anos de carreira artística, em 1997, assinou, com Paulo César Pinheiro, o samba “Bodas de ouro”. A qualidade do samba ilustra a compositora que é de mão cheia, aliada ao poeta e um dos mais expressivos compositores da história da música brasileira. Eis o samba que podemos cantar, juntos: https://musio.net.br/dona-ivone-lara/musica/bodas-de-ouro/

“La Laialaialaialaia Laialaialaialaia Laia laia/La Laialaialaia Laialaialaia laia laia/Com o samba eu casei tanto tempo faz/Com ele eu vivi minha vida em paz/Do samba eu guardei só momentos bons /Nossos corações não separam mais/O samba pra mim me caiu do céu/A ele eu jurei sempre ser fiel/E tudo que aprendi o samba me ensinou/Sempre foi o samba o meu grande amor/O samba me deu muito mais do que eu quis/O samba me fez bastante feliz/Até bodas de ouro com o samba eu já fiz/Canto pra comemorar/E vou dizer mais se eu pudesse voltar/Casava outra vez com o samba/E sei que é um amor sem fim/A Deus quero agradecer o tempo que o samba me da prazer/E se depender de mim, do samba e desse bem querer a gente tão cedo não vai morrer”.

Ivone Lara foi a primeira mulher a integrar ala de compositores

Desde que começou a compor, Dona Ivone Lara mostrou estilo próprio. Isso já se evidenciava em “Nasci para sofrer”, samba que fez para o desfile da escola de samba Prazer da Serrinha, em 1947. Com a morte dos pais José da Silva Lara e Emerentina Bento da Silva – ele, mecânico de bicicletas, violonista e integrante do Bloco dos Africanos; ela, cantora do Rancho Flor do Abacate –, Ivone Lara ficou internada no Colégio Orsina da Fonseca até os 16 anos, mas, mesmo assim, nas folgas, frequentava a casa de parentes e manteve contato com compositores, jongueiros e sambistas.

O tio Dionísio Bento da Silva, que tocava violão de sete cordas e integrava o grupo de chorões que reunia Pixinguinha e Donga, a tirou do internato e a ensinou a tocar cavaquinho. Um anúncio no Jornal do Brasil a levou à Escola de Enfermagem Alfredo Pinto. Após seis anos trabalhando como enfermeira cursou o Serviço Social e se formou em assistente social, exercendo a profissão por 37 anos, quando se aposentou em 1977. Ela, especializada em Terapia Ocupacional, trabalhou com a doutora Nise da Silveira, no Serviço Nacional de Doenças Mentais.

Desde 1945 morando em Madureira e frequentando a escola Prazer da Serrinha, ela fazia samba e partido-alto, às vezes, com o primo Fuleiro, que, em certas ocasiões, assumia a autoria das músicas, pois o preconceito predominava contra mulher sambista. Em 1947, com 25 anos, se casou com Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, presidente daquela agremiação carnavalesca. Teve dois filhos: Alfredo e Odir. O convívio com Aniceto, Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, alguns de seus futuros parceiros, a fez catedrática na arte de compor samba. Ela integrou o grupo que criou a Império Serrano e consta da época o maior sucesso da escola, “Não me perguntes”, em parceria com Fuleiro. Foi feita madrinha da ala de compositores e desfilou desde 1968 na ala das baianas. Anos mais tarde Dona Ivone Lara foi tema enredo da sua escola de coração, que, infelizmente, por falta de gestão qualificada, se desclassificou do Grupo Especial, rebaixada para o Grupo de Acesso. Mas, no Carnaval de 2018, novamente, ela irá ver a Império Serrano participando do desfile principal.

Sonho meu

Na década de 1970, a carreira de Dona Ivone Lara deu um grande salto. Gravou os CDs Sambão 70; Quem samba fica; Samba: minha verdade, minha raiz e Sorriso de criança. Em 1974, no Projeto Pixinguinha, se apresentou com Roberto Ribeiro; Cristina Buarque de Holanda gravou duas músicas de sua autoria: “Agradeço a Deus”, com Mano Décio da Viola, e “Confesso”; e fez o primeiro show, na Boate Monsieur Pujol. E, em 1976, Elizeth Cardoso gravou “Minha verdade”, com Délcio Carvalho, seu parceiro mais constante.

“Sonho meu”, gravado por Maria Bethânia e Gal Costa, no CD Álibi, de Maria Bethânia, em 1978, deu a Dona Ivone Lara o Prêmio Sharp de melhor música do ano. O samba acalentava a saudade e estimulava a volta de exilados políticos no período do regime civil-militar que sangrou o país de 1964 a 1985. O samba, que tem parceria de Délcio Carvalho, mereceu interpretações de Roberto Ribeiro, Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros artistas. Ela fechou a temporada na década de 70 fazendo shows em Paris, na França, com o Grupo Brasil, Canta e Dança.

No início da década de 1980 lançou o CD Sorriso negro, cantando em dueto com Maria Bethânia “A sereia Guiomar” e, com Jorge Benjor, “Sorriso negro”. Em 1985 fez shows em Chicago, nos Estados Unidos; e apresentações na Europa e Japão, com Martinho da Vila, Paulinho da Viola e Fundo de Quintal, ganhando reconhecimento internacional. Recebeu a Medalha Pedro Ernesto, conferida pela Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, como reconhecimento aos serviços prestados à música e à cultura.

Arte de Lína Costa

Ao completar 85 anos teve parte da trajetória artística focada em show no Teatro Municipal de Niterói. Ela gravou o primeiro DVD, cujo título é Canto de rainha, em 2009, com as participações de Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Gilberto Gil, Caetano Veloso e a Velha Guarda da Império Serrano, entre outros artistas. E, ano seguinte, gravou o CD Dona Ivone Lara, contando com participações especiais. Em 2011 foi homenageada com a Medalha Tiradentes, conferida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

O CD Baú da Dona Ivone, em 2012, tendo a participação de Nelson Sargento, Monarco, Beth Carvalho, Nei Lopes, Diogo Nogueira, Áurea Martins, Délcio Carvalho, Sombrinha e Bruno Castro, antecedeu os CDs e DVD Sambabook Dona Ivone Lara, lançados em 2015, com grande leque de atrações especiais.

Não posso deixar de apresentar a vocês, leitores da Vila de Utopia, o samba “Canto de rainha”, que Arlindo Cruz e Sombrinha fizeram em homenagem a Dona Ivone Lara:

“Tentando esquecer os amargos da vida/Um dia saí/E consegui disfarçar minha solidão/Pois descobri algo mais que a inspiração/Quando ouvi Ivone cantar/E vi toda a poesia pairar no ar/Seu canto entrou na minha vida/E fez o que quis/Hoje até posso afirmar samba é minha raiz/Quem nasceu pra sonhar e cantar/E tem sorriso de criança/Pode embalar em cada canto uma esperança/E eu descobri o que é viver/E não é sonho ver/O fruto de tanta maldade desaparecer/Se o mundo inteiro ouvir Ivone cantar ao alvorecer/(Mas olha)/Olha como a flor se acende/Se o mundo inteiro ouvir Ivone cantar ao alvorecer/Tiê, tiê Oia lá, oxá /Se o mundo inteiro ouvir Ivone cantar ao alvorecer/(Acreditar)/Acreditar eu não/Se o mundo inteiro ouvir Ivone cantar ao alvorecer/(Liberdade)/Liberdade/Se o mundo inteiro ouvir Ivone cantar ao alvorecer/Força da imaginação, vai lá/Se o mundo inteiro ouvir Ivone cantar ao alvorecer/(Sonho meu)/Sonho meu, sonho meu/Se o mundo inteiro ouvir Ivone cantar ao alvorecer” .

A obra de Dona Ivone Lara é uma inestimável contribuição à música brasileira; e ela é retentora de caráter irretocável. Quem a conhece não a esquece jamais, e aqueles que irão conhecê-la, certamente, também não a esquecerão. Não percam essa oportunidade.

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional de Poesias para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS. É Assessor de Imprensa do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

 

Compartilhe.

Sobre o Autor

1 comentário

  1. Dona Ivone Lara
    Negra, alegre. Ela traz no rosto, um sorriso alvo. Avó, compositora, cantora. Haja predicativos para enumerar as suas qualidades. Mas isso ainda, é muito pouco para contar a história dessa quase centenária mulher de tantas outras grandezas.
    Não é à toa que separei das composições, separei uma para ilustrar essa simpatia de mulher, que você tão bem Lenin sob talhar.
    Ao ler a sua reportagem, como negro, achei que essa composição me representa e preenche esse vazio que toma conta do meu ser, cuja intolerância de quem não reconhece os nossos valores, como uma pedra no caminho, um dia haverá de ser atirada para dentro da fossa e, de lá, esculpiremos um novo ser para fazer parte de uma nova sociedade onde a igualdade prevalecerá. ( José Norberto)
    Uma breve lembrança abaixo, da força dessa raça milenar que jamais se curvarar.

    Um sorriso negro, um abraço negro

    Traz…felicidade

    Negro sem emprego, fica sem sossego

    Negro é a raiz da liberdade

    .

    Negro é uma cor de respeito

    Negro é inspiração

    Negro é silêncio, é luto

    negro é…a solidão

    Negro que já foi escravo

    Negro é a voz da verdade

    Negro é destino é amor

    Negro também é saudade.. (um sorriso negro !)

    Refrão

Deixe um comentário