Viver sem violência é meu direito e de todas as mulheres

WhatsApp Pinterest LinkedIn +

Por Amanda Machado Celestino*

A minha missão hoje era ministrar uma palestra sobre a temática da mulher e sua situação de violência, mas resolvi trazer alguns questionamentos para reflexão. São perguntas com respostas extremamente óbvias, mas de pouca realização prática.

Amanda Machado, delegada de polícia, responsável pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Fotos: Carlos Cruz)

Qual o direito que um homem tem sobre o corpo de uma mulher? Qual o direito que um homem tem sobre a liberdade, sobre os pensamentos, sobre a expressão, sobre o agir ou o não agir de uma mulher? Qual o direito que um homem tem sobre a sexualidade de uma mulher? Sobre seu patrimônio? Sobre suas roupas? Sobre a sua maquiagem? Qual o direito que um homem tem de isolar sua parceira de seus amigos e de sua família, tornando-a uma peça a sua plena disposição? Quem estabeleceu que lugar de mulher é no tanque e que é a mulher a responsável exclusiva por preparar refeições e cuidar dos filhos? Quem determinou que a mulher não sabe dirigir e que mulher no volante é perigo constante?

Numa manhã de sábado, resolvi estacionar meu veículo em uma vaga muito pequena. Na frente, outro automóvel, atrás uma caçamba de entulho. À frente da vaga, uma barbearia. Não houve sequer um homem cliente do estabelecimento comercial que não observou a minha diligente entrada na vaga. Não havia notado a observação durante a manobra. Fiquei-me questionando depois se não estavam apostando que não conseguiria estacionar o carro. Quando desci, imagino que se surpreenderam um
pouco mais: uma mulher jovem. Imagino que ainda se surpreenderiam ainda mais se soubessem que essa mulher jovem e desafiadora de vagas apertadas de estacionamento também é delegada de polícia. Delegada de polícia? Tão nova?
Armada? Você tem idade para isso? Como você vai liderar a sua equipe assim? Ah, mas você é delegada de mulheres…

Eu já ouvi tudo isso e sei que ainda ouvirei tantas outras vezes. O problema não está comigo. Está em quem fala. O menosprezo à condição de mulher está tão arraigado na sociedade brasileira e tão naturalizado no cotidiano que acostumamos a ouvir e nem sempre nos chocamos. Um homem pode se colocar no lugar de uma mulher em um exercício de empatia homérico. Mas somente uma mulher, em um corpo e consciência feminina, consegue sentir a impotência de ser mulher em determinadas situações.

Quem primeiro propagou sobre a vulnerabilidade da mulher e inseriu os direitos da mulher como direito de minoria? Que vulnerabilidade? Que minoria? 51,5% da população brasileira é mulher. O conceito de vulnerabilidade atrelado ao gênero feminino soa como uma invenção do homem branco, de classe média, heterossexual.

A violência não acontece porque a mulher é vulnerável. A violência de gênero contra a mulher acontece porque existe um homem agressor. A prática de atos de violência pode atingir mulheres independentes economicamente, com alto nível de escolaridade, detentoras de informação e de voz na sociedade. Mas também atinge a mulher pobre, desempregada, mãe solteira, sem escolarização. Somos vulneráveis ou esse conceito distancia ainda mais a equalização entre os gêneros?

O que dizer sobre as doze mulheres vítimas de feminicídio por dia? O que dizer sobre as mulheres que têm vídeos e fotografias íntimas divulgados de forma viral e diariamente nas mídias sociais? O que dizer sobre as mulheres que são impedidas de trabalhar por causa do ciúme do parceiro? O que dizer sobre as duas agressões físicas a mulheres por minuto no Brasil? O que dizer sobre as mulheres que têm seus filhos expostos à violência produzida pelo pai e sobre a transmissão intergeracional da violência de gênero? O que dizer sobre as mulheres que têm seu corpo mutilado pelo fogo ou por ácidos? O que dizer sobre as apalpadelas de corpos femininos nos ônibus e sobre as secreções espermáticas nos rostos de mulheres no transporte coletivo?

O que dizer sobre as mulheres agredidas verbalmente por sua roupa, pelo seu batom, pela forma que sorri em público, pelas mensagens que recebe no Whatsapp ou pelas curtidas que recebe no Facebook? O que dizer sobre as mulheres que são estupradas no caminho da faculdade ou na suíte do casal? O que dizer sobre a proposta de criminalização do aborto que fará com que mulheres carreguem em seu ventre o fruto de um estupro? O que dizer sobre as mulheres que são ameaçadas porque seus parceiros impuseram a regra mortal de que se “elas não forem deles, não serão de mais ninguém”? Sobre essas mulheres, nós não precisamos dizer nada. Nós precisamos falar com esses homens!

Precisamos tratar a violência de gênero contra a mulher na causa, no sujeito ativo. Naquele mesmo sábado da vaga de estacionamento, acompanhei o projeto Quebrando o Silêncio em sua participação da Campanha dos 16 Dias de Ativismo. Em menos de uma hora de estada na feira livre, ponto de chegada da caminhada, eu e minhas companheiras ouvimos o suficiente para entender que os homens se entendem em uma posição de poder superior à das mulheres e que praticam naturalmente condutas diminutivas da mulher em seu meio social. Ao entregar um panfleto da campanha, uma participante ouviu: “Obrigada, GATA”. Outra ouviu: “Êh, fulano, hoje sua mulher não apanha”. Eu mesma ouvi um homem dizer que seu colega ao lado saiu de casa para beber cerveja porque a mulher havia feito um café ruim, gelado. Perguntado se ele mesmo não poderia preparar o seu café, no ponto e temperatura adequados, ele riu. Ao me apresentar como delegada, ele desapareceu.

Em outra banca um homem muito convicto disse que ouviu o seguinte conselho de sua mãe: “meu filho, se um dia você precisar, se você tiver que bater na sua mulher, se separe dela”. A princípio, uma orientação que impediria a violência, mas… “se um dia você PRECISAR? Se você TIVER que bater em uma mulher? Volto ao início: que direito um homem tem de agredir fisicamente uma mulher ou de praticar qualquer outra forma de violência?

E quando se fala em crime de gênero, ele está bem perto de nós. Peço licença para citar trechos de alguns boletins de ocorrência registrados no município de Itabira:

“Você pode entrar com o pedido de separação, mas não viverá mais um dia. Se você achava que estava sofrendo, agora você saberá o que é sofrer.”

“Ela entrou no carro do seu ex-namorado e, logo após, não satisfeito por estar saindo contra outra pessoa, lhe agrediu, desferindo vários socos, puxando o seu cabelo, ocasionando lesões na boca, face e ainda se queixou de dor no pescoço devido às agressões.”

 “Por motivos fúteis foi agredida com vários socos, que a lesionou, quebrando um dos seus dentes e arranhões no braço. O autor não satisfeito quebrou móveis, vidros da porta da cozinha, um cabo de vassoura para tentar agredi-la. Quebrou o seu celular para não ligar para a Polícia Militar.”

Exposição fotográfica Ajudem Aquela, do coletivo Filhas de Frida, de Montes Claros (MG)

“Você merece morrer mesmo.” Posteriormente, ela decidiu desfazer o relacionamento. Como a casa onde eles moram é de propriedade do pai da vítima, está solicitou que o autor se retirasse dela. Entretanto, antes que ele saísse, ela o interpelou sobre o álcool, combustível veicular, que havia comprado, ou seja, que era para ele deixá-lo no local. Todavia, de forma enfurecida, ele jogou todo o líquido em seu corpo, molhando-a completamente. Assim, com medo que ele iniciasse a ignição sobre o inflamável, ela adentrou em sua residência e acionou a polícia.”

“O autor foi na sua residência dizendo que queria ver os dois filhos do casal e assim que entrou na sua casa, começou a agredi-la na frente dos seus filhos. Relata que foi agredida com tapas na cabeça, chutes nos braços, pernas e barriga, que o autor usou uma faca de serra que encontrou na cozinha, ferindo-a, causando uma lesão em seu dedão da mão direita e tentou cortar os seus cabelos com a faca. Segundo a vítima, presume que a atitude do autor é devido a ciúmes, porque começou a se relacionar com outra pessoa e o autor ficou sabendo.”

“O autor chegou em casa com fortes sintomas de haver ingerido bebida alcoólica e agrediu-a com um soco na boca; que ele sempre faz uso imoderado de bebida alcoólica. Ele diz que ela o está traindo.”

“Eles estavam conversando e se desentenderam. A vítima estava dentro do banheiro escovando os dentes quando o autor a pegou pelo cabelo, jogando-a no piso do banheiro. Após deu-lhe vários socos no rosto; que devido às agressões veio a sofrer hematomas nos olhos, quebra de dois dentes implantados e dores pelo corpo.”

“Eu vou matar a sua mãe. Fala com ela que até o ano novo um de nós vai morrer. Vou colocar fogo na casa!”

“Conforme a testemunha, constantemente os envolvidos brigam e que há sempre agressões do autor, tendo como motivo ciúmes da sua companheira que sai para trabalhar e ele não aceita.”

“Após uma breve discussão e por motivo banal, o autor a agrediu com socos, tapas e chutes. E ainda quebrou alguns objetivos da casa, inclusive um espelho. A vítima relatou para a guarnição policial que é amasiada com o autor há aproximadamente dezoito meses, que possui com ele um filho de apenas 29 dias. E que, inclusive, ainda está se recuperando do parto.”

“A vítima foi lesionada, tendo sido arremessada contra ela uma frigideira de gordura, provocando queimadura no braço esquerdo. O autor lhe lesionou devido ao fato de sua companheira estava fritando uma salsicha e que estava demorando muito.”

Após esses relatos e todos os questionamentos lançados acima, deixo a minha última pergunta: precisamos falar com quem?
Não é à toa que a campanha dos 16 Dias de Ativismo tem como foco “homens pelo fim da violência contra a mulher”. Não podemos permitir nem uma a menos. Viver sem violência é um direito meu e de todas as mulheres.
*Dra. Amanda Machdo Celestino é delegada de Polícia, responsável pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, Comarca de Itabira

(Palestra proferida na abertura da campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, no dia 27 de novembro, no teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, Itabira – MG).

 

Compartilhe.

Sobre o Autor

Deixe um comentário