Visita ao poeta, em 1981, reforça parceria com O Cometa

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Carlos Cruz

“Foi uma boa conversa entre conterrâneos”, assim definiu Carlos Drummond de Andrade a visita que recebeu da turma do jornal O Cometa Itabirano em seu apartamento, na rua Conselheiro Lafayete, em Copacabana, cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 1981,  manhã de sábado, sol escaldante, verão bravo, uma semana antes do carnaval.

Pontualmente, às 10h como combinado, batemos campainha no sétimo andar. Drummond atendeu muito atencioso, cumprimentou um a um – e nos conduziu até a biblioteca. “Esperem um momento. Fiquem à vontade. Daqui a pouco quero saber de tudo o que vocês têm para me contar.”

Na sala anexa, o poeta itabirano concluía entrevista com a professora de Literatura da USP Rita de Cássia Barbosa. Não demorou muito, eles se levantaram. Dirigiram-se até a nós. “Quero apresentá-la aos meus conterrâneos”, Drummond a conduziu em nossa direção. Nos cumprimentamos e a professora se despediu.

Walter Gazire, Lúcio Sampaio, Carlos Cruz e Geraldo Sampaio com livros de Drummond (Fotos: Altamir Barros e Humberto Martins)

“É preciso estar sempre bêbado para pintar a lucidez”, escreveu o poeta, numa intertextualidade com poema de Baudelaire

“Então, podemos conversar”, propôs o poeta, convidando-nos para sentar na poltrona da sala. “É mais confortável”, disse. E serviu-nos uísque. Embriagamos. Ele, não. Só tomou água e guaraná.

A intenção do poeta ao nos servir uísque logo ficou clara. Era mesmo para soltar as nossas línguas. Ficou combinado previamente que a nossa conversa não seria gravada. “Vamos manter um bate-papo informal. Depois vocês publicam o que for guardado na memória.”

Drummond não liberou a gravação, mas permitiu que fossem feitas fotos à vontade. E chamou a sua mulher Dolores para nos apresentar e participar da conversa. Ela nos revela as impressões que teve do pouco tempo em que morou em Itabira, quando Drummond lecionou Geografia e Português no Ginásio Sul-Americano. Não foram boas lembranças, tanto que o casal permaneceu pouco tempo em Itabira.

Carlos Cruz conversa com Dolores e Drummond

Tiramos mais fotos, Drummond e Dolores sorriram. Nós, mais ainda. Os quadros na parede, o do meio com retrato da filha Maria Julieta, nas cores de Portinari, ajudaram a compor um ambiente com arte e poesia.

“Vocês não têm uma piada pornográfica para contar”, brincou o poeta, dizendo que era para descontrair enquanto Altamir Barros e Humberto Martins tiravam as fotos.

“Como vocês sobrevivem?”, quis saber o poeta

A cobertura da visita no jornal O Cometa

E Drummond seguia nos perguntando. Queria saber de tudo o que sabíamos sobre a Cidadezinha Qualquer. Mas, claro, o poeta falou – e muito, pura poesia para os nossos ouvidos. Perguntou pelo nosso chargista, cartunista e diagramador Genin, que não estava presente na visita.

“Gosto muito de suas caricaturas. E do bom humor de vocês”, elogiou o poeta. Disse que já quis ser humorista,  como se ele não tivesse sido. É só ler as suas crônicas, principalmente, para perceber a verve mordaz e bem-humorada que ele cultivou com rara inteligência.

E assim, jornal e poeta foram se conhecendo – e trocando impressões sobre Itabira e O Cometa. “Tenho acompanhado o trabalho de vocês e percebo uma linha coerente no que tem sido feito”, afirmou. “Um jornal irreverente, e com uma linha crítica como é o de vocês, deve encontrar sérias dificuldades para se sustentar”, observou. Acertou na “mosca”.

Notícias municipais

Da esquerda para a direita: Geraldo Sampaio, Altamir Barros, Carlos Cruz, Drummond, Lúcio Sampaio, Roger Martins da Costa e Walter Gazire. O quadro é Maria Julieta nas tintas de Portinari

Drummond conta algumas histórias de Itabira e a conversa entra para o campo de suas preocupações com o presente e futuro da cidade – apreensões que o poeta vinha manifestando pelo menos desde que escreveu Vila de Utopia, em 1933, nove anos antes da criação da Vale. Queria saber como vivia a terceira Itabira com o minério do Cauê e Conceição sendo extraído em larga escala – e como se projetava a quarta Itabira, tendo que se virar sem a mineração.

Humberto Martins, Drummond, Lúcio, Roger

E o poeta expressou o que pensa a respeito: “Uma cidade vivendo exclusivamente em função da monoindústria, não pode ficar tranquila quanto ao seu futuro. A relação de dependência é muito grande”, afirmou.

Inevitavelmente, a fotografia na parede, que não foi vista no apartamento do poeta, entrou na conversa. “Itabira nunca saiu de minhas lembranças”, revelou. O poeta mencionou o ressentimento de parte dos itabiranos, que o acusavam de se manter indiferente à realidade de sua terra natal.

“Muitos me acusam de omissão por nada fazer por Itabira. Ora, sou poeta, não exerço nenhum mandato político. O itabirano deve cobrar posicionamentos dos deputados que se elegeram com os votos dos eleitores da cidade. São eles que têm a obrigação de fazer algo pela cidade, de gritar, de protestar nas assembleias. A minha profissão é também de jornalista e sempre que alguma denúncia chega aos meus ouvidos, eu procuro repercuti-las nos jornais em que escrevo.”

O poeta prossegue criticando a histórica omissão dos políticos locais e nacionais. Lembra que é histórica a letargia do itabirano, que cruza os braços e deixa a vida passar devagar em Itabira do Mato Dentro. Esperançoso, embora ainda cético, diz acreditar que um dia o itabirano irá acordar desse sono letárgico.

Drummond analisa a relação da então estatal Companhia Vale do Rio Doce com a cidade. “Até hoje eu não sei se a Vale foi um bem ou um mal para Itabira, mais precisamente para o itabirano. Antigamente, o itabirano era irreverente, mordaz, crítico. Não via com bons olhos as coisas do governo. Ele se conduzia com uma consciência crítica, lúcida. Protestava, gritava quando achava de direito. Hoje, o itabirano me parece resignado, como se nada mais pudesse ser feito. É preciso que Itabira acorde para os seus problemas”, sugeriu esperançoso o poeta.

Tortura nunca mais

Lúcio Sampaio e Walter Gazire na janela do apartamento do poeta

E falamos da conjuntura política nacional, ainda debaixo da ditadura militar que se arrastava, matava, torturava e prendia desde abril de 1964.

“Bastou uma ex-torturada (a Inês Etienne Romeu, militante de esquerda) denunciar os seus torturadores para as Forças Armadas redigir notas, ameaçando-nos com retrocesso político”, criticou.

Inês Etienne Romeu era a única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis, um local de tortura montado pelo Centro de Informações do Exército (CIE) durante a ditadura.

Ex-líder da Vanguarda Revolucionária Palmares (VPR), Inês foi presa e torturada por 96 dias. Em 1981, ela denunciou o centro. E assim contribuiu para o avanço das investigações pelas comissões da Verdade, denunciando os porões da ditadura com os inúmeros casos de tortura a presos políticos em todo o país.

Família, almoço e despedida

Na rua Conselheiro Lafayete, após a visita: leves e felizes

Ainda no apartamento de Carlos, conhecemos a filha do casal, Maria Julieta. Na ocasião ela morava em Buenos Aires, trabalhava na Embaixada do Brasil na Argentina. Seu filho, Pedro Augusto, passou rapidamente pela sala com uma prancha de surfe, vindo da praia. “Ele é o único da família que demonstrou queda pelas artes plásticas”, disse o avô, elogiando a ilustração que o neto fez para um dos livros da filha.

Foi quando percebemos que era chegada a hora do almoço – e de ir embora. Dolores até brincou que era só aumentar água do feijão que dava para todo mundo almoçar. Agradecemos. E nos despedimos.

Num clima cordial, amigo e alegre, ficamos na companhia do itabirano Carlos Drummond de Andrade por duas horas. Na saída, Dolores chama Altamir, que se recuperava de um acidente. E lhe deu um buquê de flores. Saímos leves. E felizes.

E foi mais ou menos isso a nossa visita ao poeta. Ou quase isso. Ou tudo, fora o que esquecemos de lembrar. De tudo, ficou uma aliança tácita entre o poeta e a turma do jornal O Cometa, uma parceria que prosseguiu por muitos anos, até a sua morte em 17 de agosto de 1987. Mas aí é outra história que ainda iremos contar aqui neste site Vila de Utopia, que se inspira nas preocupações drummondianas com a sua terra natal.

 

 

 

 

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5 Comentários

  1. Que emoção gostosa de sentir. Ao ler, fiquei imaginando o bate papo com o poeta.
    Obrigada por me levar a fazer essa viagem através do texto.

  2. Claudia Valadares Meireles Martins da Costa on

    Adorei reler esta reportagem! É muito emocionante para uma ITABIRANA que sempre acompanhou O Cometa Itabirano rever meus colegas.

  3. Ricardo Martins da Costa Guerra on

    Muito interessante a reportagem! Realmente ele não era político, era poeta. Não poderiam cobrar dele atitudes para com Itabira. Viva Itabira e viva Nova Era seu ex distrito. Parabéns ao Cometa e a esta galera!

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