Visionário, Laboriau anunciou para o mundo a riqueza mineral de Itabira e previu o advento da internet

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Por Cristina Silveira*

Tico-Tico do Matto Dentro

Consultei o tio do Chico Buarque – o velho Aurélio – e agora sei que Tico-Tico, em Tupy Guarany, é Tik Tik [Tico-Tico, ave passeriforme da família dos fringilídeos]. Na roda de capoeiragem, espantar tico-tico, significa dar passos de negaça pra iludir o oponente.

Ferdinando Labouriau Filho (1893/1928): visão de futuro (Fotos: acervo MCS)

Tico-Tico do Matto Dentro vem de longe, é velho amigo de Tutu Caramujo, sábio solitário do vale do rio Doce. Agora o “Tico-Tico tá outra vez aqui, o Tito-Tico tá” aqui, na Vila de Utopia pra canjicar no passado, desceu o Pico do Cauè que os franceses viraram pra Cauê.

Da Itabira Iron Co ao acordo de Washington/Missão Souza Costa, à CVRD/Vale, o Brasil levou a maior pernada. Não há cismas, tem sim, números absolutos para saber que a mineração é riqueza falsa e passageira.

Tico-Tico do Matto Dentro alimenta a utopia da rebelião do POVO nas ruas; de uma ação civil popular do Povo de Itabira, – a cobrar a Dívida Histórica –, nalgum tribunal de Justiça da Europa, aqui não adianta, os donos do poder estão blindados pelo judiciário.

É hora de aprender a espantar tico-tico lendo Labouriau.

  1. Labouriau, Ferdinando Labouriau Filho, nascido em Niterói no dia 2 de março de 1893, morre no mar em 3 de dezembro de 1928. Professor engenheiro de mineralogia e metalurgia, conhecia o mapa das jázidas minerais do país e sabia de suas potencialidades.

Foi quadro importante nos debates em defeza da soberania nacional, elaborou parecer sobre o Caso da Itabira. Na década de 20 participou da Campanha pela reforma da educação, sobretudo defendeu a universidade focada na pesquisa científica. “Somente a instrução ao alcance efetivo de todos poderá fazer com que o nosso progredimento seja real”.

Em 1924 aderiu ao segundo ciclo tenentista, a Revolução de 24, levante deflagrado no dia 5 de julho com a ocupação do palácio dos Campos Elísios, SP, durante 3 semanas.

“Minério do Brasil (de Itabira) para o Mundo”, legendou a revista Observatório Econômico e Financeiro

Foram derotados. Labouriau acusado, – pelo procurador criminal da República, Sobral Pinto, – de guardar dinamite no porão de sua casa. Gramou 11 meses de cadeia na ilha das Flores.

De volta às ruas, aderiu a militância do Partido Democrático. Nas eleições de 28 de outubro de 1928 é eleito intendente do Conselho Municipal do 2º Distrito Federal, um mês antes de sua trágica morte.

Ainda em 1928 assina o artigo, Uma visão do anno 2000, publicado na revista O Cruzeiro. No artigo ele prevê a internet: “Melhor? Pior? – É difícil sabê-lo. Mas, seguramente, é diferente. É a era da eletricidade. Não há necessidade de sair para fazer compras: vê-se, escolhe-se, encomenda-se tudo pelo telefone-televisor automático. Como será a vida no anno 2000?”

Era 3 de dezembro de 1928, aos 35 anos de idade, Labouriau fazia parte da comissão de homegem ao mestre Santos Dumont que retornava da Europa, na ala luxuosa do navio alemão Cap Arcona, que também trazia em seus porões, um grupo grande de prisioneiros sobrevividos dos campos de Concentração nazista.

Os dois hidroaviões: Guanabara e Santos Dumont, sobrevoam o navio nas águas da baía da Guanabara para saudar o inventor do aviao quando se chocaram. Guanabara se salvou mas o Santos Dumont explodiu no ar. Uma tragédia!

Mais ainda, em 1928 Labouriau publicou o livro Curso abreviado de metalurgia, em que trata do minério de ferro que circumdava a Cidadezinha:

“A riqueza da região sidérica de Itabira do Matto Dentro é de tal modo formidável que chega a ser inimaginável […] Não basta conhecer, com efeito, o tipo do minério de surpreendente riqueza e as avaliações feitas para estimar a sua tonelagem. Mesmo para quem já conheça muitas das nossas outras jazidas de minas, a impressão que causa Itabira do Matto Dentro é de espanto.

O minério ali se apresenta em duas variedades. A mais rica tem acima de 69% de minério metálico: entre 69,2 e 69,8 (a máxima percentagem teorica desse minério – olegisto – é 70%) esse tipo de minério extraordinariamente duro e de redução difícil, […] A outra qualidade do minério daí, menos dura, mais facilmente redutível é mais abundante cerca de três vezes do que a do primeiro tipo é também extraordinariamente rica com uma média geral superior a 65% de ferro.

Gráfico das reservas de Itabira com distribuição para o mundo (Observatório Econômico e Financeiro)

A quantidade do minério do tipo duro, avaliada com uma prudência que chega a se pessimista é de 10 milhões de toneladas, para a jazida de Dois Córregos, 40 milhões de toneladas para a jazida de Conceição 1, 120 milhões de toneladas para a de Cauê. Nestes três morros somente, estão, pois, 170 milhões de toneladas dessa qualidade de minérios.

A quantidade de minério de outro tipo é aproximadamente três vezes maior ou sejam 500 milhões de toneladas em números redondos. Total: 670 milhões de toneladas. As reservas, não medidas, de profundidade, são muito mais consideráveis.

À falta de cubação e como simples índice, pode se avaliar essas três jazidas como representando uma massa geral explorável não inferior a 1.000 milhões de toneladas de um minério de ferro de qualidade superior.

Ao lado estão as jazidas do Esmeril, Santana e Periquitos, que grosseiramente podem ser computadas em 600 milhões de toneladas. Aí estão, pois, nas seis jazidas citadas ( Dois Córregos, Conceição, Cauê, Esmerial, Santana, Periquitos) circundando a cidade de Itabira do Matto Dentro, 1.600 milhões de toneladas de minério de ferro de qualidade superior.

Há, como se vê, uma sensível diferença entre essa e a avaliação pelo Serviço de Estatística do estado de Minas Gerais, para as jazidas de Itabira do Matto Dentro. Os dados que eu apresento são, porém, mais próximo da realidade. Creio poder afirmar que de fato as jazidas em torno da cidade de Itabira representam uma reserva de ordem de 1.600 milhões de toneladas.

Mil e 600 milhões de toneladas!

Para se fazer uma ideia do que isto representa atente-se ao seguinte: a população total do globo terrestre é computada hoje em 1.700 milhões de homens. Repartindo o minério de Itabira do Matto Dentro por toda a população do globo, tocaria quase que uma tonelada para cada um. […] Só o pico do Cauê, daria para 120 anos de trabalho.” (Leia mais também aqui).

Ufa! Milhares de toneladas, bilhões em dólares! Como pesa!!! Pesa, a dívida histórica do Acordo de Washington/Missão Souza Costa. Pesa, o vale do rio Doce devastado, empobrecido. Nem mesmo os ricos, brancos, ficaram mais ricos com milhares de toneladas e bilhões dólares.

Itabira do Matto Dentro! na primeira foto já haviam usurpado o seu nome lendário que Mário de Andrade repetia como música … I-ta-bi-ra-do-Ma-to-Den-tro, gostoso e tão longe… Em 1941 tem início a desgraçaria sobre o magnifico Cauè e a indgnidade humana de mineradores.

*(m.c.s/glória, 2019)

 

 

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3 Comentários

  1. Mauro Andrade Moura on

    Bem dizia meu saudoso pai, Aníbal Moura, que o minério de Itabira, nomeadamente do Cauê, fez a diferença na 2ª Guerra Mundial ajudando os aliados a combaterem e vencerem o exército nazista com os armamentos de guerra.
    E ainda serviu, consequentemente, a libertar o restante dos judeus que não foram sacrificados no holocausto.

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