Vale comunica ao mercado que produção de Itabira vai aumentar, mas não informa como resolveu as falhas estruturais na barragem Itabiruçu

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A mineradora Vale anunciou na terça-feira (23) que a barragem Itabiruçu, que recebe rejeitos do complexo Conceição, já não está no nível 1 de emergência, o que vinha ocorrendo desde outubro de 2019. Desde então as obras de alteamento foram suspensas.

Com isso, comunicou ao mercado que a produção do complexo, que no ano passado caiu para 23,9 milhões de toneladas, neste ano saltará para 40 milhões de toneladas, bem próximo de sua capacidade nominal que é de 50 milhões de toneladas.

Se por um lado a mineradora tranquiliza e injeta ânimo no mercado, por outro, sem mais informações sobre o que foi feito para alterar o nível de segurança, deixa ainda mais insegura a população de Itabira, principalmente os moradores que residem abaixo da barragem, na chamada Zona de Autossalvamento (ZAS).

Segundo a empresa, a alteração do nível de emergência ocorre após “profunda análise” das características geotécnicas da estrutura, que está para ser alteada para comportar mais rejeito, já com licença ambiental aprovada.

No entanto, as obras de alteamento foram suspensas em outubro de 2019, depois que a promotora Giuliana Talamoni Fonoff ingressou com ação cível contra a mineradora.

Isso ocorreu em decorrência de inúmeros problemas estruturais apontados no passado, e constados também pela empresa de consultoria Aecom Engenharia, que assessora o Ministério Público de Minas Gerais. Leia aqui

Perguntas sem respostas

A reportagem deste site procurou a Vale para melhor informar seu leitor sobre as mudanças e correções que ocorreram na estrutura que levaram à retirada do nível de emergência. Afinal, foi o que levou, inclusive, a juíza Cibele Mourão determinar a remoção dos detentos do presídio de Itabira, que fica abaixo da barragem.

Quis saber se os problemas estruturais que ameaçavam a segurança da barragem foram resolvidos e de que forma isso teria ocorrido. E também se terá início, enfim, o alteamento da barragem para conter mais rejeitos de minério.

Outro questionamento foi para saber se, com a volta da destinação de rejeitos na barragem, seria interrompida a disposição desse mesmo material nas cavas exauridas de Onça e Periquito, nas Minas do Meio.

A pergunta é pertinente ainda no sentido de saber se, enfim, serão liberadas as águas do aquífero para o abastecimento de Itabira e atração de novas indústrias, uma promessa da empresa de que isso seria o grande legado da mineração após a exaustão das minas.

As mesmas perguntas foram encaminhadas à Curadoria de Meio Ambiente da Comarca de Itabira. Mas a promotora Giuliana Fonoff pediu tempo para responder, já que ela se encontra sem tempo, em decorrência das investigações que o MPMG veem fazendo sobre a tragédia que vitimou os moradores de Santa Maria de Itabira no domingo (21).

Em resposta ao site, a assessoria de imprensa da Vale se limitou a responder laconicamente: “As informações que temos no momento são essas”. Não deviam ser só essas, pois há muitas perguntas sem respostas.

Análises geotécnicas

A Vale sustenta que todos os problemas encontrados na estrutura, inclusive as fissuras, foram solucionados. Mas faltou detalhar quais foram as soluções (Fotos: Carlos Cruz)

Na nota distribuída à imprensa, a Vale se limitou a informar que a retirada do nível 1 de segurança foi tomada após “profunda análise” das caraterísticas geotécnicas da barragem.

E que, a barragem já está liberada para receber rejeitos, por se manter dentro dos parâmetros legais de segurança. “A barragem já está desinterditada.”

Ainda segundo a empresa, com o apoio do Engineer of Record (EoR) e demais empresas especializadas, foram realizados diversos estudos de fundação, geologia, método construtivo, entre outros, que indicaram, com maior precisão, as condições atuais da barragem.

“Todo o trabalho foi acompanhado pela assessoria técnica do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e validado pela ANM (Agência Nacional de Mineração).”

Disse ainda que, no ano passado, foram feitas investigações geotécnicas complementares, visando determinar as medidas de engenharia necessárias para a continuidade das obras de alteamento da barragem.

A medida é considerada imprescindível para aumentar a flexibilidade operacional do complexo, de Itabira. Isso enquanto “os projetos de filtragem de rejeitos como solução definitiva para o complexo estão sendo implementados com expectativa de start-up (início da operação) em 2022”.

E conclui: “A adequação da segurança da barragem Itabiruçu reforça o compromisso da Vale em ser uma das mineradoras mais seguras do mundo, e é mais um passo importante na retomada dos 400 milhões de toneladas por ano de capacidade de produção de minério de ferro no final de 2022”, disse em nota, claramente dirigida ao mercado.

Sem explicações

Mas para tranquilizar a população de Itabira, faltou à empresa informar o que foi feito para eliminar as “fissuras” (trincas) que apareceram no novo barramento, no início das obras de alteamento.  A mineradora classifica essas “fissuras” como “abatimentos diferenciais, algo que é esperado em uma obra dessa natureza”.

De acordo com a consultoria da Aecom, as obras iniciais de alteamento foram paralisadas também pelas condições do solo – e ainda pelas características da barragem, que foi sucessivamente alteada a jusante, mesmo sendo esse o método construtivo considerado mais seguro.

“Só após a conclusão das obras de reforço, ao fim deste ano (2020), é que se avaliará a possibilidade de dar continuidade às obras de alteamento. Pode ocorrer, inclusive, de as obras parem por aí, sem que se faça o alteamento pretendido inicialmente pela empresa”, adiantou, na ocasião, a promotora Giuliana Fonoff.

MPF também aponta falhas

Ainda para tranquilizar a população de Itabira, é preciso que a empresa explique também como resolveu as falhas na estrutura e no seu monitoramento, apontado pelo Ministério Público Federal (MPF) em setembro de 2020.

Na ação em que pediu intervenção federal na mineradora, o MPF citou a precária instrumentação de controle da barragem, com falta de checagem dos equipamentos de monitoramento, “que deveriam ser feito pelos acurados ‘termômetros’ do estado das estruturas de contenção de rejeitos”.

Ao realizarem vistoria da barragem de Itabiruçu, no dia 5 de julho de 2019, Peritos do MPF também constaram o aparecimento das trincas transversais, perpendiculares à extensão da crista da barragem.

Segundo o relato dos peritos, uma das trincas transversais teria atingido a profundidade de 1,87 metro. “O monitoramento de uma possível movimentação da estrutura da barragem está sendo realizado em apenas dois momentos durante o dia, quando deveria ser permanente.”

Para os peritos, a Vale teria optado por não investir em uma base adequada de uma estação de monitoramento da estrutura, como forma de reduzir custos com a vigilância da estrutura.

Aos peritos, a Vale informou que estaria em curso a contratação de inclinômetros, que são equipamentos utilizados para medir ângulos de inclinação e de elevação das estruturas.

Além disso, os piezômetros, que são equipamentos essenciais para medir a pressão da água sobre a estrutura da barragem, também apresentaram problemas, segundo os peritos do MPF.

Segundo eles, dos 28 piezômetros instalados no corpo de sua estrutura, 11 foram considerados inoperantes. “O teste de vida constatou que eles não apresentavam leituras corretas do nível freático do local em que se situavam.”

E que, “dos pontos do corpo da barragem que deveriam ter o nível freático monitorado, 40% deles não apresentavam leituras corretas”.

Aos peritos do MPF, a Vale informou que, na execução do aterro a jusante foram instalados oito “Marcos de Recalque”, do tipo placa de medição. O objetivo desses marcos é também monitorar a estrutura da barragem.

Porém, o MPF considerou toda essa situação insustentável, abusiva e desrespeitosa aos direitos humanos e ao meio ambiente, o que coloca em dúvida a própria governança da mineradora. Leia mais aqui.

Manutenção

Na ocasião da postagem da reportagem sobre os questionamentos do MPF, a assessoria de imprensa da Vale informou que a empresa vem realizando atividades de manutenção na barragem Itabiruçu desde o início de abril de 2020.

“Essas atividades seguem as recomendações da Aecom, assessoria técnica do Ministério Público de Minas Gerais, assim como recomendações dos órgãos fiscalizadores e demais auditores.”

De acordo com a empresa, as obras de manutenção consistem em regularizações de drenagem superficial. “A empresa de construção civil Empa é a responsável pela atividade, que envolve equipamentos como caminhões, escavadeiras e carregadeiras.”

A mineradora destacou, ainda, que essas atividades não alteram as condições geotécnicas atuais da estrutura – e que a estrutura é monitorada permanentemente.

Quanto à revisão da área a ser atingida, em caso de ruptura da estrutura, informou que estava sendo realizado os estudos de manchas de “dam breack”, designação técnica para a área de inundação, assim como dos planos de ações emergenciais de todas as suas barragens em Minas Gerais.

A revisão, disse a empresa, está prevista na legislação e no termo de compromisso firmado com o estado de Minas Gerais e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). “O prazo para entrega da revisão, a partir da nova metodologia desenvolvida com base neste Termo de Compromisso, é janeiro de 2021.”

Ou seja, o prazo já venceu e essa informação ainda não chegou ao principal público interessado: a população de Itabira.

Monitoramento por aerolevantamento

Desde janeiro deste ano, a Vale vem fazendo o aerolevantamento de dados de suas barragens e diques de contenção de rejeitos em Itabira. Para isso, são utilizados sensores eletromagnéticos, que são operados por meio de helicópteros.

Segundo a assessoria de imprensa da mineradora, a tecnologia é inédita na mineração. “O objetivo é ter mais agilidade, acessibilidade e precisão nas informações coletadas acerca das barragens, diques, reservatórios – e também das cavas da mineração.

Conforme assegurou, o monitoramento é preventivo. Visa ter um melhor conhecimento das condições de segurança dessas estruturas. Leia mais aqui.

Aumento de cota

O alteamento da barragem Itabiruçu vai elevar a sua cota de 835 metros para 850 metros em relação ao nível do mar. Com a elevação, caso ocorra, conforme já foi licenciado pelo órgão ambiental estadual, a sua capacidade de armazenamento irá saltar dos atuais 222,9 milhões de metros cúbicos (Mm³) para 313 (Mm³) entre água e rejeitos.

Esse real volume foi apurado pela reportagem deste site – e é o que consta em tabela anexada ao processo junto à Superintendência de Projetos Prioritários (Supri), da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad). Leia aqui e aqui.  .

Até recentemente, a empresa divulgava que o volume atual depositado na barragem era de 130,7 Mm³ – e que a capacidade máxima do projeto seria de 223 Mm³, conforme consta no cadastro nacional de barragens ANM.

Em resposta a este site, a mineradora sustentou que essa capacidade máxima apresentada na tabela junto à Supri, que difere do que foi apresentado à ANM, “é coerente com o volume de ocupação máximo, previsto em projeto e também divulgado pela Vale”.

 

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