Uma história do Dia dos Namorados

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Se o estimado leitor tiver paciência vou começar a história contando como conheci José Carlos (JC)

Por Rafael Jasovich

JC foi meu colega de escola desde os 12 anos de idade. Cursamos juntos a faculdade, ele fez mestrado, doutorado e pós doutorado.

Ele era um cara versado em muitos assuntos, alguns mais que outros, de fala mansa e voz de locutor de rodeio. Ficou viúvo muito jovem e morava sozinho numa casa pequena num bairro de classe média.

Reencontrei ele depois de alguns anos sem nos ver num boteco perto de sua casa, um verdadeiro copo sujo, onde cheguei levado por um amigo comum.

Passei a frequentar o boteco aonde ele ia diariamente. Bebia, conversava, ouvia e discutia com os parceiros os mais diversos assuntos.

Magro, alto, moreno o que denotava a miscigenação, olhos verdes cabelos grisalhos, uma barba sempre por fazer.

Queridinho das mulheres desde o ensino médio, hoje com quase 60 anos parecia não se interessar pelo sexo feminino.

Um dia apareceu no boteco o Armando, também doutor na mesma casa de idade – e também versado em inúmeros assuntos. Acolhedor de fala macia e sedutora, passou a participar das conversas.

Ambos disputavam conhecimento e dava gosto ouvi-los. Não levantavam a voz, dirimiam as questões citando filósofos, sociólogos e juristas do presente e do passado.

Eu carecia de conhecimentos profundos, mas em compensação exercia a prática política desde minha terna adolescência, o que equilibrava as conversas.

Você, cara leitora(o), deve estar se perguntando (se ainda estiver lendo), o que isso tem a ver com o dia dos namorados. Calma, já já chego lá.

Vale dizer que todos bebíamos abundantemente cerveja com pequenas pausas para a cachaça. Na maioria das vezes saiamos do boteco entrelaçando as pernas.

No bar (eufemismo para boteco) também tinha uma moça de seus 40 anos, Beatriz, que as vezes participava das conversas. Inteligente, despachada e também versada em alguns temas, alta, magra e não muito linda para os padrões sociais. Mas que importância isso tem?

Faltava mais ou menos um mês para o dia dos namorados quando Beatriz começou a ser paquerada tanto por JC quanto pelo Armando. A disputa mantinha-se em termos educados, mas algumas vezes passava do politicamente correto.

Um pouco brincando e outro naquela que se “se colar colou”. Ambos ainda mantinham a linha.

Unos 20 dias antes do dia dos namorados, a Beatriz apareceu com uma moça de talvez de um pouco menos dos 40, loira, linda de viver, simpática, de voz doce, inteligente.

Ela também versada em assuntos que faziam parte de nossas conversas. Fernanda tinha o dom de agradar os homens e isso era percebido logo em seguida.

Aí a coisa pegou fogo. Os meus amigos voltaram às atenções para a loira, Fernanda. Todos solteiros e desimpedidos,

Fernanda parecia se divertir com a competição dos amigos e, vale dizer, que ela bebia tanto quanto nós todos.

As conversas antes de historia, filosofia, sociologia, política trocaram de rumo e conteúdo. Agora eram conversas de relacionamentos, carências, solidão e projetos em comum. Era a ante sala da paquera agora claramente externada.

Fernanda dava atenção aos dois. Às vezes quando a cantada se tornava muito direta, fazia cara de paisagem. Sorria com um sorriso maroto que excitava ainda mais os contendores.

Dois dias antes do 12 de junho a Fernanda desapareceu. JC e Armando ficaram desolados.

Perguntavam sem parar para Beatriz, cadê a Fernanda. E rindo, ela respondia: Que Fernanda?

No fim da história todos passamos o Dia dos Namorados no boteco, sem a loira.

Os meus amigos murchos começaram a duvidar até da existência da loira. Um deles comentou: acho que foi uma miragem.

JC declarou solenemente que o dia dos namorados era uma instituição comercial e que por isso ele nem ligava. As conversas voltaram ao normal, política, sociologia, história e por ai vai.

Uma vez ou outra eles se lembravam da loira. E eu acho que os corações deles ficavam apertados.

 

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