Um quadro dantesco: por que os medicamentos para intubação estão escassos

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Carlos Roberto Souza*

Sou médico anestesiologista, intensivista e emergencista há mais de 30 anos e esses fármacos fazem parte do arsenal da minha prática diária.

Os medicamentos utilizados são potentes analgésicos (medicações para dor), hipnóticos (que induzem ao sono e mantém o paciente dormindo) e os relaxantes musculares (que mantém os músculos relaxados para ação dos respiradores mecânicos).

A imprensa se refere a esses fármacos como “medicamentos para intubação ” – e essa denominação não é de todo correta.

De fato, eles são utilizados para que seja possível a introdução de um tubo nas vias aéreas do doente no início da ventilação mecânica.

Entretanto esse é só o início de um processo longo de manutenção do paciente numa prótese respiratória.

Assim, após a intubação o paciente necessita do uso continuo desses medicamentos para manter-se no aparelho.

É desse fato que advém a escassez dos medicamentos, pois esses são utilizados durante todo o tempo em que o paciente estiver em tratamento nos ventiladores.

Como é grande o número de pacientes que necessitam desses medicamentos, a oferta passa a ser cada vez menor que a demanda.

Caberia aos gestores do Sistema de Saúde fazer essa previsão e não deixar que essa situação caótica viesse a ocorrer.

O resultado é que hoje milhares de pessoas estão correndo o risco de morrerem “à míngua”, quando não são submetidos a verdadeiras sessões de torturas dentro das UTIs.

 Uma situação imperdoável

 A responsabilidade desse caos é do Governo Federal. Isso porque, ao confiscar os medicamentos, por meio de medida administrativa por requisição emergencial, hospitais de todo país e os gestores estaduais e municipais perderam a possibilidade de adquirir esses medicamentos.

O Ministério da Saúde cometeu um erro gravíssimo ao confiscar os insumos que a indústria farmacêutica produz.

Nenhum governo estadual, municipal ou instituições privadas pode adquirir esses insumos porque as empresas receberam um confisco, um sequestro do governo federal, que, por falta de planejamento e logística, não consegue distribuir os medicamentos até a ponta dos serviços de saúde.

O Ministério da Saúde cometeu, assim, um erro grave ao confiscar os insumos que a indústria farmacêutica produz.

Nenhum governo estadual, municipal ou instituições privadas pode adquirir esses insumos. É que as empresas receberam um confisco, um sequestro do governo federal.

Eu gostaria de saber por que o Ministério da Saúde não faz a distribuição desse material aos Estados, que podem levar até a ponta, nos hospitais.

O resultado dessa situação é um verdadeiro inferno.

Por todo o país, pacientes e profissionais de saúde convivem com a possibilidade de se submeterem a momentos de um horror inadmissível.

Pacientes que precisam ser intubados são mantidos em ventilação mecânica sem esses inafastáveis medicamentos.

Um quadro dantesco pelo qual o povo brasileiro não merecia estar sujeito.

*Carlos Roberto Souza é médico anestesista e bacharel em Direito.

No destaque, paciente intubado com os medicamentos apropriados tem mais chance de sobrevivência. Sem isso, é tortura para pacientes e profissionais de saúde (Foto: Tempura/Stock)

 

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1 comentário

  1. Cristina Silveira on

    Finalmente um médico, médico e não dr. Cloroquiner.
    Escreva mais, faça mensagens curtas pra publicação diária, água dura em pedra mole tanto bate até que fura.

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