Um menino de Itabira

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Domingos Carvalho da Silva*

São setenta e dois – ensinam os doutores em ciências ocultas – os anjos guardiões que orientam o nosso destino e servem de intermediários entre a Terra e a Esfera Celeste.

Observam, porém, os mesmos doutores: “como, todavia, cada ser tem sua sombra, há anjos bons, que são os referidos anjos guardiões, e outros tantos anjos maus, que são o seu reflexo negativo. Assim, por exemplo, ao anjo Damabiá, que protege contra sortilégios e dá sabedoria, opôs-se o anjo contrário, que causa tempestades e naufrágios…

Era certamente um desses gênios da sombra o “anjo torto” a quem certo menino de Itabira ouviu, ao nascer, estas palavras:

– Vai Carlos, vai ser gauche na vida.

CDA por Chico Caruso, 1982

Era uma sexta-feira – dia propício aos anjos sem luz – e esse, que intrometia palavras francesas em nosso léxico, voou na direção do Pico do Cauê, para depois submergir no inferno de ferro, de que é feito o chão itabirano.

O menino fez estremecer com um vagido agudo o cristal daquele último dia de outubro de 1902, enquanto outro anjo negro, mas benigno, a preta Maria, se multiplicava em providências próprias daquela hora de alegria e preocupação.

– É homem! É um menino! – exclamava-se pelos corredores da casa – É mais um cidadão da República! – pilheriou uma voz saudosista. E alguém observou: nasceu na véspera de Todos-os-Santos!

Sim. Nos dois dias seguintes, de Todos-os-Santos e Finados, a cidade se coloriu de uma primavera triste. Um sábado e um domingo floridos, mas silenciosos.

Depois a vida tomou o ritmo normal, os homens se entregaram ao trabalho de todos os dias e as mulheres aos seus afazeres domésticos. E Maria, que lavava as fraldas do novo filho de Carlos de Paula Andrade, cantava sobre o tanque uma cantiga ainda em voga:

Meus senhores, este caso

Faz a gente embasbacar!

No fim de Noventa e Nove

Vai o mundo se acabar.

Virá medonho cometa,

Nos diz um sábio alemão

Que há de fazer lançar tanto fogo

Que o solo fique em carvão.

Noventa e nove correra sem cometa e a vida continuava e se renovava em cada bebê que nascia, fosse ele um “nhozinho” como aquele descendente dos Andrades da rua Santana ou um rebento de libertos recentes que passavam pelas ruas e estradas cambaleando e dando vivas à princesa Isabel.

Não direi como correram os primeiros anos desse menino Carlos, no tempo em que as crianças não mamavam leite em pó nem tinham hora certa e inalterável de ter fome.

As crianças eram pequenos bichos confiantes, anunciavam com um berro o seu apetite sem regulamento e não eram arrancadas ao sono, a cada instante, pelo tímpano do telefone ou pelo estrondo do avião a jato que hoje nos sacode o telhado.

Carlos, viveu, como a maioria das crianças, os primeiros anos de vida, observando o pai que montava a cavalo, ia para o campo e a mãe que ficava sentada cosendo, aquela mãe que olhava para o seu rosto liso de menino e temia, como todas as mães, três coisas: as bexigas, a tuberculose e o serviço militar.

Por toda a parte havia gente com marcas de bexigas, os tísicos tossiam e os cegos e mutilados do Paraguai exageravam o seu heroísmo mal retribuído.

Mas além do pai, de caráter meio ríspido como todos os Andrades, além de d. Julieta, de coração flexível e alma amável, como era próprio dos Drummonds, havia ainda os irmãos sempre numerosos e a já citada Maria, devotada à criação de duas gerações da família, com o cachimbo entre a mão e a boca, o “corpo mirrado sob o lenço colorido na cabeça”, como a descreveria muitos anos mais tarde aquele menino que crescia sob os seus cuidados e desvelos.

Maria cuidava do pote de água, preparava sem atraso o almoço e o jantar, e se o pequeno Carlos queria brincar mais um pouco ainda, ela o levava para o berço, ou para a cama, com ternura e certeza do dever.

Um dia a família mudou-se e não foi fácil ao menino conhecer a nova casa. Era enorme e complicada demais. Mais tarde o poeta Carlos Drummond de Andrade a recordaria com estas palavras:

“A casa era grande, na rua Municipal: dois andares e sacadas, oferecendo a frontaria sem ornatos, maciça, impressionante, à admiração dos que passavam. Dentro dela, olhando para o pátio central, outro sobrado, este menor, guardava cômodos inúteis; parecia um pombal”.

Assim mesmo aquela casa cheia de mistérios foi sendo conquistada aos poucos pelo pequeno Carlos. Mas havia sempre um inesperado desvão de escadas ou um quarto fechado e secreto na velha morada do comendador Andrade e de dona Joana.

E, enquanto crescia, o menino ia ouvindo conversas sobre os Andrades e os Drummonds, sobre Itabira do Mato Dentro e as Minas Gerais.

O poeta escocês William Drummond de Hawthornden, cognominado o Petrarca da Escócia (Acervo: Pasquim21)

Os Andrades enchiam de episódios a história do Brasil; e os Drummonds – vindos de Portugal através de Pernambuco – procediam de um João Escócio, da Ilha da Madeira, que por sua vez, provinha de uma família de Drummonds escoceses, à qual pertencera um poeta famoso, William Drummond de Hawthornden, cognominado o Petrarca da Escócia!

Mas nada agradava ao menino como as histórias sobre a própria cidade. Os paulistas – homens barbudos e duros – tinham chegado ali dois séculos antes, descobriram ouro nos rios e, corridos vinte anos, já havia uma paroquia, com a velha matriz de Nossa Senhora do Rosário.

Logo depois Itabira era vila. Isso durante quinze anos, pois logo subira à pomposa condição de cidade! Ufanava-se, também da sua categoria de comarca, mas nos rios que cortavam o município – o Piracicaba, o Itambé, o rio do Tanque, o do Giráo e outros – a faiscação era agora um fantasma.

Entretanto, o Cauê – primeira visão do mundo para o pequeno Carlos – era a mesma lança de ferro apontada para o céu. Havia alí, sob os pés que pisavam aquela Itabira de “noventa por cento de ferro nas calçadas”, quinhentos séculos de ferro para quinhentos mundos como o nosso!

E Itabira orgulhava-se ainda das suas cinco escolas públicas e do seu hospital que vinha de meados do século passado.

Às vezes, de uma das sacadas do casarão, Carlos ouvia uma cantiga, tartamudeada por alguém que passava pela rua em ziguezagues:

Capitão Tomé

É ouro só,

Os herdeiros dele,

Molambo só…

– Maria, quem é o capitão Tomé?

Maria ressuscitava a velha crônica oral de Itabira e carregava nas cores. E falava das crueldades do capitão Tomé Nunes, ricaço de quem os negros fugiam espavoridos. Mas, como há sempre justiça – oportuna ou tardia – na vox Populi, a cantiga observava:

Os herdeiros dele,

Molambo só…

E assim ia crescendo o menino. E já tinha alma para se enternecer quando, ao cair da tarde, olhava, do alto da avenida, para as “casas resignadas e confinadas entre morros, casas que nunca se evadiram da escura paisagem da mineração”.

O mundo que ficava além das montanhas que cercam Itabira mandava notícias, e Carlos ouvia os comentários e as discussões que, pouco a pouco, lhe davam uma impressão mais precisa dos homens e das coisas.

Os japoneses estavam em moda, depois da guerra contra a Rússia e da tomada de Porto Artur. Na Rússia uma revolução derrubara, em 1905, o regime absolutista.

Mas em junho de 1907 o primeiro-ministro Stolypin dissolvera a Duna e restaurara o antigo poder. E em 1906 um brasileiro – Santos Dumont – conseguira voar alguns momentos em Paris, num aparelho mais pesado que o ar!

A idade de escola chegou e o pequeno Carlos Drummond de Andrade foi matriculado no Grupo Escolar, na verdade, já aprendera a ler com d. Julieta. Mas a obrigação de ir à aula punha-o mais em contato com a cidade e seus moradores.

CDA, primo do Petrarca da Escócia  (Acervo: Pasquim21)

Às vezes o menino saia com o pai, para esperar a correspondência. Para ele, o espetáculo da chegada das cartas e jornais era maravilhoso, pois o velho agente dos Correios, Fernando Terceiro, dava sempre um autêntico show de humorismo.

Com o pai, o pequeno Carlos ficou conhecendo também o tabelião Barnabé, entre outras figuras importantes da cidade. Mas, sem que as severas mãos paternas o levassem, foi mais de uma vez atirar pedras à casa de Didina Guerra…

E por certo, se Didina, ao de sair de casa, topava com uma pedra no meio do caminho, já sabia: era obra do pequeno Carlos Drummond de Andrade. Desse velho pecado infantil ele se desculparia, entretanto, não ia sozinho apedrejar a casa de Didina: era levado por “algum moleque”.

O grupo escolar abriu a Carlos novas perspectivas. Sabendo ler, obteve logo a admiração dos companheiros. Aquele menino esbelto, de roupa cuidada e bem penteado, em quem os colegas admiravam a inteligência e a casa grande da rua Municipal, já tinha perseguido página por página a solitária aventura de Robson Crusoé.

E, a proposito dessa leitura recordaria mais tarde o autor de “Alguma Poesia”.

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras

Lia a história de Robson Crusoé.

……………………………………………

Minha mãe ficava sentada cosendo

Olhando para mim:

 – Psiu, não acorde o menino.

……………………………………………

Lá longe meu pai campeava

No mato sem fim da fazenda.

Não havia só mangueiras nas observações botânicas do escolar Carlos Drummond de Andrade. Eram muitas as arvores de raízes de ferro que cresciam na cidade e na fazenda, e o menino jamais esqueceu as jabuticabeiras junto ao muro dos fundos do grupo escolar, onde certa vez foi armado um palco e Carlos foi transformado – sem êxito – em ator. Era mais espontâneo saborear as jabuticabas.

De Itabira – cidade que não fica muito longe de Sabará nem lhe é inferior na famosa qualidade de tal fruta – de que aparecer em público e falar com naturalidade. Para isso ele costumava um tanto gauche, o anjo de sombra não predestinara em vão. Falar ainda era possível, mas, o que fazer dos braços num palco?

Entretanto, gostava de teatro. O cinema era ainda uma experiência na Europa e em Itabira não havia sequer luz elétrica. Mas o Teatro Municipal – iluminado a carbureto – atraia-o. E ele apreciava tanto os cômicos amadores da cidade como os atores profissionais que vinham de fora.

Os mágicos e os prestidigitadores eram, porém o encanto maior para ele e seus colegas de escola. E na falta do teatro, havia o fórum perto de sua casa. As sessões do júri movimentavam a cidade, os dramas – passionais ou não – eram discutidos em toda a sala, enfim, da pasmaceira cotidiana.

Em 1909 o cometa de Halley passou a ser assunto internacional. As brigas entre italianos e turcos, por causa de Líbia empalideciam perto da ameaça que se anunciava: o cometa ia voltar.

Ora, o cometa era inofensivo, mas as pessoas supersticiosas espalhavam ideias derrotistas. Haveria guerras e catástrofes.

E os jornais, em todo o mundo, reproduziam em gravura a fisionomia vulgar de Edmundo Halley, ornada pelos caracóis brancos da peruca. Em setembro de 1909 o cometa anunciou sua presença e em maio de 1910 andava pelos céus do hemisfério sul.

Em Itabira, o escolar Carlos Drummond acompanhou atento tudo o que se disse e se fez a propósito do cometa, e jamais esqueceu a agitação e o encanto que então varreram o mundo.

O ano de 1910 ficou, para ele, como um símbolo, como o seu “Paradise lost”. Mais tarde ele diria: “Mas o bom, mesmo, o gostoso-raro-inesquecível, foi 1910.”

Nem tudo foi alegre, porém na infância de Carlos. Marcou-o de tristeza, naquela casa da rua Municipal, sólido e indecifrável labirinto que servira de berço a tantos parentes, a morte de irmãos pequenos, que partiram para o cemitério da cidade, deixando pelos corredores o pranto de d. Julieta.

Mas mesmo assim aquele menino tímido da Itabira, que jamais esqueceu os banhos da praia do Rosário, jamais deixou de completar a infância como autentica idade de ouro.

E, muitos anos mais tarde, o poeta soltaria ainda um queixume amargo, evocando sua condição de filho – como disse ele mesmo – “de pais burgueses”, elevado, homem feito, à condição de peça de uma civilização holeritizada:

Tive ouro, tive gado, tive fazenda, hoje sou funcionário público.

[Suplemento Literário de SPLSP, 10/11/1962. Hemeroteca BN-Rio]]

Na foto em destaque, o Menino e o Triciclo, escultura de Genin (Foto: Carlos Cruz)

* Domingos Carvalho da Silva* (1915-2003), escritor português que viveu no Brasil desde 1924.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

                                                          

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1 comentário

  1. Cristina Silveira on

    o texto provoca emoção profunda. Fez lembrar a minha primeira viagem de Ipoema à Sabará, quando eu era uma pequena; Sabará é a mais bela cidade de Minas Gerais. A jabuticaba como fruta brasileiríssima…. O editor, Carlos Cruz, tabém está emocionado com a beleza da crônica do Domingos, um português no Brasil.

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