“Tratamento precoce”, uma panaceia que envergonha o Brasil

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Carlos Roberto de Souza*

Quando do início da Pandemia pela Covid-19, uma série de tentativas empíricas (sem estudos científicos que as justificassem) foram realizadas no intuito de tratar a nova doença.

Naquele momento a perspicácia, o estado de arte, a intuição médica, eram validadas como medidas heroicas na intenção de se evitar a morte dos pacientes.

Uma série de medicamentos foram então utilizados nesse desiderato.

Primeiro foi a cloroquina – um quimioterápico utilizado tanto no tratamento contra protozoários causadores da malária, como também utilizado em algumas doenças reumáticas.

Posteriormente tentou-se a ivermectina e a nitazoxanida (Annita), ambos amplamente utilizados para tratamento de alguns parasitas. E, ainda, tentou-se a azitromicina – conhecido antibiótico, usado para diversas infecções bacterianas.

Acrescentou-se a esses medicamentos outras substâncias como a vitamina D e, dentre outros, os chamados oligoelementos – como o Zinco.

A justificativa   seria um possível aumento das defesas e resistência do organismo contra a virose causadora da SARS (acrômio inglês que significa Síndrome Respiratória Aguda Grave) causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2).

A esse conjunto de medicamentos, utilizados antes ou no início da doença, passou-se a chamar de “tratamento precoce” e a fazer parte do chamado ” Kit Covid”.

Como ainda não havia indícios de que eram medicamentos ineficazes como tratamento, essas tentativas eram até então plenamente justificadas.

Ocorre que, no transcurso do tempo, o uso dessas substâncias foi objeto de numerosos estudos para verificação da eficácia da terapia por eles instituída.

Entretanto, os resultados, infelizmente, mostraram que, quando comparados com placebos, em estudos realizados com rigor dos métodos científicos, já sedimentados e usuais para prática médica, esses medicamentos não tinham eficácia.

Em termos médicos e farmacológicos, a eficácia é a capacidade de um produto ou de um tratamento para fornecer um efeito benéfico.

Assim, se o tratamento não é eficaz, o médico que o utilizar, pode estar fazendo qualquer outra coisa – charlatanismo, má prática, pseudociência, curandeirismo – menos ciência.

Por outro lado, já era conhecimento assentado que esses medicamentos, quando utilizados em doses mais altas, são causadores de sérios efeitos colaterais deletérios potencialmente graves e até mesmo fatais.

Na prática clínica, a relação entre efeitos colaterais deletérios e eficácia é um dos princípios orientadores da prescrição médica.

Na balança entre benefícios e malefícios graves de um tratamento, o pêndulo deve sempre pesar sobre os benefícios, minorando ao máximo os riscos sobre a saúde e bem-estar do doente.

Diante da ausência de eficácia e no marcado risco de para-efeitos graves, tais como arritmias cardíacas graves, lesões grave ao fígado, aos rins, aos olhos, em tempos normais de boas práticas médicas, o chamado “tratamento precoce” já estaria no museu das condutas médicas, tais quais já estão a sangria e a crença de que as doenças seriam causadas por espíritos malcheirosos – os miasmas.

Todavia, para infelicidade do povo brasileiro, não estamos em tempos normais.

O negacionismo categórico para com a ciência, o desprezo pelo conhecimento e pela razão, ganham nos dias atuais ares de ideologia oficial.

Assim é que, de modo vergonhoso, médicos passaram a se curvar, como soldadinhos vestidos de branco aos ditames de um presidente completamente leigo em ciências da saúde, de notória falta de saber, mas que passou a apregoar “tratamentos e condutas” para   a cura da Covid-19.

Foi desse modo que, por decisão do presidente, o Ministério da Defesa produziu e tem em estoque 1,8 milhão de comprimidos de cloroquina no Laboratório do Exército. Esse valor representa cerca de 18 vezes a produção anual do medicamento nos anos anteriores.

Temos, portanto, estocados a cloroquina suficiente para ser usada por 18 anos.

Pateticamente o presidente chegou até mesmo a apresentar a cloroquina às emas no Palácio do Planalto.

A chamada “nova cloroquina “, ivermectina, também foi e é ”prescrita” pelo presidente.

Jair Bolsonaro fez várias menções à ivermectina, e muitas mensagens circularam no WhatsApp recomendando seu uso “para prevenir o contágio”.

Em 11 de junho de 2020, Bolsonaro também se referiu à ivermectina durante uma transmissão pela internet: “Acho que o resultado é até melhor que a cloroquina, porque mata os vermes todos”, afirmou o douto presidente.

Entretanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) e autoridades científicas do mundo inteiro alertam para a ineficácia desses medicamentos para a Covid-19.

No Brasil destaco a posição da Sociedade Brasileira de infectologia (SBI), que emitiu, no fim de junho, um alerta contra o compartilhamento na internet de supostos tratamentos para a Covid-19 e afirmando categoricamente que esses tratamentos são ineficazes e acarretam sérios riscos aos pacientes.

Não obstante, de certo, não faltará alguma voz, travestida com aura de ciência, trazendo um estudo obscuro, observacional, tentando legitimar o kit Covid, o “tratamento precoce”, contrariando o que a ciência do mundo inteiro afirma, de modo peremptório: não existe tratamento precoce para a Covid-19.

Denomina-se de estudo observacional aquele em que não é possível construir experimentos controlados do objeto em análise

Por outro lado, ineficácia do “tratamento” precoce da infecção pelo coronavírus é atestada em várias publicações científicas.

A revista científica Nature, uma das mais renomadas do mundo, publicou dois estudos que apontaram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não são úteis contra a Covid-19.

Em 16 de julho de 2020, outra revista, a Annals of Internal Medicine, mostrou que a administração de hidroxicloroquina em pacientes com quadro leve de Covid-19 também não se mostrou eficaz.

Em outubro, a OMS divulgou seus próprios resultados, com participação de 30 países envolvidos em um estudo com mais de 11,2 mil participantes. No artigo, os cientistas afirmaram ainda que, mesmo associados com quatro novos antivirais contra a Covid-19, o tratamento com ivermectina se mostrou ineficaz.

É forçoso concluir, portanto, que o que existe em verdade, é a tentativa de escamotear a realidade da grave crise sanitária, semeando ilusões que podem custar caro ao doente e ao sistema de Saúde.

Ao doente, porque cria uma falsa expectativa de cura, deixando-o à mercê de potenciais efeitos colaterais. E que acaba por o desestimular a seguir as medidas de isolamento social, além de aumentar a possibilidade de retardo no atendimento no serviço de Saúde.

Ao serviço de Saúde, porque, na ilusão de estarem protegidas, as pessoas passam a acreditar que podem abdicar das medidas de isolamento social, aumentando a transmissão da virose e colapsando, em consequência, o sistema hospitalar.

Entretanto para quem prolata que o isolamento social não deve existir, pois atrapalha a economia, o “tratamento precoce ” é um prato cheio.

É essa a aposta do presidente e para a qual um legião de médicos a ele estão a servir.

Para justificar a má prática, não sustentada com evidências científicas, médicos, e vergonhosamente, o Conselho Federal de Medicina (CFM), se sustentam na chamada ”autonomia médica”.

Entretanto, autonomia médica – cabe ressalvar, não pode ser autonomia em relação a ciência e de modo algum, uma carta branca para que médicos atuem sem as boas práticas que devem caracterizar o ato médico.

O atual estágio do conhecimento e da prática clínica exige a medicina baseada em evidências científicas.

O chamado tratamento precoce é, por tudo isso, a negação completa de princípios muito caros à profissão médica – uma panaceia que envergonha o Brasil e um perverso cálculo político.

*Carlos Roberto Souza é médico anestesista e bacharel em Direito.

No destaque, medicamentos do kit Covid (Foto: Diogo Zacarias/Correio Popular)

 

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3 Comentários

  1. Cristina silveira on

    É preciso avisar ao vice-prefeito de Itabira, que coletivos de famílias que perderam parentes pelo kit cloroquina estão organizando as ações judiciais contra os doutores Cloroquiner.

  2. Excelente artigo do Dr Carlão. Infelizmente, vivemos um tempo em que a negação da ciência é incentivada oficialmente. Curandeirismo, terraplanismo, Só falta agora defenderem o geocentrismo. Que possamos sair logo dessa era de trevas.

  3. A foto do mito pés de barro que ocupa o “trono” da presidência da República tentando dar cloroquina à ema em Brasília – como cita Carlos Roberto Souza, no texto – percorreu o mundo, em redes sociais, comprovando total falta de seriedade e competência do governo no combate à pandemia.
    Para o Carlos Roberto Souza e leitores da Vila de Utopia uma das Crônicas do Athaliba – Cuba: vacina própria à vista – no link: https://ofolhademinas.com.br/materia/34653/coluna/cuba-vacina-propria-a-vista.
    Saúde!

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