Tensão política escala

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Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato

BDM

Em meio à pandemia do coronavírus, que se aproxima do seu período mais crítico no Brasil, novas carreatas de apoiadores de Bolsonaro voltaram às ruas no fim-de-semana para protestar contra o isolamento social, enquanto o presidente acirrava o ambiente de tensão, participando de uma manifestação em favor da intervenção militar, do fechamento do Congresso e do STF, com fortes reações de membros do Judiciário, do Congresso e, também, dos governadores. A escalada da crise política preocupa e tende a manter os mercados na defensiva.

A demissão de Mandetta da Saúde não trouxe a tranquilidade que se poderia esperar; longe disso, Bolsonaro não levou um dia inteiro para começar uma nova guerra, voltando-se contra Maia e seu partido, o DEM.

Segundo relatos em várias mídias neste sábado, na tentativa de enfraquecer Maia, Bolsonaro buscou uma aproximação com partidos do Centrão, negociando cargos. Já no domingo, ajustou o discurso à sua base.

Comparecendo a uma manifestação em frente ao QG do Exército, em Brasília, o presidente subiu na caçamba de uma caminhonete e desmentiu o noticiário: “Não queremos negociar nada (…) acabou a obra da patifaria”.

Foi aclamado ao dizer que “esses políticos têm que entender que estão submissos à vontade do povo” e que “patriotas têm que fazer sua parte para garantir a democracia e o que há de mais sagrado, a nossa liberdade”.

Os cartazes pediam um novo AI-5, o #ForaMaia e o fechamento do STF, que virou alvo do presidente desde a decisão de que Estados e municípios têm autonomia para decidir medidas no combate à Covid-19.

Bolsonaro tem insistido em conclamar o povo a se manifestar contra os governadores e seu pedido está sendo atendido por muitos seguidores. As carreatas do fim de semana juntaram muita gente em São Paulo.

Já no sábado, desafiou um grupo de religiosos que se aglomerou em frente à rampa do Palácio do Planalto a “não se acovardar” [diante do coronavírus], porque o “caos do desemprego vai matar muito mais”.

Em dado momento, o presidente disse que “o vírus vai pegar 70% da população, e tanto faz que pegue hoje, ou daqui uma semana, um mês”, desprezando o objetivo do isolamento para evitar o colapso da Saúde.

Reações 

A participação de Bolsonaro nos atos antidemocráticos em frente ao QG do Exército foi criticada por ministros do Supremo Tribunal Federal, que se manifestaram à imprensa ou em suas redes sociais.

Para Marco Aurélio, “os ares são democráticos e assim continuarão; a visão totalitária merece a excomunhão maior”. Foi seguido por Luís Barroso: “É assustador ver manifestações pela volta do regime militar”.

Barroso foi retuitado no Twitter por seu maior desafeto, Gilmar Mendes, que escreveu: “A crise do coronavírus só vai ser superada com responsabilidade política. Invocar o AI-5 é rasgar o compromisso com a Constituição”.

Segundo a OAB, “o presidente atravessou o Rubicão, a sorte da democracia brasileira está lançada”.

Uma nota surpreendente foi da PGR, na qual, Augusto Aras alertou para os riscos de o estado de calamidade pública avançar para um estado de defesa ou de sítio, que poderia propiciar o surgimento de “oportunistas”.

Sem citar Bolsonaro, a PGR mencionou “os eventos noticiados neste domingo”, afirmando que “o Ministério Público tem de estar atento em defesa da democracia, para que se preservem as instituições do Estado brasileiro”.

A Associação Nacional dos Membros do Ministério Público e a Associação dos Magistrados Brasileiros também divulgaram notas em tom de preocupação e em defesa da Constituição e dos princípios da República.

Ainda vários parlamentares reagiram, entre eles, o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede), que oferecerá representação à PGR contra o presidente, “por violar a lei e atentar contra a democracia”.

Rodrigo Maia escreveu no Twitter: “O mundo inteiro está unido contra o coronavírus, mas, no Brasil, temos de lutar contra o coronavírus e o vírus do autoritarismo. É mais trabalhoso, mas venceremos”.

Em nome da Câmara, repudiou “todo e qualquer ato que defenda a ditadura”, acrescentado que isso é “uma crueldade imperdoável com as famílias das vítimas e um desprezo com doentes e desempregados”.

No destaque, o presidente Jair Bolsonaro tosse várias vezes em encontro com partidários que pediram a volta da ditadura, com a reedição do AI-5 (Foto: Sérgio Lima/AFP)

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