Retalhos das Crônicas

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Aurora Collegial nº. 195 – Ano XV, Nova Friburgo, 25.5.1919.

Historia do pinto pellado

por Carlos Drummond Andrade.

Esta historieta, quem m’a contou foi o Sr. Conselheiro, homem grave, de principios, austero até ás unhas e, dahi, incapaz de dizer futilidades.

No gallinheiro do S. Ex. – pois o Sr. Conselheiro, como qualquer mortal, tem também o seu gallinheiro – havia um pinto implume, infeliz enteado da natureza, desprezado dos irmãos e de todos, que vivia uma vida d’isolamento, lá no seu cantinho, engolindo um ou outro miseravelbago de milho verde. O desgraçado vegetava na penumbra, roendo o duro osso da miséria (chapa sentimentalona, esta!…) esperando talvez ser levado pela Parca dos galináceos, a servir de pasto ao gastrônomo requintado que é o Sr. Conselheiro. (A Parca dos gallinaceos, aqui, é a cozinheira, excelente creatura, muito perita na preparação de salada com molho de manteiga, e que delicia o estomago do Sr. Conselheiro com acepipes verdadeiramente magistraes– diga-se de passagem.)

Bem, vivia assim o desgraçado, no isolamento da sua nullidadee da sua mesquinhez, quando, num dia de primavera, viu o galinheiro deserto… Pudera! Com o tempo que fazia, tempo verdadeiramente primordial, todos os gallinaceos tinham sahido a dar um giro alli perto, a gosar do sol, que sorria bonacheirão, lá bem no alto, sobre a terra em flor.

O céo azul, sem nuvens por mais daphanas que fossem, parecia feito de turquesa, e, no longiquo horizonte, beijava a campina intermina, onde se erguiam pinheiros colossaes, esbracejando…

Ah! Quantos poemas não passariam pela mente enthusiasmada dos vates daquelle bando alado, pois ha frangos poetas, sabiam desta!

O pobre pinto pellado, vendo-se sosinho, resolveu sahir também, á frescata, mas por logares desertos onde estivesse a salvo das terriveis bicadas das galinhas…

Pulou uma cerca, a primeira cerca que pulava, e – espectaculo novo, absolutamente imprevisto – viu-se dentro do jardim do Sr. Conselheiro…

Já viram os senhores um jardim bem cultivado, num dia de primavera?

Com certeza que sim. Pois é um espectáculo phantastico, não tentarei descreve-lo: seria inutil. Pois foi num jardim assim, que estava o magrizela do pinto extasiado, ou melhor, embasbacado deante do quadro maravilhoso. Num momento, o desgraçado esqueceu toda a sua miséria, a miséria de sua miséria até, e ficou immovel, olhando para os canteiros em flor…

Por certo aquella migalha de pinto jamais vira coisa tão fascinante.

Ilustração: Genin

As flores pareciam sorrir para o desgraçadinho, surgindo da folhagem verde-perola das moitas tufadas: nas águas tranquilas do lago, onde tremiam em reflexos de oiro os raios solares, boiavam cysnes brancos… Uma orchestra de pássaros enchia o espaço com o ruído musical de sonoridades seductoras… Os jasmineiros, em que estrelavam por entre ramaria densa as corollas primeiras, tremiam ás caricias do vento sul, agitando as folhas numa palpitação onde erravam mil alegrias desabrochantes… E assim tudo, todo o jardim celebrava os esponsaes da natureza com a primavera.

Todo aquelle esplendor pertubou o nosso brutinho do gallinheiro; elle se esqueceu de si proprio, e num momento, assimilou a sublimidade da natureza…

E – ó fraqueza! ó Loucura! ó vaidade incomprehensivel! – no sonho exaltado da sua phantasia, julgou-se, também elle, um filho da primavera…

Viu-se passaro, ou borboleta, ou flor, ou mesmo raio de sol; achou-se no palácio da beleza, julgou-se bello, abrindo as suas azas, desabrochando as suas pétalas, brincando no ar primaveril, fulgurando na sombra… Incomprehensivel e subtanea metamorphose! Elle, ao mesmo tempo, era ave em flor, e era também raio de luz; toda esta mixordia, esta salada russa de complicações apareceu aos seus olhos á sua imaginativa de visionario, como uma realidade mais punitiva como uma realidade mais que positiva… Adejou no espaço, passaro que era; surgiu de um perfumado canteiro de rosa, flor que se tornára; tremeluziu um instante, doirado raio de sol…

Um louco!… Um desgraçado!… Um misero pinto sem pennas!…

Subito, com a estantane’dade de um relampago, voltou á dura realidade brutal… O sol havia derretido as azas de cêra de seu sonho de primavera… Uma dor formidolosacruciando-lhe o pésito, chamou-o a vida real: era uma formiga importuna, que lhe aferretoava, com ganas maximalistas, o seu pé de pinto pellado.

E elle voltou, assim, á sua primitiva pequenez ignorada… Era de novo pinto sem penas!

Futil, não acham? Muito fútil, a historieta… E pensam que tem um fundo moral? Talvez… julgam, porem que visa demonstrar o ridiculo da pequenez que se engrandece em sonhos? Pois erraram: ella mostra, muito simplesmente, que da boca dos conselheiros circunspectos, podem sohir, muita vez, grandes futilidades… Pois não podem?

(Pesquisa, organização e compartilhamento: Cristina Silveira)

 

 

 

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