Composição da poeira em Itabira começa a ser dissecada e requer estudos mais aprofundados sobre doenças respiratórias

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Desde dezembro do ano passado, quando a mineradora Vale passou a monitorar as partículas respiráveis (PM 2.5) em Itabira, os índices máximos admitidos pela Resolução Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) número 491, de 19 de novembro de 2018, com novos valores para o material particulado, mais restritivos que a resolução anterior, de 1990, não foram ultrapassados.

Segundo foi divulgado na primeira reunião do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema), em 14 de maio, nenhuma das quatro estações de monitoramento instaladas na cidade estourou o limite máximo definido pela resolução.

Pela média diária, no primeiro trimestre deste ano, as partículas respiráveis (PM-2.5) não ultrapassaram 54,5 microgramas por metro cúbico (µg/m³) na estação Chacrinha, 52,1 µg/m³ no Areão, Fênix em 17,2 µg/m³ – e Premem com 23,3 µg/m³.

Em relação às partículas inaláveis (PM-10), que são mais grossas e que até dezembro eram as únicas monitoradas em Itabira, juntamente com as Partículas Totais em Suspensão (PTS), os registros também ficaram, no trimestre, abaixo dos parâmetros estabelecidos pela resolução Conama.

No período a máxima diária de PM-10 foi de 69,8 µg/m³ em Chacrinha, 58,2 µg/m³ no Areão, Fênix ficou com 39,8 µg/m³ e Premem com 3,5 µg/m³.

Já a máxima de PTS, registrada no mesmo período, foi de 209,5 µg/m³. Esse parâmetro pode ser considerado elevado para o período chuvoso, mas sem ultrapassar a máxima admitida pela resolução Conama.

Estação Automática de Monitoramento do Ar na praça do Areão, agora monitora também o PM-2.5 (Fotos: Carlos Cruz e Reprodução)

Parâmetros

Com a revisão dos padrões em 2018 pela resolução Conama, esses valores foram definidos por fases, conforme explicou em palestra realizada na Semana do Meio Ambiente, promovida pela Prefeitura de Itabira, a professora Ana Carolina Freitas, da Unifei, graduada em Física pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) e pós-doutora em Ciência da Atmosfera.

Para o PM-10, na primeira fase é aceitável 120 µg/m³, na segunda fase 100 µg/m³ e numa terceira somente 75 µg/m³. E, finalmente, a resolução espera chegar ao nível da OMS, que é de 30 µg/m³.

O mesmo ocorre com o PM 2.5, sendo que o parâmetro final para a média diária é de 25 µg/m³, que também corresponde ao paramento recomendado pela OMS.

A professora Ana Carolina Freitas, da Unifei, explicou as diferentes formas de monitoramento da poluição atmosférica

O Codema, assim como fez em relação aos parâmetros da antiga resolução Conama, pode observar parâmetros mais restritivos, como por exemplo, adotando integralmente, e desde já, os índices mais restritivos definidos como aceitáveis pela OMS.

Se isso ocorrer, os índices apresentados no início deste ano, quando a poeira é menos intensa por se tratar de período chuvoso, os parâmetros tanto para o PM-10 como para o PM 2.5 teriam sido extrapolados.

Esse monitoramento é importante para se saber como anda a qualidade do ar na cidade, mas sobretudo para que sejam adotadas medidas mais eficazes nas minas para o controle da emissão de particulados. Essa poluição é agravada sobremaneira a partir de agora, com o período seco e de ventos mais fortes que sopram das minas em direção à cidade.

O monitoramento das partículas respiráveis, que são as mais finas, só teve início no ano passado a partir de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), firmado pela Vale com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio da Curadoria do Meio Ambiente, que tem à frente a promotora Giuliana Talamoni Fonoff. Leia aqui e aqui.

Até então somente eram monitoradas as Partículas Totais em Suspensão (PTS), que são mais grossas, além do PM-10.

Com a nova resolução Conama, de 2018, passou a ser obrigatório também monitorar as partículas mais finas (PM-2.5), que podem chegar aos pulmões, podendo causar danos mais graves à saúde, a exemplo de doenças cardiorrespiratórias.

Para diminuir a poluição do ar, a Vale diz realizar, “rotineiramente, em suas operações, atividades de controle de poeira, como aspersão de água nas frentes de lavra ativas, nas vias das minas e nas pilhas de homogeneização e de produtos.”

Acrescenta que como como parte dessas ações, “há o controle de velocidade nas estradas de acesso às minas e revegetação de taludes e áreas expostas para minimizar a produção de poeira.” Leia mais no final desta reportagem.

Portal do Ar

Os dados do monitoramento da qualidade do ar são compartilhados pela Vale de hora em hora, encaminhados simultaneamente à Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA) e à Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam). Entretanto, essas informações, até então, somente são divulgadas por meio de relatórios mensais nas reuniões do Codema.

A Prefeitura promete divulgar esses dados em tempo real no Portal do Ar, que está sendo criado, a partir 14 de agosto – Dia Interamericano da Qualidade do Ar, comemorado sempre na segunda sexta-feira de agosto.

Essa é uma cobrança que o site Vila de Utopia vem fazendo já há algum tempo – e que não foi atendida pela administração passada. Leia aqui e aqui

Com os dados do monitoramento das partículas mais finas, torna-se possível realizar os estudos prospectivos das doenças respiratórias no município, conforme sugeriu como necessário o professor Paulo Saldiva.

Ele coordenou os primeiros estudos sobre os impactos da poluição do ar na saúde da população itabirana, realizados em 2005 pelo Laboratório de Poluição Atmosférica, da Universidade de São Paulo (USP). Mas o resultado não foi conclusivo.

O que é poluição atmosférica

A poluição atmosférica (esfera de ar) é considerada a mais letal entre todas as formas de poluição. Segundo divulgou a revista The Lancet, com base em estudos realizados pelo Instituto de Avaliação, da Universidade de Washington, entre 2005 a 2015, foi responsável por mais de 6 milhões de mortes em todo o planeta Terra.

Isso enquanto a poluição hídrica, no mesmo período, causou 2 milhões de mortes em todo o globo, ficando a exposição a elementos tóxicos com 1 milhão de mortes. Já poluição do solo por metais pesados e produtos tóxicos provocou a morte de 500 mil pessoas, segundo divulgou em sua palestra a professora Ana Carolina Freitas.

Conforme ela conceituou, poluição atmosférica é “a presença de substâncias em concentrações suficientes para interferir direta ou indiretamente na saúde, segurança e bem-estar das pessoas ou no pleno uso e gozo de sua propriedade”.

Ainda segundo a professora, essa definição traz a ideia de limite, sendo uma substância considerada poluente quando extrapola os limites estabelecidos como valores de referência.

Fontes de emissão

Fonte: Palestra de Ana Carolina Freitas

Existem as fontes naturais de poluição do ar, a exemplo das irrupções vulcânicas por gases e partículas em suspensão, como também da poeira levantada pelo arraste eólico em uma estrada não pavimentada, por exemplo. “O pólen é outro poluente natural”, relaciona a professora da Unifei.

Entretanto, conforme ela acentuou, a maior parte das poluições é devida à ação humana (antrópica) – e pode advir dos meios de transporte, da indústria, construção civil, combustão, agricultura.

“Dentre os poluentes que têm mais efeito nocivo à saúde estão os materiais particulados, que são uma mistura de componentes sólidos e líquidos. Esses materiais podem variar na composição, no tamanho e de acordo com a fonte de emissão e condições meteorológicas presentes no ambiente”, explica a professora Ana Carolina.

É o caso da poeira proveniente das minas da Vale, mas também das fuligens das queimadas e dos incêndios florestais, da fabricação de carvão vegetal e dos altos fornos siderúrgicos do Vale do Aço e João Monlevade.

Dessas localidades, pelo arraste eólico, a poluição pode chegar a Itabira, assim como a poeira das minas podem ser arrastadas até Santa Maria de Itabira, por exemplo.

O que são partículas inaláveis (PM-10) e respiráveis (PM 2.5)

Queimadas e fuligens de carvoarias também contribuem com a poluição do ar

Pm-10 são as partículas grossas inaláveis e que ficam retidas no sistema respiratório superior, nos filtros existentes no nariz. Podem causar doenças respiratórias como rinite, sinusite, faringite.

Já o PM-2.5 são partículas finas respiráveis. Essas podem penetrar profundamente no organismo, chegando aos pulmões, sendo que partículas ultrafinas de 0.1 µg podem chegar à corrente sanguínea.

“São as partículas mais danosas à saúde, pois conseguem penetrar profundamente em nossos pulmões”, explica a professora Ana Carolina.

“Quando chegam nos alvéolos pulmonares, causam inflamação e podem se combinar com os glóbulos vermelhos e entrar na corrente sanguínea, atingindo todo o nosso organismo”, ela acentua.

Essas partículas podem também atingir o sistema nervoso, a medula óssea, causando vários problemas à saúde humana.”

Composição

A Unifei, em parceria com a USP, fez a caracterização do material particulado que polui o ar em Itabira, por meio de amostragem.

No PM 2.5, de acordo com o estudo realizado pela Unifei em parceria com USP, foi encontrado 32% de enxofre, um não metal encontrado na constituição dos aminoácidos de plantas e animais – e também em minerais, com presença de 16% de ferro.

A presença do enxofre pode ser devido a poluição veicular, principalmente de veículos a diesel, bem como queima de carvão pela indústria siderúrgica, por exempl, que chega até Itabira. Já na fração intermediária (PM-2.5-10) o ferro predominou (26%), seguido pelo silício (21%).

Outras fontes de PM 2,5 são também resultantes das queimadas e dos incêndios florestais, comuns nesta época do ano, o que agrava ainda mais a poluição do ar na cidade.

Espessuras

Para se ter ideia do tamanho de uma partícula PM-2.5 micrômetro (µg), ela é menor entre 16 a 24 vezes que um fio de cabelo, que tem dimensão variando de 40 a 60 µg.

O PM-1.0 é menor que o glóbulo vermelho, que é de 7 µg, que é maior que o PM-2.5 µg. É maior que uma bactéria (0.5 µg) – e que o coronavírus que tem 0.1 µg, espessura bem próxima das partículas ultrafinas, filtradas pelas máscaras.

As fuligens das queimadas/incêndios florestais são espessuras também ultrafinas com 0.4 µg a 0.7 µg. Esses particulados ultrafinos não são monitorados em Itabira, uma vez que a legislação não exige.

A soma de todos esses elementos compõem as Partículas Totais em Suspensão (PTS), que são compostos mais grossos. Não causam tantos danos à saúde como as partículas respiráveis e as inaláveis, mas sujam e provocam incômodos por toda a cidade.

Portanto, o mais importante é monitorar as partículas PM-10 e PM-2.5, como tem recomendado a professora Ana Carolina Freitas, da Unifei. Assista a palestra aqui.

Monitoramento e controle

Em retorno a este site, por meio de sua assessoria de imprensa, a Vale se posicionou a respeito do monitoramento e controle da poeira em Itabira:

A Vale mantém, em Itabira, a Rede Automática de Monitoramento da Qualidade do Ar composta por cinco estações. Quatro delas monitoram qualidade do ar e a outra é meteorológica, sendo seus dados consolidados conforme estabelece a Resolução Conama 491/2018. Os dados coletados nas estações de monitoramento, a cada hora, são recebidos simultaneamente pela Vale, Secretaria de Meio Ambiente/CODEMA e Fundação Estadual de Meio Ambiente.

As estações estão nas seguintes localidades: EAMA11 – Chacrinha/Pará; EAMA21 – Praça do Areão; EAMA31 – João XXIII; EAMA41 – Escola PREMEN; EM11 – Alto dos Pinheiros (Meteorologia).

Além das estações, a Vale realiza, rotineiramente, em suas operações, atividades de controle de poeira, como aspersão de água nas frentes de lavra ativas, nas vias das minas e nas pilhas de homogeneização e de produtos. Como parte dessas ações, há controle de velocidade nas estradas de acesso às minas e revegetação de taludes e áreas expostas para minimizar a produção de poeira.

A empresa também já realiza o monitoramento de Partículas Respiráveis (PM-2,5) em suas estações automáticas. Esse monitoramento permite medir as partículas inaláveis menores que 2,5 micrômetros. Os resultados são encaminhados, automaticamente, para a Secretaria do Meio Ambiente de Itabira.

 

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