Pacheco, presidente do Senado, pode ser o candidato à presidência dos militares em 2022

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Rafael Jasovich*

Antes mesmo de Gilberto Kassab (PSD) propor em entrevista ao Estadão o nome do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), como o homem capaz do centro capaz de disputar com Lula e Bolsonaro as eleições de 2022, militares ligados ao vice-presidente, Hamilton Mourão, já viam no senador por Minas Gerais um excelente nome para essa tarefa.

A defesa de Pacheco passa pelo reconhecimento de que seria difícil atrair parte da direita para outras candidaturas que se apresentam pelo centro, como Ciro Gomes (PDT) e João Doria (PSDB).

A questão que nenhum deles ainda respondeu é: como sobreviver na política sem Bolsonaro?

O certo é que nem todos os militares eleitos para o Congresso devem acompanhar Jair Bolsonaro em seu novo partido. Há quem deseja permanecer no PSL e ali ajudar outras candidaturas.

Essa turma acredita ainda não haver condições para o impeachment de Bolsonaro, mesmo que isso pudesse esvaziar a candidatura de Lula. Para esses generais, interessa a Lula manter Bolsonaro na disputa e a Bolsonaro ter Lula como adversário em 2022.

Os mesmo generais acreditam que Mourão não irá se mover – ele não é o Michel Temer, nem tem o que oferecer aos parlamentares em troca do impeachment – a favor da deposição do presidente – e nem pretende enfrentá-lo como adversário na eleição de 2022.

Nutrem a esperança de uma reforma política que trate de temas como as candidaturas avulsas e o semipresidencialismo.

Diante da degradação do governo, esses generais responsabilizam Bolsonaro pelo fracasso da política ambiental e questionam suas seguidas declarações destemperadas e ameaças às eleições.

Sonha-se com um presidente que permaneça calado em meio ao fim da pandemia. Seria preciso Bolsonaro nascer de novo.

Enfim, não só os civis nutriram ilusões desse tipo na história da República. Em um País em que os chefes militares resolvem redigir uma nota a quatro mãos contra o presidente da CPI da Covid, o senador Omar Aziz (PSD-AM) que toda a civilização e mesmo as suas hierarquias se ergueram em torno da posse e do uso da palavra.

Ensina o filósofo Luciano Canfora: “Platão trata disso em vários dos seus Diálogos. Dizer as ‘coisas oportunas’ é, por si só, a atividade política, considerada antes de tudo como ‘palavra’.”

Mesmo que o objetivo dos comandantes fosse o de admoestar o senador, suas palavras não eram acompanhadas por um manual para explicar as intenções aos leitores.

Um estrangeiro que chegasse ao País no dia seguinte à nota encontraria em Brasília a certeza entre os civis de que se prepara um golpe; o golpe de Bolsonaro, conforme exposto em sua chantagem ao Congresso e à Justiça.

O presidente diz que não aceitará sua derrota na eleição. Manda exibir no palácio do Planalto aos comandantes das Forças um vídeo que procura vincular as manifestações da oposição aos comunistas, como se meia dúzia de militantes na multidão da Avenida Paulista pudesse representar os 51% dos brasileiros que consideram Bolsonaro ruim ou péssimo.

Bolsonaro precisa da guerra fria para justificar o golpe, para impor um Estado de exceção. Gostaria de tornar realidade sua promessa de expulsar do Brasil quem dele discorda.

Mas o Brasil não é o Haiti. Ele não precisa de um François Duvalier. Nem Papa Doc nem Baby Doc.

No domingo, dia 11, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, criticou a nota feita pelos comandantes das Forças.

“Não pode haver essa manifestação institucional. Quando ela acontece, acarreta mais desgaste ainda. O que estamos vivendo é um contexto, manifestações, que não contribuem em nada. Trazem só instabilidade, trazem só alarmismo.”

É a primeira vez que o general critica os comandantes, ainda que, a exemplo deles, não concorde com a expressão “lado podre das Forças Armadas” usada pelo senador Aziz para designar os malandros que tomaram conta do Ministério da Saúde e negociaram com picaretas vacinas inexistentes em troca de propinas em dólar.

Santos Cruz, que participou da construção da candidatura Bolsonaro, foi defenestrado do governo porque não quis irrigar a nuvem de blogueiros que invadiu Brasília para devorar recursos públicos sob o patrocínio de Eduardo e de Carlos Bolsonaro.

O general defendeu uma “reação forte” da sociedade e das instituições contra a ameaça feita pelo chefe do Executivo e cobrou o Judiciário e o Congresso.

“Algumas ameaças são absurdas, como a de o presidente da República dizer que talvez não tenha eleição.”

E completou: “Tem de haver reação forte das pessoas e das instituições. Temos algumas instituições muito fracas, seja no Judiciário, seja no Congresso Nacional, que, em minha opinião, tem de ser mais forte.”

Faltou ao general explicar se essa força passa pelo semipresidencialismo ou pelo impeachment de Bolsonaro.

É possível que os colegas do general convertidos à terceira via não consigam entender a razão da crise política que toma o País. Pode-se pensar em desarmar os espíritos, mas isso será possível diante de Bolsonaro?

Qualquer declaração que cheire a dissociação de seus planos golpistas poderá ser vista como afronta. O discurso de Santos Cruz coincide com a reação do presidente do Senado, que chamou de inimigo da Nação quem pretende retrocesso no Estado democrático de direito.

O nome de Pacheco ainda é pronunciado com cuidado. Já é mais do que uma conjectura? Kassab é um político conhecido por saber aonde o vento costuma soprar. Mas nem ele sabe quantos votos terão os generais sem o presidente Bolsonaro.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado.

No destaque, o senador Rodrigo Pacheco, presidente do Senado. (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

 

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