Os padrinhos de Tijuana

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Veladimir Romano*

As eleições gerais e locais no México, no domingo (6) ditaram vencedor a coligação “MORENA”, resultado de uma estratégia oportuna, bem pensada pelo presidente López Obrador e, dos 15 Estados, tendo vencido em 11, embora tenha diminuído a influência na capital mexicana. A ordem, porém, segue sua marcha nas reformas bem urgentes que a sociedade mexicana precisa.

Sendo as maiores eleições de sempre colocadas na mesa, o resultado foi uma jogada democrática de alto gabarito, elogiada em todo o mundo, especialmente pelos governantes vizinhos de Washington, onde Joe Biden não perdeu tempo em felicitar a reeleição do responsável pelo movimento político, conduzindo o país a mais outra legislação.

Porém, não existe bela sem o tal do “se não!”. A violência avassaladora infiltrando vários momentos na vida do povo mexicano, fala por si com efeitos colaterais de guerra surda: ela existe, mas alguns querem fazer de conta que nada passa.

Ainda existem os cartéis descontrolados tomando a dianteira, colocando o tráfico e a inconsciência reforçando enormes confusões, medo, sequestros, corrupção, assassinatos e muita frieza.

O mundo cúmplice do narcotráfico ganhou a pior de todas as publicidades com cartéis e seus fins testemunhando esse mercado atraído pelo poder da força bruta e do dinheiro sujo a qualquer preço.

O presidente mexicano Manuel Lópes Obrador acena aos eleitores após votar no domingo nas eleições federais e locais (Foto: Mario Guzmann/EFE)

Com ordens negociadas mas contraproducentes, as recentes eleições tiveram 35 candidatos assassinados numa das campanhas eleitorais mais violentas de sempre: em quatro anos foram assassinados 91 políticos.

No assédio violento, também jornalistas são com muita frequência alvos preferidos das organizações criminosas. Imprensa escrita onde o “El Globo, Reforma, La Jornada, Milenio, El Universal, Proceso”, de várias tendências, todos acabam sendo vítimas desse brutal abuso e absurdo poder dos padrinhos criminosos.

Com a frase: “La Votación es Libre y Secreta”, neoliberais, conservadores, em particular, procuraram atacar todo o trabalho e projetos reformistas de López Obrador. Favoreceram quantos cartéis pretendem dominar a sociedade, uma economia que somente favorece a habitual clientela, implementando o medo, alargando ao máximo sentimentos de covardia e conquistando a fronteira onde Tijuana é o ponto culminante super apetecido.

Para quem conhece, já passou por Tijuana ou saindo desde São Diego para sul, fica a 36km, uma hora de carro e mais meia-hora se alguém estiver fazendo o trajeto em ônibus e entra numa das regiões mais surpreendentemente agressivas em todo o México.

A sua história vem do passado e ainda com esforço, dificilmente algum governo conseguirá criar vantagem ou colocar valores civilizados e humanistas em Tijuana.

Com mais de um milhão e meio de moradores na cidade e uma metrópole de cinco milhões de habitantes, entre rezas e solicitações ao milagre da santa de Guadalupe, amada do povo mexicano e latino-americanos onde se fala castelhano, o que se observa é a presença da força policial instalada de arma pesada em praças de Tijuana: pois, nem isso ou certos blindados assustam os predadores da paz social ocupando essa ofensiva.

Todos já conhecem quem são os padrinhos, bem afamados, que igualmente mandam nos comícios dalguns políticos patrocinando campanhas, festas, rodovias onde retirem proveito ou até mesmo reformas urbanas ocasionais.

Nunca faltam milhões e eles circulam em plena liberdade esbanjando riqueza de ganho duvidoso. O cenário é, desde a eliminação de Pablo Escobar (colombiano) até ao mexicano “El Chapo”, agora preso, nunca faltam fantasias sobre uma verdadeira destrutiva manobra favorecendo a Lei, pois, muito ainda resta numa luta sem tréguas.

Quando um traficante cai, outros se levantam ocupando posições preciosas porque o mercado narcotraficante está dando também sua luta e supremo lucro.

Nessa guerra já se somam mais de 200 policiais assassinados, outras centenas de desaparecidos. Faz 20 anos que esses cartéis iniciaram a construção dos seus territórios. Infelizmente, Tijuana, a poucos quilômetros dos EUA, transitou ao mundo do crime organizado graças a políticas de governos e governantes coniventes deixando a situação ocupar o descalabro.

Hoje, Tijuana tem um policial para cada mil habitantes cuidando duma cidade com mais de 60 assassinatos por semana. Tijuana perdeu sua referência turística mudando para região de influência e prática criminal.

A partilha dos padrinhos narcotraficantes demonstra como o financiamento capitalista recompensa a desordem e os degolamentos, torturas, mutilações. Esta desordem criminosa, obrigou o FBI a criar recompensa de 5 mil dólares pela denúncia de possíveis criminosos.

Olhando a situação na realidade, bem mal seria se acaso fosse unicamente Tijuana, o problema, quando todo o México ao longo de décadas se foi enchendo de criminosos. Para eliminar esse mal, vai precisar de muitas décadas mais e gente corajosa no poder.

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-cabo-verdiano

No destaque, a cidade de Tijuana, na fronteira com os Estados Unidos (Foto: Reprodução)

 

 

 

 

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