O povo contra a Democracia

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Veladimir Romano*

Tem acontecido na Europa, vai na Ásia, passa pelo continente africano e americano. Se mantém como elemento institucional em alta relevância definindo-se como regime legítimo, distinto, ainda conferindo valores por muita lama que vão deitando por cima, classificando raízes, largando sementes como multiplicando a esperança do mundo ser mais civilizado e proveitoso.

É a Democracia ou pelo menos julgamos ser quando novos tempos dão maus sinais. Reverenciam velhos e negativos conceitos, vivemos nossas fantasias querendo justificar desses valores no misto conceptual de qualquer classificação. Dão como garantia o pleno exercício da democracia, cujo objetivo destaca-se como regime correspondente aos nossos sonhos de participação nas grandes decisões, seja de forma organizada pelas diferentes camadas sociais, ou mesmo de maneira inconsciente [porque nem sempre ganha o consciente].

Paremos um pouco, como forma de balanço, procurando encontrar explicações atualizadas na relação para tanta quebra da confiança dos povos perante seus sistemas políticos. Novamente entramos na discussão do passado, defendendo a liberdade como condição natural dos seres sociais.

Estamos no século XXI. Pois não deveria ser pelo quanto pensamos haver ultrapassado algumas formas primitivas de representação. Conquistamos direitos, desenvolvemos a psicossociologia, ajustamos materialismo dialético, infraestruturas econômicas, racionalização ideológica até ao processo conjunto e global das tecnologias inovadoras, peças chave no cumprimento desta Democracia.

No entanto, certas transformações acumulando atitudes comuns dentro da ordem psíquica, ainda que sustentadas no âmbito das dúvidas, se foi mantendo certo equilíbrio na estrutura social, relacionando pela realização edificadora dos destinos existenciais aclamados no direito ideológico. E nunca ilusionando pontos abertos ao passado recente reacionário, extremista, fascista, racista, maximamente desrespeitoso, formado numa mentalidade submissa, alienada no processo sucessivo de vários graus da violência calculada e totalmente gratuita.

Ilustração: AngeloAbu/Folhapress. No destaque, ilustração de Tainan Rocha

Sem saber, muito tem a Democracia oferecido a quem vive na ingratidão política, para novamente com razões de sobra renascerem profundas preocupações quanto ao seu futuro. Verifica-se como povos se voltaram contra a sua liberdade garantidamente oferecida por esse pedaço democrático, como riqueza das mentes brilhantes acreditando apenas no labor, tolerância, solidariedade, inteligência e progresso.

Pois bem, vários países nos últimos tempos estão com eleitores sem rumo ou parecendo não ter educação política [camada que apenas procura lucro, oportunismo, difamando ódio e propaganda perigosa.

O que se observa é a aposta na estratégia do pânico demonstrando quanta covardia dos eleitores. Com isso, vai se espalhando o medo, e assim conquistam os mais fracos, donos dessa pobre condição psicológica.

Nasce assim uma nova corrente elitista que aposta em promover o desastre, a confusão e a confrontação civil. E é assim que se observa parte do povo se posicionando contra a sua Democracia.

Tanto esforço, trabalho, sacrifício, luta e sofrimento, resistência, sentidos literalmente como valores conscientes aprendidos no pleno exercício das reivindicações vão se perdendo nas páginas históricas escritas com lágrimas e muito sangue.

A democracia deveria ser aquele marco dos ensinamentos quando se trata da defesa desse pensamento pluralista e ação diferenciada puxando ao futuro dos povos. Problemas?

Toda a sociedade tem seus fantasmas e demonstra como algo de muito importante anda falhando na educação. E com isso enfraquece a democracia, até mesmo por não encontrar soluções para reprimir a pobreza, sem encontrar reformas profundas na justiça, melhorando economias distributivas.

Assim, não será inútil assinalar interesses guardados entre objetivos específicos, adequando situacionismo individualista dessa camada popular afetada psicologicamente pelos eventos do meio em outro tanto sem escrúpulos preparados para depenar riquezas nacionais.

O que se espera é apenas a edição da lei do abutre destituindo a defesa com influências demagógicas, conformismo pregador fanatizando com sua propaganda o lote da massa eleitoral vinculada pela ampla complexa máquina. E assim direcionam políticas e formatos dentro da organização conservadora através do medo.

O elemento responsabilidade se perdeu. A democracia se degrada, a ira toma lugar da paixão, a ética se amesquinha incrementando opressão e a moral dos reacionários satisfazendo o ódio.

É o incrível pressuposto previsível, desacreditado, incapaz, obscurecido, instrumento destrutivo e qualificado numa quantidade venenosa excluindo socialmente pontos da nossa civilização.

Ilustração: Tom Bachtell

Estamos com um novo “ópio do povo”. O resultado tem sido a solidariedade artificial daqueles que no seu conflito pessoal dos fantoches antissociais viraram oprimidos prisioneiros do patriotismo, nitidamente relativizado nos conflitos políticos.

A esta camada ficou pouca nítida na rápida ascensão duma cultura vazia, antagônica, desintegradora, brutalmente anormal, sem harmonia, esbarrando na rejeição da maioria [real, não de ocasião] efetiva e verdadeira.

Para viver novamente o atraso de regimes autoritários, estamos assistindo ao assassinato de jornalistas que colocam as suas vidas ao serviço da democracia, de sua defesa. E em outras partes do mundo, puxando pela democratização de outras.

A informação transparente e corajosa no final sofre como vítima do crime organizado que hoje inunda a democracia, renegando princípios, respeito, obrigações e responsabilidades.

Temos líderes vendendo mitos enquanto 59 jornalistas foram mortos em dez meses de 2018 [já superou o ano passado] em todo o mundo. São assassinados sem perdão por todos os cantos do planeta onde nem o chão supremo dum consulado ou embaixada perdoa. Essa triste realidade dos últimos acontecimentos, dando conta do assassinato de vários jornalistas, comprova como está podre a governação.

Numa forte relação de fatores variáveis, transportam consentimentos em margens do povo suficientes. Privilegiam populismos e nacionalismo fanático.

Desprezam a inteligência, camuflam contradições. Assumem teorias monopolizadoras de poderes públicos entregues na propaganda das mentiras com eficientes narrativas preparadas em combater o pluralismo político e social.

A ver, a mesma democracia oferecendo oportunidades aos extremistas de alcançarem a governação. Perguntamos: deve esse processo democrático ser eliminado, interditado? E, como fica trágico igual a “Fausto”, do sublime Goethe ou ainda mais drama se vê caso o Estado não encontre capacidade hábil de não convencer que este Estado não é coisa artificial, que foge da vontade humana.

Esta circunstância é complicada, difícil, traiçoeira para quem pratica ou desenvolve doutrina existencial e jurídica – e que admite em primeiro lugar a soberania do povo.

Um dia esse poder das massas pode não mais se identificar com os interesses financeiros em aliança com a suprema soberania do Estado. E quem sabe, que esse poder se torne subordinado à sociedade. E não a caprichos irracionais, místicos, imorais, acentuando intolerâncias graças ao medo.

Autoridade e poder se conseguem no relevo da prática democrática e não contra ela. A sociedade vive em permanente revolução: daqui a exigência de serem necessárias políticas e políticos assumidamente esclarecidos, sobretudo pela organização interativa duma doutrina progressista favorecendo o bem-estar geral, segurança, equilíbrios, inovação e nunca exclusividade individualista.

Para todas as justificações ordinárias praticadas depois da imaginação aferir desprovida matéria de convicções, mas convincente pela pouca semântica dos ideais, deveres ilusórios perante o relativismo se tornam fáceis, obedientes na urna eleitoral carregada de profecias e distopias, especializadas a serviço da instrumentalização.

Tudo isso vai se repetindo até que o homem se transforma numa esfinge e se submete voluntariamente pelos caminhos dessa alienação a cada instante… Espera-se que o domínio absoluto é uma ficção.

*Veladimir Romano é jornalista e escritor luso-caboverdiano, colaborador deste site Vila de Utopia

 

 

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