Noel Rosa abandonou a Medicina, na UFRJ, mas, no samba ele é doutor

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Lenin Novaes*

 Ainda sob os ares festivos das comemorações do Dia do Samba, estimados leitores e leitoras da Vila de Utopia, nada mais justo do que nos lembramos de Noel de Medeiros Rosa, ícone do gênero musical da maior manifestação cultural brasileira. Ele morreu aos 26 anos de idade e, como nenhum outro compositor – na minha opinião, exceção a Chico Buarque, Paulo César Pinheiro e outros poucos, sem qualquer analogia – , produziu tanto em tão pouco tempo de vida. Até hoje é cultuado como verdadeiro ídolo por respeitados e qualificados sambistas. É o eterno poeta de Vila Isabel, o gênio do samba.

Noel Rosa abandona o curso de Medicina e vira doutor no samba. No destaque, o compositor com Ceci, sua musa inspiradora  (Fotos: acervo Lenin Novaes)

Noel Rosa abandonou o curso de Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, com louvor, se tornou doutor em samba. A sua obra é inesgotável fonte de prazer e de pesquisa para quem vai à fonte beber do samba. Em Vila Isabel, calçadas do Boulevard 28 de Setembro registram notas musicais de algumas de suas criações.

Noel, filho de Manuel Medeiros Rosa e Marta de Azevedo, que estaria completando 107 anos 11 de dezembro, nasceu com deformidade no rosto, consequência de complicações no parto. Aos 13 anos começou a tocar bandolim de ouvido, passando, em seguida, para o violão. Em 1929, depois de concluir o ginásio, ingressou na Faculdade de Medicina da UFRJ. Os estudos estavam ligados à música e à intensa vida boêmia. E, ao integrar e gravar com o Bando de Tangarás, tendo no grupo Almirante, João de Barro, Alvinho e Henrique Brito, ele desandou a compor. Nunca se viu tanta produtividade com qualidade na música, até então.

Data da época as primeiras músicas: “Minha viola” (embolada) e “Festa no céu” (toada), gravadas em 1930. A seguir compôs as músicas sertanejas “Mardade de cabocla” e “Sinhá Ritinha”, e, depois, se definiu pelo samba. O ritmo incorporou à sua alma, aflorando densamente na pele. Noel Rosa se tornou puro samba, mergulhando de cabeça na boêmia.

Frequentador assíduo do bar Ponto Cem Réis, em Vila Isabel, conheceu, entre outros, Canuto, do Morro do Salgueiro, seu parceiro em algumas composições, como no samba “Esquecer e perdoar”. Fez com Antenor Gargalhada “Eu agora fiquei mal”. Após abandonar o Curso de Medicina, em 1932, ele compôs o samba anatômico “Coração”, logo depois de alcançar o sucesso com “Com que roupa”, gravado em 1930. O estilo do seu samba, crítico e humorístico da vida carioca marcou toda a sua obra. Como exemplo, “Gago apaixonado”, “Mulata fuzarqueira”, “Cordiais saudações”, “Nunca, jamais”, “Malandro medroso” e “Quem dá mais” ou “leilão do Brasil”.

Contextualizando o tempo de Noel

É imperativo fazer uma breve pausa na trajetória da vida e obra de Noel para ressaltar alguns aspectos da vida política e cultural ocorridos no seu tempo. Nasceram, em 1910, o escritor e lexicólogo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira; o político Tancredo Neves; o biólogo Jacques Cousteau; os compositores Osvaldo Gogliano, Vadico, e Adoniram Barbosa; e o cientista Carlos Chagas Filho. E morreram Joaquim Nabuco, jornalista e diplomata; e Leon Tolstoi, autor de Guerra e paz e Ana Karenina, romances que o eternizaram.

Fato marcante em 1910 foi a Revolta da Chibata, ocorrida 22/11, liderada por João Cândido Felisberto, o Almirante negro que, exaltado por Aldir Blanc e João Bôsco, teve na música o título de “Navegante negro”, mutilada pela censura da ditadura civil-militar que sangrou o Brasil no período de 1964 a 1985. Reivindicando o fim das chibatadas e a péssima alimentação, marujos ameaçaram bombardear a capital do país, amotinados em navios de guerra na Baia de Guanabara. Houve gente (os ricos) que se refugiu em Petrópolis e gente que subiu os morros para acompanhar a revolta, entre curiosos e aqueles que apoiavam a justa luta dos marujos. Uma situação trágica que não deixou de ser cômica, conforme o espírito irreverente do carioca.

Ilustração: Lina Costa

Cinco dias depois o governo de Hermes da Fonseca prometeu acabar com os castigos corporais e os marujos entregaram a frota. Mas, sob a alegação da sublevação de fuzileiros na Ilha das Cobras, em 9/10, o governo embarcou 441 homens num cargueiro para o Acre com ordem para fuzilar os líderes em alto-mar. João Cândido e outros 17 marujos foram encarcerados e cobertos com cal virgem numa solitária escavada numa rocha na Ilha das Cobras. Apenas o líder da Revolta da Chibata e outro marujo sobreviveram. Ele morreu aos 89 anos sem ter sido reintegrado à Marinha e, até hoje, a família luta por sua anistia.

Em 1911, Paris se encantou com a pianista Guiomar Novais, tendo na época 14 anos e vencido concurso em primeiro lugar. No júri estavam Claude Debussy, Moritz Moszkowski e Gabriel Fauré. Santos Dumont já tinha colocado Paris aos seus pés, no início do século XX, ao contornar a Torre Eiffel, pilotando um balão dirigível. Em 1912 o navio Titanic afundou com 2.208 passageiros, dos quais 1.503 morreram; inaugurada a ferrovia Madeira-Mamoré, no norte do país, que levou à morte 30 mil operários, vítimas da malária e da guerra atentada com os índios caripunas. De 1914 a 1918 ocorreu a primeira guerra mundial.

Em 1916, o primeiro samba a ser gravado no país, “Pelo telefone”, foi registrado por Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, no Departamento de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional, com letra do jornalista Mauro de Almeida e partitura assinada por Pixinguinha. O samba ironizava o chefe da polícia da capital, Aurelino Leal, que mandou fechar, por telefone, as roletas de jogos. Mas, no Largo da Carioca, as roletas funcionavam a pleno vapor. Em 1917 ocorreu a Revolução Socialista na Rússia, um dos fatos mais marcantes na história da humanidade.

Na segunda década do século XX o Morro do Castelo foi demolido, onde a Cidade do Rio nasceu. Mais de 4.200 moradores foram alojados em barracos na Praça da Bandeira e o entulho serviu para aterrar boa parte do Flamengo, Urca e Lagoa Rodrigo de Freitas, onde está hoje o Jóquei Clube. Em 1922 foi fundado o Partido Comunista Brasileiro e, em São Paulo, ocorreu a Semana de Arte Moderna. A primeira rádio brasileira foi inaugurada em 1923. A década chegou ao fim com Getúlio Vargas interinamente na Presidência da República.

No ano em que morreu Noel Rosa, 1937, Getúlio Vargas mandou fechar o Congresso, extinguiu todos os partidos políticos, criou uma nova Constituição e decretou o Estado Novo, o qual passou a comandar. Com o golpe, ele destituiu os governos estaduais – menos o de Minas Gerais – , proibiu greves e instaurou a censura por intermédio do Departamento de Informação e Propaganda (DIP). Ano antes, Vargas entregou a alemã Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes e grávida de oito meses, à Gestapo, a polícia nazista. Por ser judia e militante comunista, ela era procurada pelo governo nazista, que a assassinou.

Ainda em 1937 foram presos sob a acusação de subversão, Graciliano Ramos, autor de Insônia, São Bernardo e Memória do Cárcere; Rachel de Queiroz e Jorge Amado. Os livros de ambos, respectivamente, Caminhos de pedra e Capitães de areia, foram queimados em praça pública.

Na Espanha, o poeta e dramaturgo Federico Garcia Lorca, autor de peças como A casa de Bernarda Alba e Bodas de sangue, foi assassinado pelas tropas do general Francisco Franco que, comandando insurreição em quartéis e com a ajuda de milicianos da facção de extrema direita Falange, chegou ao poder. Garcia Lorca não tinha filiação partidária e era homossexual assumido, sendo, por isso, perseguido e morto. Atingido no ânus, ao agonizar, levou um tiro de misericórdia. Dezenas de pessoas morreram em Barcelona, após franquistas bombardear a cidade.

Na proximidade do final da década de 1930, a Áustria deixou de ter soberania e passou a fazer parte do Grande Reich Alemão.  A seguir, tendo o apoio das principais potências da Europa, as tropas de Adolf Hitler – ele já tinha criado as Leis de Nuremberg para garantir a depuração da raça ariana – ocuparam a Tchecoslováquia. E depois invadiram e arrasaram a Polônia. Também tomaram Paris. E aí a II guerra mundial já estava declarada.

E, no Brasil – país marcado por exclusões sociais ao longo de toda a sua história, em qualquer setor da sociedade: educação, saúde, habitação, questões essenciais à vida digna, pois não pode ser diferente – , o período de 1930 a 1937 foi de incertezas para a população,

O curso musical de Noel

A vida boemia levou precocemente o compositor

Noel Rosa estreou na Rádio Educadora como componente do Bando de Tangarás, passando pela Rádio Maryrink Veiga e Rádio Philips, onde foi contra-regra e cantor do Programa Casé. Formou com Lamartine Babo e Mário Reis o conjunto Ases do Samba, obtendo sucesso nas apresentações em São Paulo e cidades do Sul do país. Atuou ainda em outros grupos musicais.

Com o paulista Osvaldo Gogliano, o Vadico, compôs “Feitio de oração”, “Feitiço da Vila” e “Conversa de botequim”, entre outras. No ano de 1933 gravou mais de 30 músicas de sua autoria, além dos sucessos carnavalescos “Até amanhã”, “Fita amarela” e “Vai haver barulho no chatô”. Também emplacou “Onde está a honestidade”, “O orvalho vem caindo”, “Três apitos” e “Positivismo”.

Em 1934, num cabaré na Lapa, se apaixonou por Juraci Correia de Morais, a Ceci, de 16 anos, musa inspiradora de diversos sambas, como “Pra que mentir”, “O maior castigo que eu te dou”, “Só pode ser você”, “Quantos beijos”, “Dama de cabaré” e “Último desejo”, este, de 1937. Apesar da inegável paixão por Ceci, se casou com Lindaura. A intensa vida boêmia, principalmente na Lapa, varando madrugadas, agravou sua saúde.

Com lesão nos pulmões, em janeiro de 1935, acompanhado da mulher, foi para Belo Horizonte para tratamento, mas, logo passou a frequentar bares e o meio artístico da capital mineira. Meses depois perdeu o pai, que se enforcou na casa de saúde onde estava internado, em tratamento psiquiátrico. Voltando ao Rio de Janeiro, Araci de Almeida, que se tornaria sua principal intérprete, gravou o samba “Riso de criança”.

Noel Rosa voltou a sustentar polêmica musical com Wilson Batista, que lançou “Conversa fiada”. Ele contra-atacou com “Palpite infeliz” e não respondeu a outros sambas de Wilson, como ”Frankenstein da Vila” e “Terra de cego”, no ano de 1935. Na época produziu os sambas “João Ninguém”, “Cansei de implorar”, “Conversa de botequim” e a marcha “Pierrô apaixonado”. No ano seguinte compôs “Você vai se quiser”, gravado em dupla com Marília Batista, e que, com ”De babado”, gravado por Marília Batista, e o “X do problema”, gravado por Araci de Almeida, foi um de seus grandes êxitos no ano.

Com o estado de saúde agravado e, por ordem médica, viajou para Nova Friburgo, em fevereiro de 1937. Na volta ao Rio de Janeiro, em março, fez “Último desejo” e, em seguida, “Eu sei sofrer”, última canção que compôs, também gravada por Araci de Almeida.

Nova crise e, acompanhado da mulher, viajou para Barra do Piraí, em abril, em busca de clima benéfico para a cura da tuberculose. Dias depois retornou e, dia 4 maio, morreu, em Vila Isabel. Recebeu diversas homenagens, como busto inaugurado na Praça Tobias Barreto, transferido em 1946 para a Praça Barão de Drummond, em Vila Isabel. Na comemoração do cinquentenário de seu aniversário foi inaugurado monumento no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, por iniciativa de moradores de Vila Isabel.

Carteira de Estudante de Noel Rosa

A obra de Noel Rosa é obrigatória em todas as retrospectivas que se faz da música popular brasileira. Por ocasião do seu centenário de nascimento foi lançado o CD Noel Rosa – 100 Anos de Celebração, reunindo Martinho da Vila, “Feitiço da vila”; Zeca Pagodinho “Fita amarela”; Alcione e João Nogueira, “De babado…”; Chico Buarque de Holanda, “Filosofia”; Antonio Carlos Jobim, “João Ninguém”; Ney Matogrosso, “Último desejo”; Beth Carvalho, “Onde está a honestidade”; Maria Bethânia, “Meu barracão”; Clara Nunes, “Feitio de oração”; Toquinho e Vinicius de Moraes, “Adeus”; Moreira da Silva, “Conversa de botequim”; Baden Powell, “As pastorinhas” (Instrumental); entre outros.

Em 1997, Ivan Lins lançou Tributo a Noel Rosa, tendo no primeiro CD participações de vários artistas. “De babado”, Zeca Pagodinho, Nelson Sargento e Nei Lopes; “Gago apaixonado”, Nó em Pingo D’água; “As pastorinhas”; “Cansei de pedir”, Chico Buarque de Holanda e Nó em Pingo D’água; “Provei”, Cláudio Lins; “Feitio de oração”; “Onde está a honestidade”; “Vai haver barulho no chateaux”; “Verdade duvidosa”; “Para me livrar do mal”; “Fita amarela”; “Cor de cinza”; “Vejo amanhecer”, Zé Renato; “Mulher indigesta”, Arlindo Cruz e Sombrinha; “Pela décima vez”; “Conversa de botequim”; “Adeus”, Época de Ouro e “Seja breve”, MPB-4. No outro CD, “Feitiço da Vila”, Nana Caymmi; “Boa viagem”; “Três apitos”, Nó em Pingo D’água; “Quantos beijos/O orvalho vem caindo”; “Ultimo desejo”; “A. B. Surdo”, Aquarela Carioca; “Cidade mulher”, Caetano Veloso; “Mentir”; “Até amanhã”, Emilio Santiago; “Meu sofrer”, Guinga; “Palpite infeliz”; “Pierrot apaixonado”, Boca Livre; “Com que roupa”; “Rir”, Fátima Guedes; “Estrela da manhã”; “Para atender a pedidos” e “Quem ri melhor”.

Martinho da Vila, em de 2010, lançou o CD Poeta da cidade – Martinho canta Noel, com “Filosofia”, “Minha viola”, “E não brinca não”, “Rapaz folgado”, “Seja breve”, “Coisas nossas”, “Fita amarela”, “Três apitos”, “Século do progresso”, “Quando o samba acabou”, “Último desejo”, “O x do problema”, “Eu vou pra vila” e “Cidade mulher” no repertório.

Bem, prezados leitores e leitoras da Vila de Utopia, mergulhem de cabeça na obra de Noel Rosa, eternizada na história da cultura popular brasileira. Não se deixem contaminar com a praga de que o Brasil é país de curta memória. Indico, com enorme prazer e satisfação, os CDs de Ivan Lins (duplo) e de Martinho da Vila com as músicas de Noel Rosa, reproduzidas com nível máximo de qualidade que o poeta de Vila Isabel nos legou.

Transcrevo um dos sambas clássicos de Noel Rosa, “Não tem tradução”, que ouço constantemente na voz do saudoso João Nogueira.

“O cinema falado é o grande culpado da transformação/Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez/Lá no morro, se eu fizer uma falseta/A Risoleta desiste logo do francês e do Inglês/A gíria que o nosso morro criou/Bem cedo a cidade aceitou e usou/Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote/Na gafieira dançando o Fox-Trote/Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição/Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês/Tudo aquilo que o malandro pronuncia/Com voz macia é brasileiro, já passou de português/Amor lá no morro é amor pra chuchu/A gíria do samba não tem I love you/E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny/Só pode ser conversa de telefone”.

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional de Poesis para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS. É Assessor de Imprensa do Centro de Ciências da Saúde da (CCS) Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

 

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Sobre o Autor

1 comentário

  1. Na época de Noel não era ainda a UFRJ, era a Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil. A carteira não é de estudante, é Carteira de Identidade da época em que ainda estudava Medicina.
    Aracy de Almeida é com ‘y’.
    O artigo vem com muita enrolação no início, parece que o autor é esquerdista.

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