Nascimento

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Marina Procópio de Oliveira

 

O coração arfava.

Pais, irmãos, facão,

o galho perfeito

em natalina árvore de algodão transmudado.

Na boca batia o coração,

[mais forte que o amor, entenderia depois]

e a gente aguardava o bom velhinho,

de cujas renas voadoras saltava o presente,

pousado ao lado do melhor sapato.

Presente único. Era tudo. E era suficiente.

 

A árvore de algodão

converteu-se em pinheiro imortal.

Seus galhos plásticos deixavam brilhar

estrelas de purpurina.

Um anjo, encimado nas folhas do pinheiro,

rodava invisível na sala.

Havia então balões pelo chão.

Na casa riam tios, sobrinhos, netos,

felizes com seus brinquedos,

ressaca combatida com ceia fria

e coração pleno de reencontro.

Era tudo. E era suficiente.

 

A árvore agora se apequenou,

símbolo de menor importância

na casa onde crianças conosco se fundiram,

num natal de madureza.

O pai e avô já não está aqui,

cansou-se, talvez, de dividir poemas.

Tios partiram, deixando mãos desatadas.

Netos deram início à sua longa viagem.

 

Sinto a ausência.

Ela chega e comigo se senta à mesa.

Sua aparência revela pai,

filhos, tios, netos, imagens da família,

e a minha mesma, no lugar onde estarei um dia.

Olho o espectro da imagem;

revela-me, com bondade,

sua verdade como presença, agigantada pela saudade.

Estão todos aqui, afinal.

E é tudo. E é suficiente.

 

 

 

 

 

 

 

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