Morre Hélio Fernandes, jornalista, meu companheiro no banco dos réus em Juiz de Fora, onde fomos julgados e absolvidos com base na LSN

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Carlos Cruz

O jornalista Hélio Fernandes morreu na madrugada desta quarta-feira (10), aos 100 anos. Ele era proprietário da Tribuna de Imprensa, do Rio, jornal combativo que muito lutou contra o regime militar (1964/85) – tendo sido um dos jornalistas mais perseguidos pela ditadura.

Sofreu inúmeros processos. Inclusive, dividiu comigo o  banco dos réus, em julgamento com base na Lei de Segurança Nacional (LSN), depois de ter reproduzido, na Tribuna de Imprensa, reportagem de minha autoria publicada no jornal O Cometa.

Na reportagem, o ex-ministro César Cals (1926/91) foi denunciado por embolsar esmeraldas em Itabira, em troca de concessão de uma mina da preciosa pedra, em Oliveira Castro. Leia mais aqui.

No banco dos réus, na IV Auditoria Militar de Juiz de Fora: Hélio Fernandes Filho, Hélio Fernandes, Paulo César Branco e Carlos Cruz. Acima, os advogados Arutana Coberio Terena, José Carlos Dias e Evaristo de Moraes (Foto: Tribuna de Minas).

O nosso julgamento pelos “juízes” da IV Auditoria Militar, sediada em Juiz de Fora, ocorreu em 27 de julho de 1983. Fomos absolvidos por unanimidade. Em chamada de capa da Veja, com foto do ex-ministro, assim a revista registrou a nossa absolvição:

“Ao regressar nesta segunda-feira dos Estados Unidos, o ministro César Cals aterrizará em más notícias vindas de Juiz de Fora, Minas Gerais. A 27 de julho passado, a auditoria da 4ª Circunscrição Jurídico-Militar, baseada naquela cidade, absolveu por unanimidade quatro jornalistas que Cals pretendia enquadrar na Lei de Segurança Nacional, sob a alegação de terem praticado ‘matéria ofensiva à dignidade do ministro. Além de não ver crime na conduta dos jornalistas, a sentença expedida pelo Conselho da Auditoria, integrada por um major, um capitão e um tenente, pondera que, ‘havendo outros indícios de recebimento de vantagem indevida, ainda que para outrem, deverá ser aberto outro processo’, dessa vez contra Cals.”

O processo, com o pedido da auditoria militar para que o ministro fosse investigado, foi encaminhado à Procuradoria-Geral de Justiça. Como ocorria na ditadura – e ainda ocorre – o engavetador-geral da República no governo de João Batista Figueiredo (1918/99), último presidente militar, deu sumiço na denúncia contra o ministro. E ficou por isso mesmo. Impune.

Segundo informações da família, Hélio Fernandes morreu em casa de causas naturais, por volta de 3h. “Morreu em paz e sereno.” Seu corpo será cremado na quinta-feira.

Pai dos jornalistas Hélio Fernandes Filho, que também foi julgado e absolvido em Juiz de Fora, e de Rodolfo Fernandes, ex-diretor de redação do jornal O Globo, ambos já falecidos, Hélio Fernandes deixa outros três filhos: Isabella, Ana Carolina e Bruno, e dois netos, Felipe e Leticia.

 

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