Judeus e cristãos-novos na criação e colonização do Sul do Brasil

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6ª parte

Por Mauro Andrade Moura

O Quadrilátero Ferrífero e sua ocupação 

Após muitas décadas de caminhadas infindas pelos sertões das gerais, histórias perdidas de vidas sofridas na ilusão de encontrarem o El Dorado, tendo os caminhos do interior já bem demarcados, enfim, em 1693, Antônio Arzão declara a sua descoberta do ouro no Catiguás.

Inicia aí uma louca corrida para, inicialmente, todas as praias e margens d´água na busca do ouro fácil e farto, à mão de todos que se aventuravam em transformar suas vidas.

A população no interior da província de São Paulo quase desaparece. Por lá, ficam poucos – e a maioria, mulheres e crianças. Todos vinham chegando para abrir a nova província das minas do ouro.

Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará

A preocupação única era somente a cata do ouro, todos movidos a um único fim. Esqueciam-se de suas vidas, de suas necessidades básicas a ponto de ocorrer grande fome no início dos setecentos. Havia o ouro para pagar, porém a comida não chegava para todos.

Os paulistas, os Bandeirantes, e as suas datas minerais, a fome faceira. Os portugueses vindos do sertão baiano, os Emboabas, e seu gado, a comida extremamente cara.

A especulação com o preço era tanta, a necessidade extrema. Foi nesse contexto histórico que originou o absurdo da Guerra dos Emboabas. Já vista aqui em: http://www.viladeutopia.com.br/curral-do-del-rey-a-guerra-dos-emboabas-e-os-cristaos-novos/

A melhor designação que vi a respeito do nome Emboabas é:

-a palavra “Emboaba” afirmou-se sempre (com base apenas em sua etimologia) ter sido atribuída como apelido aos forasteiros das minas, por usarem botas altas. A iconografia e os documentos da época autorizam-nos a retificar essa versão, baseada apenas numa interpretação etimológica.

As botas altas eram justamente usadas pelos paulistas. Os portugueses traziam calções e coturnos. Sendo aqueles curtos e estes baixos, deixavam à mostra as pernas, caracteristicamente cabeludas.

É sabido, e de observação vulgar, que o índio, o preto e seus mestiços não têm pelos nas pernas.

Esse contraste é que, mais por assinalar que por hostilizar, deu origem ao emprego do termo “emboaba”, que rigorosamente, quer dizer “perna cabeluda”. – Augusto de Lima Júnior –

A capitania de São Paulo e Minas de Ouro foi criada por carta régia em 09 de Novembro de 1709, sendo esta criação de nova província o melhor fruto da insana Guerra dos Emboabas. Nomeou-se Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho o seu governador-geral.

E esse primeiro governador organizou as instituições públicas, além de regularizar as instituições civis. Logo em 1711 foram criadas as primeiras vilas, todas elas dentro do Quadrilátero Ferrífero, a saber:

  • Nossa Senhora do Carmo, atual Mariana, em 08 de Abril;
  • Vila Rica, atual Ouro Preto, em 08 de Julho; e
  • Vila Real de Nossa Senhora da Conceição de Sabará, em 17 de Julho.

Velha ponte em Mariana: aparelho romano do século XVIII

O sucessor de Albuquerque, o capitão general D. Braz Baltazar da Silveira, prossegue com os forais e cria novas Vilas:

  • São João d´El-Rey, em 08 de Dezembro de 1713;
  • Vila Nova da Rainha, atual Caeté, em 29 de Janeiro de 1714; e
  • Nossa Senhora da Piedade do Pitangui, em 09 de Junho de 1715.

Ampliando as instituições governamentais, as três primeiras Comarcas das Minas do Ouro foram instituídas por provisão em 6 de Abril de 1714, já demonstrando a distribuição e organização do novo território. São as três:

  • Vila Rica;
  • Rio das Velhas, com sede em Sabará; e
  • Rio das Mortes, em São João d´El-Rey.

Naquela época o governo civil não dissociava-se do poder da igreja católica, sendo ainda esta província de São Paulo e Minas do Ouro, sob tutela da Diocese do Rio de Janeiro.

O Bispo D. Frei Francisco de São Jerônimo provém, canonicamente, em 1718 as seguintes paróquias nas Minas do Ouro:

Vila de São João: Nossa Senhora do Pilar, Santo Antônio, Conceição de Prados, Congonhas. Alagoa Dourada, Itaverava, Guarapiranga.

Vila Rica: Nossa Senhora do Pilar, Conceição de Antônio Dias, Itabira (hoje Itabirito), São Bartolomeu, Congonhas, Inácio da Costa, Catas Altas.

Vila do Ribeirão do Carmo: Nossa Senhora do Carmo, São Sebastião e Almas, Brumado, Sumidouro e Conceição do Furquim.

Vila Nova da Rainha: Igreja da Vila.

Vila Real de Sabará: Igreja de Sabará, Santo Antônio do Bom Retiro da Roça Grande, Santo Antônio da Mouraria, Santo Antônio do Ribeirão de Santa Bárbara, Conceição da Cachoeira, Capela dos Godóis e Paraopeba.

Vila de Pitangui: Nossa Senhora do Pilar e Igreja do Arraial de São João.

Serro do Frio: a Igreja de Nossa Senhora.

Oficial do Regimento dos Dragões 1720

Eram os fluidos trazidos pela mineração do ouro e do diamante, a grande migração chegando ao Quadrilátero Ferrífero pelo caminho do norte, de Salvador BA), passando pela rota do Rio São Francisco, e pelo Caminho Novo aberto pelo cristão-novo Garcia Roiz Paes Leme.

A preocupação da Coroa era tão demasiada com a grande migração de gente para as minas do ouro que, em 20 de Março de 1720, foi decretada a lei com as determinações para a saída de Portugal. Obviamente que não vingou.

O êxodo foi tanto que D. João V foi obrigado a importar mão de obra para construir o Convento de Mafra e todo o seu fausto financiado com o ouro das gerais.

A pressão pela grande exploração, das inevitáveis cobranças dos tributos eclode a Revolta de 1720. E Conde de Assumar a reprime de forma viril. Manda enforcar e a defenestrar o cristão-novo Filipe dos Santos, o qual era parceiro de um outro cristão-novo, Manoel Nunes Viana, antigo chefe dos Emboabas.

Ocorre um crescimento sem igual da região. Por volta de 1738 já se contavam 300 mil pessoas em torno das lavras minerais, onde havia trabalho intenso e continuado. Brancos, índios, pretos, pardos, todos em busca da riqueza aurífera.

As companhias de ordenanças ficaram assim distribuídas:

Vila do Carmo: Vila, Passagem, Morro, Antônio Pereira, Camargos, Inficcionado, São Sebastião, São Caetano, Furquim, Barra, Sumidouro, Brumado, Pinheiro, Bacalhau, Guarapiranga e Itacolomí.

Vila Rica: Ouro Preto, Antônio Dias, sítio do Padre Faria, Taquaral, Santo Antônio de Itabira (Itabirito), São Bartolomeu, Cabeceiras de Santa Bárbara, Ouro Branco e Itatiaia.

Vila de Sabará: Igreja Grande do Sabará, Barra do Sabará, Arraial Velho, Capitão, Roça Grande, Congonhas, Rio das Pedras, Nossa Senhora da Lapa, Curral d´El-Rey e Paraopeba.

Vila Nova da Rainha: Vila, Pedra Branca de Caeté, Brumado de Caeté, Arraial de Santa Bárbara, Tanjerú, Barrado Uma, Poço Grande, Antônio Dias Abaixo e São Miguel do Piracicaba.

Pitangui: Vila.

São João d´El-Rey: Vila (duas companhias), Alagoa Dourada, Rio Verde, Bromado, Mapaendí (Baependi), Carranca, Pousos Altos, Joruoca (Aiuruoca).

Vila de São José: Vila, Capela, Bichinho, Prados, Congonhas, Soledade, Redondo, Suasshi, Carijós, Borda do Campo e Catas Altas de Noruega.

Serro Frio: Vila, Tapera, Rio do Peixe, Conceição do Rio do Peixe, Gouvêa, Rio Manso, Milho Verde, Itambé, São Gonçalo, Brejo do Salgado, Paracatu, Carinhanha e Rio Verde.

A Sinagoga de Vila Rica/Ouro Preto

Casa rural próxima a Ouro Preto com característica típica da Beira Portugal

“Em vila Rica, meados do século XVIII, havia uma comunidade judaica muito bem disfarçada que tentou organizar-se numa falsa irmandade, com o título de “Fiéis de Deus”. Chegaram ocupar uma casa junto à atual Capela do Bom Jesus dos

Perdões e enganaram o Bispo de Mariana, que somente depois de muito tempo desconfiou dessa confraria e resolveu dissolvê-la.”
Texto extraído da obra “A Capitania das Minas Gerais, de Augusto de Lima Junior (Ed.Itatiaia e Ed. USP, 1978, p.84).

A capela mencionada acima está desde 1772 integrada à Igreja da Nossa Senhora das Mercês e Perdões, conhecida como Mercês de Baixo (Manoel Bandeira, guia de Ouro Preto, Ediouro,2000). Uma visita ao local, permitiu encontrar uma “Sinagoga”.

Trata-se de uma casa em bom estado de conservação onde se alojam estudantes universitários da Escola de Minas da UFOP. Esta república está instalada ali há pouco mais de 60 anos.

Esta interessante coincidência do encontro de uma casa de estudantes denominada de “sinagoga” do sec. XX, onde 250 anos antes, na mesma rua e no mesmo local havia seguidores do profeta Eliseu, que proclamavam sua fidelidade a Yaveh, merece ser investigada em profundidade.

Embora vários estudos já tenham demonstrado a presença e influência de judeus e cristãos-novos em Ouro Preto desde o séc.XVII, existe muito ainda a ser pesquisado, visando conhecer a participação destes na formação da comunidade das Minas Gerais.

Fonte: http://www.museudainquisicao.org.br/acervo/uma-sinagoga-em-ouro-preto/

Quando ocorreu a abertura das lavras de ouro e diamantes nas minas do ouro, transferiu-se grande contingente de escravos das plantações de canas do Nordeste. Era uma sobrevalorização de 10 vezes o preço, o que provocou o esvaziamento dos engenhos de açúcar. Pressuponho que isso foi um dos fatores do estrangulamento e declínio daquela atividade, iniciada com a colonização do Brasil nos idos de quinhentos.

Passados duzentos anos do achamento do Brasil, Cabral com sua grande esquadra e com Caminha nos indicando que aqui se plantando tudo dá, a grande colônia sul-americana começa efetivamente a ser ocupada por milhares de interessados na grande riqueza guardada nos contrafortes da Serra do Espinhaço. Essa  cordilheira corta Minas Gerais partindo de Ouro Branco, uma das pontas do Quadrilátero Ferrífero, e finda no também rico Recôncavo Baiano.

Vieram e ficaram!

Típico emboaba

O grande legado do OURO está presente em nossas terras, nossas vilas, hoje em nossas cidades. A arte Barroca expressa nas construções com forte influência lusitana. O colorido intenso nas pinturas em pura expressão da influência africana.

O sonhar, o vagar do índio e a pureza de nossa música barroca.

Agora no século XXI, percebemos aquela profecia expressa na Carta de Caminha, com a grande produção de cereais no Centro-oeste desbravado

pelo cristão-novo Antônio Raposo Tavares e suas bandeiras. E em sua lenta ocupação também financiada pela riqueza mineral extraída do Quadrilátero Ferrífero das Minas do Ouro.

Fonte:

-A Capitania das Minas Gerais, autor Augusto de Lima Júnior

 Edição de Livraria Editora Zelio Valverde – Rio de Janeiro

 Dezembro de 1943

segue no próximo post. Aguarde

 

 

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Sobre o Autor

6 Comentários

  1. Oi, Mauro,

    Com mais este você está contando, aos poucos, a história da colonização de Minas, continue que está muito bom.
    Um grande abraço,

    Lênio

  2. Mauro Andrade Moura on

    Bom dia, Lênio.

    Vou tentando, vou tentando… rs

    Tem dois livros maravilhosos, o que fala a respeito da ocupação do São Francisco e do Verde Grande, livro recente, e o do autor Augusto Lima Júnior com o título A Capitania de Minas Gerais de 1943.
    Todos os dois são essenciais para a sua compreensão como a minha a respeito da ocupação e creio que o mais antigo você deveria ter.

    Lançaram um novo agora que nos traz os Navegadores e Bandeirantes, mas ainda não li.

    Grande abraço,
    Mauro

  3. JORDÃO MOURA SOARES on

    Muito interessante artigo, Tio Mauro.
    Principalmente em relacao a rapida mudance de homens de SP a MG, deixando mulheres e criancas em SP.
    Deve ter sido um periodo muito dificil para essas familias.

    Também interessante analisar como havia ouro para pagar a comida, mas nao havia comida suficiente!

    Abracos,
    Jordao

    • Mauro Andrade Moura on

      Bom dia, Jordão.

      A fome aqui entre 1701 e 1704 foi tão violenta que matou inúmeras pessoas, principalmente os escravos que eram menos assistidos.
      Logo em seguida e por conta dessa fome extrema, eclodiu a Guerra dos Emboabas.
      Deveria ser muito sofrimento das pessoas, fora o isolamento e quase nunca poder confiar em ninguém mesmo.

      Beijinhos nas crianças,
      Mauro

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