“Fake famous”: o documentário português que expõe a vida falsa dos influencers

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Por Daniel Vidal
Começou com o desafio de tornar três desconhecidos estrelas do Instagram. Pelo caminho, revelam os podres desta falsa fama.

NiT – Não há limites para criar a publicação perfeita. Uma das cobaias de “Fake Famous” acaba sentado num cadeirão usado nos jatos privados, junto a uma janela. O que aparece nas redes? Que ele viaja como uma celebridade. A verdade? Foi tudo feito num estúdio.

A verdade é que a experiência social acabou por aterrar em todos os lugares comuns, entre give aways e ofertas de marcas. Ao fim de uns meses, era perfeitamente visível que a mentira compensava. Mas a que preço?

“Fake Famous” é o novo documentário da “HBO”, pensado, escrito e realizado pelo jornalista Nick Bilton. A ideia nasceu muitos anos antes, quando disse a um dos seus editores que seria capaz de criar um influencer em 10 minutos. Bilton, que escrevia sobre redes sociais, sabia bem como funcionavam os algoritmos e os truques sujos.

Quando o seu editor lhe disse que isso daria um interessante documentário, Bilton levou-o mais a sério. Depois de um longo casting para encontrar a suas três cobaias, avançou para a produção do documentário que estreou na “HBO Portugal” na quarta-feira, 3 de fevereiro.

O objetivo era simples: usar todos os truques possíveis para criar uma celebridade. A fama, antigamente reservada aos atores, desportistas ou cantores — indivíduos com um talento evidente —, democratizou-se e nasceram as celebridades que o eram porque eram caras conhecidas. O talento? Esse era dispensável.

Numa das cenas, Dominique Druckman deita-se no jardim, sobre uma pequena piscina insuflável para crianças. À volta da sua cabeça são espalhadas pétalas. Escolhido o cenário e a pose perfeita, tira-se a foto que vai garantir milhares de likes.

Quem vê a foto, talvez sentado num metrô apinhado de gente, sonha com umas férias iguais. Na verdade, a imagem é apenas uma armadilha para recolher likes — muitos deles provenientes de bots, perfis falsos pagos para encherem o ego e servirem de fachada. São a métrica de ouro: se as pessoas gostam, as marcas também.

Dominique, uma das escolhidas por Bilton, trabalha numa loja de roupa e sonha ser atriz. É acompanhada nesta viagem para a fama por Wiley, um assistente numa prestigiada imobiliária, e Chris, um recém-chegado a Los Angeles.

No final da experiência, nem tudo corre como previsto, mas pelo menos um deles destacou-se. Bilton acredita saber porquê.

“No fim de contas, tudo dependia do que estavas disposto a fazer para ser visto como um influencer famoso. Um deles aceitava fazer literalmente tudo o que dizíamos (…) Outro, não queria fazer nada que fugisse ao seu perfil. E outro sofreu com uma tremenda ansiedade”, revela à “Vogue”.

No árduo caminho da fama, discutem-se estratégias mais obscuras de uso de perfis falsos, mas também táticas mais evidentes: cada um dos três protagonistas é ajudado por estilistas e cabeleireiros profissionais, acompanhados por fotógrafos; alugam mansões, estúdios e tudo o que permita manipular quem está do outro lado do feed do Instagram.

A sessão fotográfica improvisada

Nem tudo foi divertido. A experiência permitiu também fazer uma espécie de avaliação do impacto na saúde mental, tanto dos criadores como do público.

“Tudo aquilo afetou-os. Houve muitos momentos que não gravamos porque não queríamos tornar a coisa num reality show. Eles tiveram muitas dificuldades. Quando olhamos para os números crescentes de suicídio e depressão em adolescentes, o surgimento do bullying — os gráficos correspondem todos ao surgimento das redes sociais. Não há qualquer dúvida de que estão todos interligados”, afirma Bilton.

O jornalista cita uma das ativistas que é entrevistada no documentário. “Mantemos as crianças afastadas do cigarro porque lhes faz mal. Mas nesta área [das redes sociais]deixamo-los a sós com os lobos”, atira Baratunde Thurston.

Não foram apenas os três candidatos que se sentiram a afogar no meio de tanta pressão e de tantas sessões falsas. Também Bilton deu por si a ser dominado pela invisível e nefasta influência das redes sociais.

Durante as gravações, passava grande parte do seu dia a percorrer o feed de outros influencers, para perceber como é que poderia replicar algumas das imagens mais bem-sucedidas.

Fizeram de tudo para criar a ilusão

“Um dia, depois do trabalho, estava meio chateado. A minha mulher perguntou-me o que se passava e eu disse-lhe: ‘Acho que não estamos a aproveitar nada, devíamos alugar uma carrinha’. Ela respondeu: ‘Tens noção de que só te sentes assim porque segues todos aqueles influencers e que eles te fazem sentir que levas uma vida horrível?’.”

Foi, como descreveu o jornalista, um “holy shit moment”. “Sou um jornalista, escrevi sobre tecnologia durante anos. Estou a fazer um documentário sobre o tema e até eu estou a ficar influenciado”, revelou.

“Tenho a esperança de que as outras pessoas deixem de os seguir como eu fiz. Que percebam que seguir estes influencers não os faz sentirem-se melhor. Não os ajuda a ter uma vida melhor. Faz exatamente o oposto.”

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