Em busca do tempo perdido – memória afetiva de sabores

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Rafael Jasovich*

Nestes dias conversando com um amigo argentino, professor de História na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, contou-me que tinha descoberto um casal que fazia “empanadas¨ para vender.

Para quem não sabe a tal de empanada argentina é uma espécie de pastel de carne feito no forno e a carne cortada na faca. Ele me disse que são muito boas.

Passou-me o contato e eu fiz o pedido. Chegaram e rapidamente abri a caixa e dei uma grande mordida. Eram parecidas com as empanadas da minha lembrança, mas não iguais.

O sabor não tinha o mesmo encanto de quando, há mais de 40 anos, eu as comia acompanhado de um copo de vinho no Ceibal, bar que ficava na Avenida Las Heras, quase esquina com a Avenida Pueyrredon, bem em frente à faculdade de Engenharia da Universidad de Buenos Aires.

As companhias, as conversas e os sabores permanecem na memória e no coração. E quando repetimos a experiência com uma empanada que, com certeza era igualzinha as que comia lá na Argentina, faltava alguma coisa: era a situação, os afetos, as conversas e tudo que envolvia o sabor da empanada.

Jorge Fernandez, esse meu amigo, me ligou. E perguntou o que eu tinha achado das empanadas. Contei e a conversa fluiu para outras saudades, os sandwiches triple de miga, de vários sabores.

E vieram mais lembranças, como da la factura, uma espécie de pães doces, el cafezinho na mesa de um bar, acompanhado de um copinho de genebra, o vinho tinto no copo.

E por aí vieram as lembranças e as saudades. A leitura dos jornais sentado num bar, o doce de leite comido com colher, as panquecas de doce de leite. E por aí seguimos a conversa, em busca de um tempo passado, mas não perdido na memória afetiva.

Claro que nos demos conta que nossas lembranças ou eram gastronômicas ou etílicas. Pero os sabores estavam presos em nosso coração. E as saudades das pessoas com quem partilhávamos esses momentos falavam mais alto que a bebida ou a comida.

É que a comida, a bebida têm sabores afetivos que estão marcados indelevelmente em nosso paladar e principalmente em nosso coração.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

 

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