Eis um desafio. Salvemos a Mata Atlântica

WhatsApp Pinterest LinkedIn +

Por Antonio Carlos Vilaça

O jovem Tolavito me disse assim – vou dar a você um presente de que vai gostar muito… – Dito e feito. Dias depois, me chegava às mãos um incrível álbum, um livro singular, maravilhoso, que a gente não se cansa de folhear, ler e reler.

Preciosidade – Mata Atlântica, de Carlos Drummond de Andrade: “um álbum super útil, porque entra em cheio na questão ecológica.” (Fotos: Luiz Claudio Marigo)

São fotografias da mata atlântica, acompanhadas de poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade. Não é mesmo uma beleza? Heloisa Helena Santos Pereira está de parabéns, não há dúvida.

Santo Deus, nunca vi livro mais bonito e mais útil. Sim, senhor, super útil, porque entra em cheio na questão ecológica. É um livro de arte feito expressamente com a intenção muito louvável de defender a natureza, defender a mata atlântica, ameaçada de total destruição.

“A água serpeia entre musgos seculares./Leva um recado de existência a homens surdos/E vai passando, vai dizendo/Que esta mata em redor é nossa companheira,/É pedaço de nós florescendo no chão.” (CDA)

Para cada fotografia, o poeta Drummond de Itabira do Mato Dentro, primo de Luís Camilo e de Cornélio Penna, primo de padre Lage, escreveu um poema especial.

E é uma sucessão de poemas esplendidos. Vinte e tantos poemas, curtos, mas intensos, de concisão perfeita. O livro saiu uma obra-prima. Bom gosto aliado à lucidez crítica, ao espírito ecológico, à finura dos textos.

Tigrina/Beleza/Felina./Elástica,/Plástica/Imagem/Selvagem/Da vida/Inserida/Noverso-Universo/Da mata!” (CDA)

Um passeio indescritível à floresta, seus mistérios, sua vida mais secreta, seus pássaros sedutores, orquídeas, árvores, águas, sombras, tudo de uma beleza generosa. Luís Cláudio Marigo fotografou com arte suma.

Alceu Magnanini escreveu textos em prosa. O poeta maior Carlos Drummond, do seu mirante de Copacabana, na rua Conselheiro Lafaiete, escreveu a sua vintena de poemas admiráveis, breves e definitivos. E tudo resultou num livro de arte que é uma delícia para os olhos e um prazer para o espírito.

“Penúltima jacutinga do Brasil?/Ou última, talvez?/Sem coco de palmito-juçara para comer,/Sem galho forte para pouso,/Sem ambiente para viver,/A jacutinga espera o fim de toda a fauna.” (CDA)

Dizia São Tomás de Aquino que nada está na inteligência que não esteja antes nos sentidos. Primeiro, os sentidos recolhem o seu vasto material, cores, formas, sons, a vida na sua multiplicidade estonteante.

E esse mundo é oferecido pelos sentidos à inteligência, para que sobre ele comece a elaborar os seus conceitos.

Este livro sedutor, único, vem confirmar ao vivo a tese tomista. Como o cônego Monteiro gostaria de ter visto um álbum maravilhoso como este, que tenho em mãos. Nosso Monteiro era bibliófilo apaixonado. Vivia para os livros. E os amava com volúpia. Era um sensual do livro.

“Leãozinho dourado, o mico/É joia-animal raríssima./Deixai-o viver, arisco./Com seu vermelho sedoso,/Seu ouro nativo, seu/Focinho avioletado./Salve, mico-leão dourado!” (CDA)

Pois no livro Corpo, recentíssimo, Carlos Drummond nos fala carinhosamente do cônego Monteiro, que ele foi visitar no seu leito de agonia. E o cônego o surpreendeu pelas suas palavras. Quem quiser saber a história toda, que leia o livro.

Mas volto logo à mata atlântica. “Onde as madeiras de lei, se a lei deixou derrubá-las?” O poeta se interroga. E o livro é uma sucessão de imagens paradisíacas.

“Olha o barbado, olha o bando do barbado!/Olha o coro de barbados na floresta!/À sua maneira./Está berrando, aos deuses implorando/Que detenham a fúria arrasadora/Da sacrificada mata brasileira.” (CDA)

Estamos em pleno paraíso reconquistado. Viva John Milton. Sim, a criança é o pai do homem. Tudo aqui é espírito de infância. Lendo este livro, vendo este livro, restauramos em nós a perdida infância.

E nos sentimos orgulhosos de nossa natureza. E nos descobrimos responsáveis por ela. E o sentido ecológico toma conta de nós.

Como é palrador este chauá!/Imita voz de gente, é bom ator,/Porém no oco do pau logo se esconde/Se percebe o sinistro caçador.” (CDA)

Temos sim, que defender esta riqueza imensa, estas matas sem fim, estas flores, estes pássaros, esta maravilha de cores, este mundo que palpita diante de nós como um apelo dramático. Eis um desafio. Salvemos a mata atlântica.

Viva Helô, que nos deu um tal livro. E viva o poeta Drummond que se dignou escrever os poemas tão profundos, tão sutis. Ele sabe captar em quatro versos o essencial de tudo.

“Meu gavião-de-penacho,/Meu rei aéreo da mata,/Meu rapinante invencível/De hálux certeiro e cruel,/Quem diria, quem diria/Que um dia se acabaria/Na floresta ressecada/Teu domínio, teu poder?” (CDA)

E cá estamos nós face a face com a floresta, a misteriosa floresta, que conhecemos tão pouco, que apenas entrevemos ali em Itatiaia, ou em Penedo, ou em Visconde de Mauá, aquele verde variado, aquele mundo de sombra e luz, espantoso.

[Última Hora, 5/12/1984. Hemeroteca da BN-Rio]

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

Em 1984, o banco Chase Manhattan ofereceu aos seus 5 mil correntistas um presente soberbo, o livro Mata Atlântica, com poemas de Drummond, fotografias de Luís Cláudio Marigo (1950-2014), que faleceu na porta do Instituto Nacional de Cardiologia/Rio, após passar mal dentro de um ônibus e não ser atendido pelos funcionários do hospital em greve. Em 1997 a editora Sette Letras e a AC&M Editora nos deu a oportunidade de uma edição popular.

“Um som de flauta rude se derrama/No que restou da terra comburida./O sanhaço é nostálgica lembrança/De outro tempo, outra mata, noutra vida.” (CDA)

“Sou pintor ou pintura?/As cores arcoirisam no meu manto./Objeto luxuoso, esvoaçante/Gravura colorida,/Não me neguem, por Deus, direito à vida.” (CDA)

“Não, não haverá para os ecossistemas aniquilados/Dia seguinte./O ranúnculo da esperança não brota/No dia seguinte./A vida harmoniosa não se restaura/No dia seguinte./O vazio da noite, o vazio de tudo/Será o dia seguinte.” (CDA)

“Que rumor é esse na mata?/Por que se alarma a natureza?/Ai… É a moto-serra que mata,/Cortante, oxigênio e beleza.” (CDA)

“Vem, Esperança, e pousa leve,/Como um traço de verde giz/(É meu anseio que te escreve)/Sobre a sorte do meu país.” (CDA)

 

 

 

Compartilhe.

Sobre o Autor

1 comentário

Deixe um comentário