E logo diremos: o deserto Amazônico

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 Ana Maria Tavares

“Dominar a natureza tal como praticamos no Brasil, é esmaga-la.” (CDA)

Diário do Pará (PA) 19/9/1986 – A Fundação Mundial para a Vida Selvagem anunciou recentemente a liberação, pelo Banco Mundial, de 200 milhões de dólares para que a Secretaria de Planejamento da Presidência da República aplique em preservação do meio ambiente, principalmente da Amazônia.

A notícia, sem dúvida, é muito boa, ainda mais quando se trata de recursos destinados a um setor tão desprestigiado quanto a ecologia. Só que antes de se pensar no que o governo poderá realizar com a verba, é preciso lembrar que apenas ajuda financeira não é tudo. Decretos e leis que protejam o meio ambiente deviam vir antes.

A depredação da Amazônia vem acontecendo há vários anos e lentamente está transformando a região, que segundo especialistas poderá num futuro não muito distante transformar-se em um imenso deserto.

O sertanista Orlando Villas-Boas, que passou 45 anos na selva, não hesita em afirmar que a grande derrubada de árvores que se processa na Amazônia, para o desenvolvimento da pecuária, precisa ser disciplinada.

Segundo ele, tudo o que se faz hoje na região, “que tem um solo muito pobre e fraco e que pode se transformar num deserto, ainda é uma experiência”.

E mais uma terrível experiência ameaça a integridade da verdejante mata que ainda recobre a amazônica, responsável pela oxigenação de boa parte dos países latino-americanos e do Brasil.

Empresários de ferro-gusa querem transferir para a região, mais especificamente para o Pará, métodos ultrapassados de produção de minério, e as árvores da que já foi a mais exuberante floresta do mundo servirão de combustível para alimentar os fornos das mineradoras.

Qualquer semelhança com o que aconteceu na cidade mineira de Itabira não será mera coincidência. Para o itabirano Carlos Drummond de Andrade, a Companhia Vale do Rio Doce “destruiu Itabira e tudo o mais onde passasse um veio de ferro, um filete de ouro, um barranco de manganês e todos os minérios que fazem as riquezas de Minas Gerais”.

Conceição, a outra montanha pulverizada em Itabira pela mineração (Foto; Eduardo Cruz). No destaque, crianças fogem do fogo que arde na floresta amazônica (Foto: Ria Sopóla/Pixabay).

Com profunda tristeza, o poeta afirma em um de seus poemas que “Itabira é apenas um retrato na parede. Mas como dói”. (Excl.). Inconformado com a brutalidade cometida à natureza de sua terra, Drummond exprime no poema “A Montanha pulverizada o choque e o desapontamento ante a estupidez destruidora, que faz desaparecer uma serra inteira:

Esta manhã acordo e não a encontro,

britada em bilhões de lascas,

deslizando em correia transportadora

entupindo 150 vagões,

no trem-monstro de 5 locomotivas

– trem maior do mundo, tomem nota –

foge minha serra vai,

deixando no meu corpo e na paisagem

mísero pó de ferro, e este não passa.

Talvez o que resta da floresta amazônica esteja condenado também a transformar-se em pó caso o governo não tome providências urgentes.

O projeto de lei n. 4.970 – segundo a engenheira agrônoma, Maria Tereza Jorge Pádua, conselheira-representante da América Latina na União Internacional de Conservação da Natureza e secretária-geral do IBDF – que define a política florestal para a Amazônia brasileira, ainda está em tramitação no Congresso Nacional.

Enquanto se aguardam providências, uma área calculada em cerca de três milhões de hectares apenas em Rondônia já foi completamente devastada. Se o país fosse mais sério, e desse mais atenção a uma verdadeira política ambiental, a situação certamente seria diferente. Como sabidamente afirmou Drummond, “dominar a natureza tal como praticamos no Brasil, é esmaga-la”.

[Diário do Pará (PA) 19/9/1986. Hemeroteca da BN-Rio]

Carlos Drummond de Andrade

(Itabira do Mato Dentro, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

 

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