“E eu mereço esperar mais do que os outros, eu?”, pergunta CDA

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O título desta publicação é da poesia Legado, do poeta Drummond.

Há de haver um processo lento, gradativo: mais uma vez a antiga conversinha pra boi dormir da elite branca.

Lento e gradativo é ausência de perspectiva histórica pra quem vive e morre faminto de tudo que é humano. Quantos séculos ainda vão falar desse reme-reme de lento e gradual?

Desde 1500 os brancos fazem deste território vasto e rico, um canteiro da mais cruel exclusão social de homens, mulheres e crianças.

O Brasil é um país de dá vergonha na cara da gente, as classes média e industrial são ladrões e torturadores do povo chamado raia miúda.

É um país sem censura de sua índole genocida e, é jeca, mas não sabe disto, assim quando essa “gente que não funciona” de cima da laje de seu cafofo faz samba, churrasquinho e bebe cerveja gelada, talagada de cachaça ardente, declama José ou Quadrilha.

E, ri e ri e zomba maldosamente da gente branquela e fraca do asfalto, da gente de mãos sujas de sangue segurando o copo de cristal baccarat com uísque Chivas Regal ou o delicioso malte Jack Daniel’s, é saber que não existe Nação Brasileira porque existe sim, a Nação Zumbi, a Nação Clementina de Jesus. (mcs)

O Povo Brasileiro

Carlos Drummond de Andrade

Há de haver um processo lento, gradativo, germinal de cultura, de educação, de ensino, de saúde pública em que as classes populares, as pessoas humildes, a gente que não funciona e que é chamada a votar mesmo como analfabeto, esta é uma graça dos progressistas brasileiros.

Eles querem dar voto ao analfabeto mas não cogitam a coisa elementar que é transformar o analfabeto num sujeito alfabetizado e consciente, plenamente consciente. Acho que isso se possa fazer com um processo lento e global pelo qual, ao meu ver, o governo não está preparado, ou pelo menos, não considera uma das suas prioridades.

Legado

Carlos Drummond de Andrade

Que lembrança darei ao país que me deu

tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?

Na noite do sem-fim, breve tempo esqueceu

minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E eu mereço esperar mais do que os outros, eu?

Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.

Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,

a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,

uma voz matinal palpitando na bruma

e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso

Na vida, restará, pois o resto se esfuma,

Uma pedra que havia em meio caminho.

Uma lâmpada que brilha…

Carlos Drummond de Andrade

Uma lâmpada brilha, como um olho triste, na rua pobre.

Destinos humildes!

Destino de lâmpada solitária,

a um canto de rua, entre árvores cansadas

e pedras sonolentas.

Pelos muros onde não tem cartazes,

tapeçarias de aranhas pacientes

ornam velhos desenhos

de corações acorrentados.

Um homem que passa, dentro dum capote

(faz frio, na noite lenta)

olha a rua e murmura:

– É curioso…

Aquela casa como envelheceu!

(A casa onde morava Carolina)

E a lâmpada olha tudo, indiferente.

Ah! O abandono desta lâmpada!

O abandono deste olho immoto, amarelo,

Brilhando em desejo,

Sozinho,

No alto do poste fino e lírico!

[Ilustração Brasileira, abril de 1926. Hemeroteca BN-Rio]

Desenhos: CDA

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

 

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