Drummond e os militares no poder: “não é uma situação democrática”, diz o poeta

WhatsApp Pinterest LinkedIn +

Dando sequência à série de postagens neste mês de outubro, em que se celebra os 118 anos do nascimento do filho mais ilustre de Itabira, a Vila de Utopia publica mais um trecho de Maria Julieta entrevista Carlos Drummond de Andrade – gravação disponível no sítio do Instituto Moreira Sales/Rio.

Dessa vez o jornalista e poeta aborda a contradição de os militares terem assumido o poder, com a presidência da República sendo tutelada pelas forças armadas. “Não é uma situação democrática”, afirma o poeta na entrevista, gravada no verão carioca de 22 de janeiro de 1984. Confira (MCS)

O poder militar é uma ficção que se tornou realidade

Vou dizer o seguinte, desde que eu me entendo por gente que tenho votado e o meu voto tem sido ou frustrado ou então o próprio candidato é este que frustra o meu voto.

O que devo dizer é que nos outros anos, e com uma tendência já antiga que vem do começo da República, que foi proclamada por generais, é que em 1910 houve uma candidatura considerada como militarista.

Chegamos depois de 64 a um estado curioso em que o poder da República, são quatro: o executivo, o legislativo, o judiciário e o militar, sendo que o quarto, é o mais poderoso deles todos, porque todos os demais estão subordinados a ele.

Evidentemente não é uma situação democrática. O poder militar é uma ficção que se tornou em realidade, porque os militares são funcionários do povo, do Estado brasileiro, como o próprio presidente da República é um funcionário.

Eles são, por uma conceituação racional do que seja segurança nacional, subordinados hierarquicamente: o praça ao sargento, o sargento ao tenente, o tenente ao capitão, o capitão ao major e ao coronel, ao general e ao presidente da República, que é o chefe supremo.

Vemos os militares dizerem que são a favor da democracia, como se eles pudessem ser contra. Não podemos aceitar uma coisa dessa, porque eu não quero ouvir a opinião desse ou daquele ministro.

Eu quero é que o presidente da República tenha uma orientação própria e não que tenha tantos porta vozes, todos eles contraditórios.

Sou contra o mau uso das forças armadas no exercício do governo

Eu acho que é absolutamente necessário um candidato civil, mas que seja civil 100% e não que seja, digamos assim, um militar recauchutado, da reserva, nada disso.

O civil não vai fazer milagres, mas evidentemente, depois de 20 anos de provação, de experiencia de um governo militar ou militarista não importa, mesmo que ainda abrandado, é natural que se chame os civis para assumirem uma responsabilidade que até agora eles não tinham.

Os civis que colaboravam com os governos da chamada revolução são civis enquadrados no espirito militar. Então eles não tinham liberdade e o poder militar se estende até depois da reforma dos militares.

Eles saem e vão ser presidentes, diretores de grandes empresas, nem todas são nacionais. Continuam mandando em todas as áreas das atividades sociais brasileiras, sem que tenha razão para isso.

Não sou contra as forças armadas. Seria até ridículo eu ser contra. Mas sou contra o mau uso das forças armadas no exercício do governo.

Foto: acervo MCS

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

 

                                                                  

Compartilhe.

Sobre o Autor

Deixe um comentário