Do Além, baixaram em Antônio Dias os espíritos do padre José de Anchieta, Monteiro Lobato e Armando Sales

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“A história se repete, primeiro como tragédia, segundo como farsa” – Karl Marx.

“A marcha das bandeiras desbravou o sertão, subindo o curso dos rios. Nossa terra recebeu os que vieram até as nascentes dos cursos d’água. Com o seu trabalho se fecundou, fazendo surgir a civilização. Não será apenas o ferro de Itabira que descerá o vale do rio Doce, mas todo o resultado dessa civilização que se formou no coração do Brasil. E mais… Para confirmar esse prognóstico positivo era mencionado o compromisso estatutário que obrigava a Companhia Vale do Rio Doce, recém-criada, a converter o excedente que superasse 15% de dividendos em investimentos que promovessem o desenvolvimento da “zona de sua influência”. [revista Cultura Política, órgão do Estado Novo, 1944]

No século 17 já estava posta a destruição dos povos indígenas do grande grupo dos Botocudo, formado pelos Krenak, Aranã, Pojixá, Porokun e Naknemuk, legítimos ocupantes do vale do Rio Doce, “o caminho de Minas para o mar.”

Índios botocudo, no rio Doce, atravancando o caminho de Minas para o mar (Ilustração: Reprodução)

Antônio Dias – até 1911 foi distrito de Itabira do Matto Dentro –, é cidade de relevo montanhoso, vista panorâmica da Mata Atlântica, queimada nas fornalhas de derreter o ferro, na siderurgia de Mr. João Monlevade. É banhada pelo Rio Piracicaba – “lugar onde os peixes se juntam” – e, mais onze ribeirões e córregos da bacia do Rio Doce, inclusive o rio de Peixe que nasce em Itabira e corre para o Piracicaba (na foto em destaque). A despeito da fúria destruidora do progresso, a cidade resistiu – mantém trilhas nas matas e cachoeiras para alegrar o verão.

No meio do caminho de Antônio Dias não tinha um Cauê. Mas não escapou do genocídio das Entradas e Bandeiras a partir de 1696. O arraial de Antônio Dias Abaixo, é criado em 1706 pelo bandeirante Antônio Dias de Oliveira, paulista de Taubaté. Em 1882, na mesma Taubaté, nasceu o escritor Monteiro Lobato. O primeiro destruiu por cobiça, o segundo construiu com visão de futuro.

A Barca de Gleyre, é obra preciosa da literatura, livro da correspondência entre Lobato (1882-1948) e Godofredo Rangel (1884-1951), escritor e tradutor mineiro, durante o período de 1903 até 1940.

Onze dias antes de sua morte, Lobato escreve a Rangel: “Nossa viagem a dois está chegando perto do fim. Continuaremos no Além? Tenho planos. Logo que lá chegar, contrato Chico Xavier para psicógrafo particular, só meu – a primeira comunicação vai ser dirigida justamente a você. Quero remover todas as suas dúvidas. Estou com uma curiosidade imensa de mergulhar no Além! – Adeus, Rangel”.

Lobato morreu em 1948, logo em seguida Pedro Machado, médium de Belo Horizonte, psicografou mensagem atribuída a Lobato. Nela mandava avisar ao Godofredo que logo eles se encontrariam no Além.

[As cartas de Godofredo Rangel para Lobato estão sob a guarda do artista plástico e escritor garrucheiro, Márcio Sampaio, viúvo de uma neta de Godofredo Rangel, a artista plástica Eliana Rangel]

A Vila de Utopia publica reportagem de 1949 a respeito de uma onda de suicídio em Antônio Dias. Foi quando o médium local recebe o espírito do poeta das Ilhas Canárias, padre José de Anchieta (1534-1597) e do escritor Monteiro Lobato. Confira na reportagem abaixo. (Cristina Silveira)

A louca tomou o barco e precipitou na cachoeira

Trágico acontecimento ocorrido numa cidade de Minas Gerais – O espirito responsabilizou-se pelo suicídio.

Antônio Dias, Minas Gerais. – Em princípio deste mês, nesta pacata cidade de Antônio Dias, registrou-se uma ocorrência que encheu de tristeza toda a população. Três senhoras, ainda jovens, enlouqueceram repentinamente, ficando dominadas pela ideia fixa de se atirarem às águas do rio Piracicaba.

Cena trágica e espetacular

Todas as providencias foram tomadas, e severa vigilância passou a ser exercida afim de impedir que as referidas mulheres consumassem seu intento macabro, ao mesmo tempo que se procurava interná-las em hospital de alienados da capital. Iludindo, porém, a vigilância de parentes e amigos, uma das loucas, d. Agostinha Soares, esposa do sargento Francisco Rosa, apoderou-se de um bote e dirigiu-se para o meio do rio.

Cantando, sorrindo sadicamente, despedindo-se de todos que correram para as margens do rio e que assistiam perplexos a impressionante cena, descansou a desventurada mulher os remos no fundo do bote e de pé, guardando a elegância do porte, deixou que o barco deslizasse pelas águas, precipitando-se na Cachoeira do Salto, que fica logo abaixo, numa queda trágica e espetacular de setenta metros de altura, tendo morte incontinente.

Espírito inferior e perigosíssimo

Anteontem, às vinte horas, na farmácia “Carvalho”, nesta cidade, grande número de pessoas comentava o ocorrido, quando, então, o jovem Raul de Carvalho, que participava da palestra, entra em transe e transmite aos presentes uma longa mensagem do padre José de Anchieta, apontando um espírito de ordem inferior e perigosíssimo, como responsável pelo suicídio de d. Agostinha Soares e pela loucura das outras mulheres.

A seguir passou o médium a receber mensagens de Monteiro Lobato e Armando Sales.

Logo depois, com grande assistência, realizaram-se os trabalhos mediúnicos, tendo o médium Raul de Carvalho recebido várias mensagens, inclusive uma que anuncia a próxima vinda de poderoso guia que fará grandes curas.

Todos os presentes foram dominados por intensa curiosidade. O médium Raul de Carvalho capta longa mensagem oral do padre José de Anchieta, afirmando que depois que viveu em Piratininga, teve nova encarnação, tendo vivido sob o nome de Fabiano de Cristo. Passando o médium a psicografar a seguinte mensagem:

– “Eu sou Fabiano de Cristo. Só me apresento com esta identidade porque José de Anchieta é nome de projeção e Fabiano não é. Não tenho orgulho, mas muitas pessoas só acreditariam em certas declarações quando elas viessem de um nome ilustre. É por este motivo que as entidades superiores assim o determinam. – Fabiano de Cristo.

Fonte: Revista O Cruzeiro, 1955.

No destaque, o rio Piracicaba, em 1952 (Foto:Tibor Jablonnky – IBGE)

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