Dia do Samba é festejado em Fortaleza tendo Jorginho do Império como atração

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Lenin Novaes*

“Eu sou o samba/A voz do morro sou eu mesmo sim senhor/Quero mostrar ao mundo que tenho valor/Eu sou o rei dos terreiros/Eu sou o samba/Sou natural daqui do Rio de Janeiro/Sou eu quem levo a alegria/Para milhões de corações brasileiros/Mais um samba, queremos samba/Quem está pedindo é a voz do povo de um país/Pelo samba, vamos cantando/Essa melodia pro Brasil feliz”.

Para abrir a matéria sobre as comemorações do Dia do Samba, na data de dois de dezembro, estimados leitores e leitoras da Vila de Utopia, busquei na memória uma música que sintetizasse o tema. Nada fácil. Pensei em “Pelo telefone”, de autoria de Ernesto dos Santos, o Donga, e do jornalista Mauro de Almeida, pois foi o primeiro samba a ser gravado no Brasil, em 27 de novembro de 1916 e lançado ‎20 de janeiro de 1917. Bem apropriado, né? Original.

Cuíca, cavaco, pandeiro e tamborim, assim se faz o samba (Fotos: acervo Lenin Novaes

Mas, confesso, fiquei inquieto, não indeciso. Outros tantos sambas povoavam minha cabeça. Fui do samba-enredo “Kizomba, festa da raça”, de Luiz Carlos da Vila, Rodolpho e Jonas, que deu título de campeã a Unidos de Vila Isabel, em 1988, no ano do centenário da Abolição da Escravatura; ao também samba-enredo “Ao povo em forma de arte”, de Nei Lopes e Wilson Moreira, perpetuado no desfile do Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo, de 1978, agremiação que surgiu para contrapor à descaracterização das escolas de samba e para valorizar a arte negra.

Bem, buscando abreviar a situação, pois corria o risco de estender o texto em outros parágrafos diante de assunto tão instigante, fechei questão com “A voz do morro”, (letra lá em cima) samba de Zé Keti, gravado em 1955 e que fez parte da trilha sonora do filme Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, primeiro cineasta a entrar na Academia Brasileira de Letras (ABL). O próprio José Flores de Jesus, o Zé Keti (6/10/1921 e 14/11/1999) atuou no filme, considerado precursor do cinema novo brasileiro, com os atores Glauce Rocha, Sadi Cabral, Jece Valadão e Antonio Novaes.

Zé Keti, autor de “A voz do Morro”, entre outras pérolas do samba

“A voz do morro” no pronome pessoal, imperativo. Poesia singular, não rebuscada, não teatral, foram minhas impressões iniciais nas primeiras audições, nas rodas de samba assistidas na adolescência que se espalhavam pelos bairros suburbanos, principalmente da zona leopoldinense, no Rio de Janeiro. Representante dos excluídos nos morros, mostrando ao mundo qualidades inigualáveis, carregadas de alegria e de esperança, sob-bênçãos dos orixás, originário dos terreiros, um rei cultuado por milhões de brasileiros.

E, ainda, o título A voz do morro deu nome a conjunto musical carioca de samba, na década de 1960, formado por Zé Kéti, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho, Zé Cruz, Anescarzinho do Salgueiro e Oscar Bigode. Sendo registrado em gravações de inúmeros artistas, como Luiz Melodia, Zé Renato, Diogo Nogueira, Jair Rodrigues, Jamelão, Paulinho da Viola e Cartola, além do autor, Zé Keti, entre outros.

Da música que representa o gênero musical da maior manifestação cultural popular do país à imagem da figura do artista que a personifica, também, não é fácil situar, frente às distintas personalidades consagradas na base propulsora do seu núcleo. Quero deixar claro, antes de tudo, que não se trata aqui de escolher o melhor entre eles, pois cada um cumpre a missão de preservar e fortalecer o samba. E como o enfoque principal nesta ocasião é o Dia do Samba, é oportuno reportar uma atividade comemorativa que ocorrerá, inclusive, além dos limites do Rio de Janeiro, reduto basilar do samba.

Jorginho do Império

Jorginho do Império, filho de Mano Décio da Viola: homenageado

A figura em questão, portanto, é Jorginho do Império, atração do evento Meu samba é assim, que se realizará num dos principais pontos da boemia de Fortaleza (CE): o Mercado dos Pinhões, em sua terceira edição. A promotora do evento, Michele Militão, nascida e criada na Praia de Iracema, que cresceu ouvindo samba, me garantiu que estima público de mais de 2 mil pessoas no show de Jorginho do Império, que terá também as participações do Rei Momo, Gil Baratha; do Grupo Batuque da Gente; da cantora e atriz Joana Lima Verde, filha do cantor Ednardo, na Roda de Samba Delas, puxada apenas por mulheres; Movimento das Cuícas do Ceará, Bateria Batukaya Sound e Baqueta Clube de Ritmistas.

Michele Militão, produtora cultural

Michele argumenta que a escolha pela participação de Jorginho do Império como atração nacional “é por entendermos que ele representa um legado importante no samba do Brasil”. E de fato é. Jorge Antônio Carlos, o Jorginho do Império é filho do saudoso Mano Décio da Viola, um dos maiores compositores de samba-enredo, ao lado de Silas de Oliveira, e uns dos fundadores da Império Serrano. Nascido durante o carnaval de 1944 é compositor, cantor, ritmista, passista e, por duas vezes, eleito Cidadão Samba do Rio de Janeiro. Começou a carreira artística ao lado do amigo Martinho da Vila. Em mais de trinta anos de atividade gravou 24 discos e fez shows na Argentina, na França e outros países. Reside no bairro carioca de Madureira, na rua que tem o nome de seu pai e fica próxima à Império Serrano. Foi intérprete da escola em dois carnavais: “O mundo dos sonhos de Beto Carrero” e “Uma rua chamada Brasil”.

Mercado dos Pinhões: Cultura e lazer

Palco de cultura e lazer, o Mercado dos Pinhões tem sua história iniciada em 18 de abril de 1897, quando foi inaugurado, na Praça Carolina, o Mercado da Carne, que, mais tarde, forneceria parte de sua estrutura metálica para a construção do Mercado das Artes ou dos Pinhões, como ficou conhecido. As oficinas francesas Guillot Pelletier, responsáveis também pela construção da Torre Eiffel, pré-fabricaram, inteiramente em ferro, a estrutura que mais tarde comporia o Mercado dos Pinhões. Ainda hoje é possível ver o selo da oficina nas colunas de sustentação do mercado. Décadas depois, em 1937, um decreto autorizou o seu desmonte, sendo desmembrado, em 1938, em duas partes. Um dos pavilhões seguiu para a Praça São Sebastião, onde foi desmontado, depois, e transferido para o bairro Aerolândia. O segundo pavilhão foi levado para a Praça Visconde de Pelotas, conhecida, popularmente, como Praça dos Pinhões.

No ano de 1998, durante a gestão do prefeito Juraci Magalhães, a antiga estrutura do Mercado da Carne foi revitalizada, recebendo o nome de Mercado das Artes, pois, a partir de então, o local seria palco de diversas manifestações culturais. A denominação Mercado das Artes é desconhecida por grande parte da população, que nomeou o local de Mercado dos Pinhões, por conta de inúmeros Pinheiros existentes, no entorno do mercado, durante sua construção. O mercado oferece, gratuitamente, diversas apresentações culturais, como shows de gêneros musicais como forró, jazz, samba, chorinho e outras manifestações culturais, incluindo dança e teatro. O espaço também é palco de palestras, oficinas, feiras de artesanato e outros eventos promovidos pela Prefeitura de Fortaleza.

Dia Nacional do Samba

Dois anos depois de o Rio de Janeiro deixar de ser Distrito Federal – a transferência da capital do país ocorreu no dia 21 de abril de 1960, com a inauguração de Brasília – , entre os dias 28 de novembro e 2 de dezembro  foi realizado o I Congresso Nacional do Samba, no Palácio Pedro Ernesto, promovido pela Confederação Brasileira das Escolas de Samba, Associação Brasileira das Escolas de Samba, da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, do Conselho Nacional de Cultura e da Ordem dos Músicos do Brasil. Na presidência esteve Edison Carneiro; na vice-presidência Ari Barroso, Araci de Almeida, Almirante, José Siqueira, Pascoal Carlos Magno, Paulo Lamarão e Servan Heitor de Carvalho; e na secretaria geral João Ferreira Gomes, mais conhecido como Jota Efegê, jornalista, cronista, pesquisador, musicólogo e escritor.

O congresso resultou na Carta do Samba, elaborada por Edison Carneiro, a qual menciona que “foi sancionada lei estadual declarando o dia 2 de dezembro Dia do Samba, à base de projeto apresentado, nesse sentido, pelo deputado Frota Aguiar”. Ao mencionar a sanção da lei, a Carta do Samba contava, antecipadamente, com a aprovação do Projeto de Lei n° 681, de 19 de novembro de 1962 (publicado no Diário da Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara do dia 20 de novembro de 1962), que em seu artigo 1° dispõe: “Fica o dia 2 de dezembro oficialmente considerado como o Dia do Samba”.

Porém, apesar de aprovado em plenário, o projeto foi vetado pelo então Governador Carlos Lacerda, que sacramentou decisivo despacho, nos seguintes termos: “Não há razão para considerar outro Dia do Samba além dos três já dedicados à nossa festa popular, em que ele é exaltado espontaneamente pelo povo, sem a interferência do Poder Público”. E o veto do governador foi posteriormente rejeitado com o voto de vinte e nove deputados, transformando-se na Lei n° 554, de 27 de julho de 1964, assinada no dia 29 de julho pelo deputado Vitorino James, presidente da Assembleia, e publicada no Diário Oficial do antigo Estado da Guanabara, no dia 7 de agosto de 1964.

Paralelamente, o vereador Luiz Monteiro da Costa apresentou, na Câmara Municipal de Salvador, na Bahia, em 3 de outubro de 1963, o projeto de lei n° 164/63, que “institui o Dia do Samba, manda preservar as características da música popular e dá outras providências”. No projeto, ele menciona, em seu artigo 2°, o Primeiro Congresso Nacional do Samba e a respectiva Carta do Samba nele aprovada. O projeto foi transformado na Lei n° 1.543/63 no dia 18 de novembro de 1963, data de sua assinatura pelo Prefeito de Salvador, Virgildásio de Senna.

Portanto, tanto a Lei Estadual n° 554/64, do Estado da Guanabara, quanto a Lei Municipal n° 1.543/63, da Cidade de Salvador, surgiram a partir da Carta do Samba, aprovada no Primeiro Congresso Nacional do Samba. A criação do Dia do Samba é fruto daquele congresso. Destaque-se que o II Congresso Nacional do Samba realizado em 1963 no antigo estado da Guanabara traz em seu boletim de encerramento nova menção ao dia 2 de dezembro como Dia do Samba, dizendo textualmente: “Nas escolas de samba da Guanabara e nos três redutos principais do samba, nessa data, o samba será festejado com o repicar de tamborins, com o ‘roncar’ das cuícas e com uma alvorada de 21 batidas no ‘surdo’. O tão esperado Dia do Samba também será comemorado pelas emissoras de rádio que apresentarão programas com gravação de nossa consagrada música popular”.

O Dia do Samba foi comemorado pela primeira vez em 2 de dezembro de 1963 no Rio de Janeiro e em outras cidades

Com efeito, o Dia do Samba foi comemorado condignamente pela primeira vez em 2 de dezembro de 1963, não só na cidade do Rio de Janeiro, mas também em outras cidades como Santos, onde a direção da escola de samba X-9 seguiu a recomendação do congresso carioca e cumpriu o ritual com alvorada ao romper do dia e com solenidade festiva ao anoitecer. A cidade paulista abraçou a ideia com tanto empenho que, no dia 2 de dezembro de 1983, por iniciativa de um vereador foi sancionada e promulgada a Lei n° 4.581/83, que instituiu o Dia do Samba em Santos, tornando oficial uma comemoração que já vinha acontecendo há vinte anos.

As leis citadas se propõem a instituir um Dia do Samba, cada um dentro das suas respectivas competências, procurando contribuir com o que foi definido no I Congresso Nacional do Samba em 1962. Inexiste assim qualquer lei de âmbito federal que institua o Dia Nacional do Samba, diferentemente do gênero musical “choro”, objeto da Lei n° 10.000, de 4 de setembro de 2.000, resultante do PLS n° 39/99, de autoria do Senador Artur da Távola, que instituiu o dia 23 de abril como o Dia Nacional do Choro.

O argumento está no projeto de Lei de autoria do deputado Marcus Vinicius Caetano Pestana da Silva, que tramita na Câmara Federal desde 2013. Mineiro de Juiz de Fora, região ligada ao samba carioca, ele diz que quer oficializar, em nível nacional, à existência do Dia Nacional do Samba, “pois a festa, que é cultivada por sambistas e cultores passaria a ser uma data nacional. Dessa forma, é oportuno o surgimento de um ato legal que venha a oficializar, em nível nacional, uma data que o mundo do samba já comemora, em todo o país, desde 1963”.

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional de Poesias para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS. É Assessor de Imprensa do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

 

 

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Sobre o Autor

2 Comentários

  1. BOM DIA! AMIGO LENIN NOVAES!

    PARABÉNS PELA MARAVILHOSA MATÉRIA SOBRE NOSSO SAMBA, MAIOR EXPRESSÃO DA MANIFESTAÇÃO CULTURAL DE MATRIZES AFRICANAS. MUITO ORGULHO PELA ESCOLHA A MEU PAI, ZÉ KETTI, COMPOSITOR PORTELENSE, DENTRE TANTOS SAMBISTAS E SAMBAS, PARA ABRIR AS COMEMORAÇÕES AO DIA DO SAMBA, QUE JÁ É CELEBRADO EM VÁRIAS CIDADES BRASIL AFÓRA. JUSTAMENTE UM SAMBA, DE CUNHO CIDADÃO, AFIRMATIVO, PARA A VALORIZAÇÃO DO SAMBISTA E SUA CULTURA. COMPOSTO HÁ 62 ANOS ATRÁS, E QUE HOJE É CONSIDERADO O HINO DO SAMBA E OU UM DOS HINOS. EXCELENTE A ESCOLHA DE JORGINHO DO IMPÉRIO, CONSAGRADO SAMBISTA E INTÉPRETE, HERDEIRO DO SAMBA, LEGÍTIMO REPRESENTANTE.

    MUITO BOM LENIN, É VOCE TER PERCORRIDO POR VÁRIOS ILUSTRES PERSONAGENS E SEUS CLÁSSICOS DA MPB, PARA NOS CONTAR COMO SE DEU O DIA NACIONAL DO SAMBA, REVITALIZANDO A NOSSA MEMÓRIA E ENRIQUECENDO NOSSO INTELECTO, SOBRE A NOSSA SIGNIFICATIVA CONTRIBUIÇÃO NA FORMAÇÃO DA CULTURA POPULAR. PARABÉNS A INICIATIVA DA PRODUTORA CULTURAL MICHELE MILITÃO, TB PELA ESCOLHA DO ARTISTA JORGINHO DO IMPERIO E DO LOCAL DA COMEMORAÇÃO E SHOWS PRA ESSE POVO ALEGRE COM TODOS OS ARTISTAS DE FORTALEZA NO HISTÓRICO MERCADO DOS PINHÕES.

    AGRADEÇO E DESEJO FELIZ DIA NACIONAL DO SAMBA, SALVEM O SAMBA, QUEREMOS SAMBA,
    QUEM ESTÁ PEDINDO É O POVO DO PAIS!!!
    GEISA KETTI
    CONSELHEIRA ESTADUAL DE POLITICA CULTURAL

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