De Carlos a Carlos

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Tom Jobim*

O “Folhetim” me pede que escreva sobre Drummond na passagem do seu octogésimo aniversário. É um prazer escrever sobre alguém que amamos. Nossa paixão é nacional, unânime, às vezes internacional, como há meses atrás, vi teus poemas traduzidos, em inglês. Mas não é nada disso! Tradutori, traditori. Voltemos a Itabira, i.é., voltemos para Ipanema onde batíamos tanta calçada e recitávamos tua poesia, de cor, às vezes quase chorando.

Jobim e Drummond no lançamento do LP Matita Perê, em 8 de maio de 1973 (Foto: autor desconhecido/Instituto Antônio Carlos Jobim)

Eduardo Sued, o pintor, Marcos Konder, o arquiteto, Newton Mendonça, compositor, e eu, entre o piano e a arquitetura. Às vezes, o Binho também vinha, Belmiro Medeiros, advogado. Puxávamos angustia e tome Carlos Drummond! Tomávamos chope e voltávamos pra calçada. Tínhamos vindo de Bilac, Cassiano Ricardo, Jorge de Lima, Raul de Leoni, Augusto dos Anjos, Alceu Wamasi, Vicente de Carvalho, Manuel Bandeira e de repente descobríamos esta papa-fina, esta quintessência, esta cocaína, o ultramoderno Carlos Drummond de Andrade! Poeta futurista. Éramos poucos a saber do secretíssimo Carlos. Os mais velhos reagiam. Éramos todos comunistas e íamos salvar o mundo, e o Brasil principalmente. Todos revolucionários. A Rosa do Povo era nossa, era minha. Ainda não conhecíamos os álcoois destilados. A dinamite. As misturas atômicas. Os bares de Ipanema tinham nomes alemães, Rhenania, Zeppelin, Bar Berlim. No Leblon, o Clube Germânia. Com a guerra foram todos destruídos. Hoje alguns subsistem, ou melhor, resistem com nomes mais brasileiros: Bar Jangadeiro, Bar Lagoa, etc.

Mas o teu nome Drummond permaneceu intacto. E até melhorou, se é que é possível, virou clássico! Muito mais clássico que a nossa pobre academia.

“Este é tempo de partido

tempo de homens partidos.”

Teu verso fura o tempo e os jovens te entendem e você é este eremita impecável, de infinita polícia, de rosto tão casto, de hábitos monásticos e tesão tão pura. A manifestação da força, não o recente significado chulo. E também – por que não? – a infinita tesão! Te telefono: então Carlos, vais fazer 80 anos? E você: não, acho que vou adiar.

Na ponta do Posto 6, onde há muito gostas de morar, os ventos de todos quadrantes secam teus sapatos de ferro, estendidos no varal. Teus sapatos de andarilho. Quem não anda desanda. A Lestada e o Sudoeste balançam na corda teu bordão de profeta. O Sudoeste e o Nornordeste lambem a floresta atlântica. A salsugem do largo penetra tudo. Itabira Universal. Maralto. Esta viagem não tem volta! E começa-la. Quase nunca te procuro que é pra não te chatear demais, mas ainda arrisco uma impertinente perguntinha ao telefone:

A que atribui tua longevidade?

Resposta: à cozinha mineira!

Eu penso nas costeletas de porco, no tutu com torresmo, no colesterol e quedo perplexo!

De Carlos a Carlos

beijo do Tom

*Publicado originalmente na Folha de São Paulo, Folhetim n. 302, de 31 de outubro de 1982. Acervo Cristina Silveira

 

 

 

 

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