Com o slogan de campanha Palavra de Mestre, o socialista Pedro Castillo é eleito presidente do Peru

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Rafael Jasovich*

O professor e sindicalista Pedro Castillo, 51 anos, foi eleito presidente do Peru. Até então ele não tinha disputado um cargo político e se lançou à presidência pelo partido Peru Livre, com apoio da população mais pobre e despossuída de bens de capital, que nada tem a perder a não ser os seus grilhões.

Disputou a presidência com Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori. Com a adversária, o socialista eleito travou uma dura disputa e venceu a eleição no domingo (6).

Candidato do partido marxista-leninista-mariateguista Peru Livre ganhou o primeiro turno de forma surpreendente, principalmente com o respaldo do interior, com apoio das populações indígenas e campesinas.

Em uma eleição hiper fragmentada, ele alcançou mais de 18% dos votos e ocupou a dianteira na apuração. Logo atrás, surgiu Keiko, da Força Popular.

Se foi azarão no primeiro turno, no segundo ele mostrou que seu apoio-popular é real e continuou na liderança das pesquisas mesmo após a união em torno de Keiko formada por grupos midiáticos e pelas elites políticas liberais, incluindo o escritor Mário Vargas Llosa.

Professor na província de Cajamarca, Castillo ganhou projeção nacional quando liderou a greve nacional de docentes de 2017, que paralisou as aulas por três semanas exigindo melhores condições para profissionais de educação. Não é à toa que o seu slogan eleitoral foi “Palavra de Mestre” e seu símbolo é um lápis gigante.

Terceiro de nove irmãos, desde cedo conheceu a desigualdade social no país andino. Começou seus estudos na Escola Rural N° 10465 e depois foi para uma unidade educacional localizada a duas horas de distância, que percorria a pé.

Na juventude, trabalhou pela proteção de seu povo. Castillo foi parte dos grupos “ronderos” nos anos 70, que protegiam os campesinos e agricultores sem assistência do Estado no interior do país.

Os ronderos também atuaram para resguardar os povos diante da escalada de violência promovida pelo Sendero Luminoso e pelas Forças Armadas nos anos 80-2000.

Racismo

Pedro Castillo é o primeiro presidente eleito no Peru sem ligação com as elites políticas e econômicas. No destaque, o candidato já eleito cumprimenta seus eleitores (Foto: Ricardo Moreira/Getty Images)

Sua atuação no interior e seu linguajar popular foram alvo de xenofobia, racismo e classismo durante as eleições. É inegável o racismo que terá de enfrentar à frente da presidência do Peru.

Ao longo da campanha eleitoral, Castillo e seus seguidores sofreram duros ataques preconceituosos nas redes sociais. Ele fala com sotaque regional e certos elementos de uma variante do quíchua.

Tudo isso está relacionado ao desconhecimento, ao atraso da elite peruana e de seus seguidores fujimoristas, que incluem pobres de direita, agora minoritários no país.

Essa postura preconceituosa não é algo muito difícil de esperar do fujimorismo. Durante seu governo, o ex-ditador Alberto Fujimori trabalhou com uma verdadeira limpeza étnica no país, com esterilizações forçadas a mulheres indígenas e campesinas.

Cerca de 200 mil foram vítimas dessa violência, que ainda não foi julgada. Herdeira familiar e política do ex-mandatário, Keiko Fujimori minimiza isso e alega que se trata apenas de políticas de controle de natalidade. Keiko também nega que houve tortura no período.

Além da violência de Estado, o governo repressivo foi marcado pela adesão ao neoliberalismo e a implementação de uma nova Constituição, que ainda não foi revista.

Entre as principais propostas de Castillo está, justamente, a de convocar uma Assembléia Constituinte com o objetivo de enterrar o legado fujimorista – situação que lembra a mobilização no Chile contra a herança de Augusto Pinochet.

O programa do Peru Livre prevê o abandono do neoliberalismo e a construção de uma “Economia Popular com Mercados”, com um forte papel do Estado, além da estatização de reservas.

Anjhela Priale, administradora que foi candidata a deputada pelo Peru Livre nesse pleito, disse que “a orientação básica e elementar sobre a nova Constituição é recuperar a soberania sobre nosso país e nossos recursos naturais”.

“Não administramos nossos recursos e não temos opção para renegociar os contratos das concessões ou criar estatais. Além disso, essa Constituição foi elaborada pela ditadura Fujimori”, aponta.

Revolucionário na economia, mas conservador nos costumes, o candidato eleito tem posições controversas sobre direitos das mulheres e minorias.

Contrário ao matrimônio igualitário e à educação com perspectiva de gênero, Castillo é criticado por movimento sociais progressistas por essa postura.

Mas ao contrário de Keiko Fujimori, ele afirma que não está fechado ao avanço desse debate.

Como é de praxe a direita já fala em fraude. Já vimos isso em vários países de America Latina.

*Rafael Jasovich é jornalista e advogado, membro da Anistia Internacional

 

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