Chorographia mineira – município e Comarca de Itabira

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Mauro Andrade Moura

Revisão – 2ª parte

A Chorographia Mineira, da parte de Itabira, foi-nos legada pelo Monsenhor Júlio Engrácia nos idos de 1907 como correspondente do “Archivo Mineiro”.

Disserta ainda a respeito do nome “Itabira”, informando que nem os historiadores, nem os geógrafos, nem os estudiosos da língua das tribos indígenas estavam de acordo no significado dessa palavra.

Continua, “uns traduzem pedra reluzente ou cristal, outros pedra aguda, outros pedra moça, conforme decompõem a palavra ou lhes fornecem a imaginação.

Todas essas interpretações não me parecem acertadas; a primeira porque a palavra reluzente na linguagem de nossa tribo é [bera]e não byra, não sendo do gênio da língua a transformação de letras agudas; demais está em contradição com o fato natural, único que, exposto aos sentidos dos selvagens, arrancava-lhes exclamações ou espanto, origens da classificação de nossas topografias, porque não tinham capacidade de combinações literárias.

Ora, o pico nada tem de reluzente, ao contrário, é opaco e coberto de matas e só ao Oeste, formando um desfiladeiro de pedra nua, mas negra, sem nenhum lustro, nem ao tempo de águas.

A segunda tem alguma, mas não toda probabilidade, porque não dá a análise inteira da palavra. A terceira nada tem de real, nem na linguagem  nem na natureza…

… Julgo dever procurar a denominação somente na história dos selvagens que aqui habitavam, não nos pertencendo indagar desde quando é que foram obrigados a recuar para os centros, pelas colônias militares que o poder público mandava postar, em defesa dos posseantes agrícolas ou mineirantes.

…Predominava em toda a bacia do Rio Doce o – coroado – e, em alguns lugares, o pury, mas esses em pequena escala…

…Subiram esses selvagens, por motivos etnológicos, comuns a todos os povos incultos e que vivem da caça e da pesca, ao longo dos diversos afluentes, entre os quais fica o caudaloso Piracicaba.

Tela em óleo com apliques de minério de ferro: em primeiro plano a primeira sede da Câmara Municipal de Itabira e ao fundo o Pico do Cauê (Autor: Marzagão, 2012). No destaque, bairro Campestre e o Cauê (Foto: Miguel Bréscia)

Nesse Rio faz entrada o chamado rio do Peixe – que é riacho nascido a 42º de Este da foz do contra-forte de duas colossais montanhas (Cauê e Itabiruçu/Conceição), presas pelo mesmo esqueleto interno e à pequena distância uma da outra.

A gigantesca pirâmide de Oeste é nua e de seu cimo o horizonte é vastíssimo. Aí chegando pois a tribo que subiu o – rio do Peixe – (que nasce nas bases dessa pirâmide) e, ou por causa da caça ou curiosidade natural ou para orientação, galgando a montanha, viu a Noroeste em frente e perto, igual colosso, e exclamou – outra – pedra alta – (Ita – pedra – bi – alta – ra – outra).

A montanha que serviu de atalaia deram depois os exploradores o aumentativo Itabirussu – não por ser mais alta absolutamente, mas por ter mais depressos contrafortes, e por isso ostentar-se superior. “

Tivemos também a oportunidade de apreciar a obra do autor Arthur Ramos, “Introdução à Antropologia Brasileira”,1º volume – 2ª edição – “As Culturas não-Européias”, editora Coleção Estudos Brasileiros da Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil, ano 1951, em sua página 52 lemos:

“Capítulo II – Os Tupi-Guarani: Distribuição Linguística

Os Tupi-Guarani constituem a maior família linguística do Brasil. Na América do Sul, sua área de extensão é quase igual à dos Aruak, Ultrapassa as fronteiras brasileiras: na Argentina, no Paraguai, no Uruguai, na Bolívia, no Peru, no Equador, na Guiana Francesa, vamos encontrar tribos que pertencem a essa grande família linguística.

No período do descobrimento, os Tupi ocupavam praticamente toda a extensão do litoral brasileiro. Foi com eles que travaram relações mais diretas os descobridores, missionários e primeiros viajantes.

O “tupi” tornou-se a língua geral, a língua comum utilizada pelos jesuítas nas suas tarefas de catequese. Os jesuítas chamavam-na, como vimos, abanheenga, a “língua antiga” em oposição ao nheengatu, a “língua boa” ou tupi moderno.

Página 61 do livro Introdução à Antropologia Brasileira, capítulo Os Tupi-Guarani: Distribuição Linguística (Autor: Arthur Ramos)

O abanheenga, por sua vez era bipartido em abanheenga do Sul e abanheenga do Norte. Hoje, o abanheenga está confinado aos Guarani do Paraguai, enquanto que o nheengatu se tornou, por sua vez, a língua geral da larga massa de povos tupi que habitam vasta área da margem direita do Amazonas.”

Sabidamente a língua usual dos nativos da região de Itabira era o tupi, da qual absorvemos diversas palavras às quais utilizamos ainda hoje, tais como Cauê, xará, guri, saci, mandioca, tapioca dentre tantas.

Citou-nos o monsenhor Júlio Engrácia a respeito do Rio Piracicaba, toponímia esta que denota toda a expressão a qual ele interpôs o seu entendimento a respeito da outra toponímia no texto acima a respeito de Itabira.

Com o encontro dos índios com os portugueses, também ocorreu o encontro de diversas outras coisas e a aculturação ocorreu de maneira natural nos idos dos séculos dezesseis ao dezenove e podemos dizer que uma delas com grande força foi a junção da língua tupi com a língua portuguesa.

Haja vista, temos a própria “Piracicaba”, que nada mais é que a própria junção do tupi com o português e temos:

-pira = peixe; cicaba = pouco ou acaba.

Portanto, Piracicaba é nada mais do que pouco peixe ou peixe que acaba.

Nesta lógica linguística contrariamos o monsenhor Júlio Engrácia e os demais a respeito da denominação “Itabira” e aproveitando o próprio ao citar “ora, o pico nada tem de reluzente, ao contrário, é opaco”.

Portanto, Itabira jamais poderá significar “Pedra que Brilha” e muito menos “outra pedra alta ou que desponta” em palavras do próprio, pois a expressão e extensão linguística tupi não é tão fluente e verbalizada para chegarmos a conjunção ou tal desmembramento das palavras a ponto de termos pedra alta – (Ita – pedra – bi – alta – ra – outra).

Consideremos sempre que as maiores fluências de portugueses colonizadores nesta região do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais foram oriundos do Norte de Portugal, com mais frequência de Braga e Viana do Castelo, em que por lá até hoje praticamente não utilizam a letra “V” nas palavras, tais como barrer, badio, basculante e mais precisamente bira no sentido de vira.

Nesta junção de povos e suas línguas no tempo do Brasil Colônia acabou por surgir a atual língua geral, a “língua boa” ou “nhengatu” (citado acima no livro do Arthur Ramos), língua esta que flui na junção das línguas destes povos de maneira entremeada, da qual todos se entendiam de alguma maneira em suas expressões cotidianas, tendo sido inclusivamente utilizada como arma de guerra pelo Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai, pois os batedores brasileiros entendiam os oponentes e os aqueles não conseguiam entender os soldados combatentes brasileiros.

Em tupi “nheen” significa falar.

E continuando a contrariar o monsenhor Júlio Engrácia e muitos outros atuais, podemos afirmar que o nome de nossa terra é:

-ita = pedra; bira = vira; daí temos pedra que vira.

Não nos esqueçamos ainda que do pico opaco (Cauê) escorriam pedras abauladas ou arredondadas do mesmo nos leitos dos córregos do Campestre, Rosário e Camarinha, as quais conhecemos hoje por minério de ferro do tipo “hematita”.

E como vimos na primeira parte desta resenha, Itabira foi território do município de Caeté, sendo que este nome também tem origem na língua tupi significando “mata frondosa, mato denso ou fechado e outras variantes”.

Portanto, aproveitando este ensejo do entendimento de nossa linguística geral do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais, podemos dizer que o nome em nheengatu de nossa terra é “Itabira de Caeté”.

 

 

 

 

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8 Comentários

  1. Altamir Barros on

    Mauro ,

    Ótimo artigo e surpreendente. As pedras de hematita do calçamento de Itabira eram pedras roladas, apanhadas possivelmente nos córregos , principalmente , onde começou a cata de ouro de aluvião.
    Estas pedras eram chamadas, posteriormente, devem ser com os ingleses de “lamp” porque eram abaladas e arredondadas como uma corcova de camelo.
    A partir de agora o nome de Itabira precisa ser melhor ensinado ás crianças.
    Este artigo explica muito bem, precisa ser adotado pelas escolas primárias.

    Parabéns e abraços,
    Altamir

    • Mauro Andrade Moura on

      Muito bem, Sr.Engenheiro Altamir.

      Muito mal essa tradução aliterada que vem nos forçando a aceitar como certo o nome de Itabira, a pedra que fisiologicamente não tem como brilhar.
      Espero, sim, que as escolas apresentem as outras possibilidades para o bom entendimento do que significa o nome da nossa Terra.
      Grato pela leitura,
      Mauro

  2. Weslei Faria Guimarães on

    Oi Mauro, boa tarde.
    Acho que não deve ter sido nada fácil para os portugueses chegarem aqui e dar de cara com os índios e aprenderem a língua nativa. No caso de Itabira, pela a explicação que o senhor dá, faz mais sentido, Pedra que vira, e Caeté mata frondosa, mato denso seria então né,pedra que vira na mata frondosa ou mato fechado; interessante, essas palavras, xará, guri, mandioca, tapioca, não imaginava que eram tupi, a cultura indígena é tão importante e tão rica, mas as vezes na maioria esquecida.
    Um dia quem sabe vou a Itabira, é uma cidade muito linda e parece ser acolhedora, muito verde, natureza muito rica, deve ser muito bom mesmo viver em uma cidade assim.

    • Mauro Andrade Moura on

      Olá, Weslei.

      Aqui era terra dos Botucudos, índios antropófagos que é diferente de carnívoros.
      Os antropófagos comiam os adversários mais valentes para absorver a essência da alma deles.
      O que os portugas usam de palavras de origem árabe nós usamos de tupi e banto.

      Itabira até 1970 era maravilhosa de se viver, com a abertura de vez da mineração a devastação próxima ao centro da cidade foi extrema.

      Grato pela leitura e comentários,
      Mauro

    • Mauro Andrade Moura on

      Prezado Paulinho, a Chorographia Itabira é uma obra de grande esforço de pesquisa e redação do Monsenhor Júlio Engrácia, porém, devido a alguma falta de informação ou equívocos o mesmo incorreu em alguns erros que não desmerece o trabalho dele.
      Estava por preparar essa resenha há alguns anos, o tempo foi passando, a leitura continuando e o conhecimento geral de nossa terra e família ampliando.
      Grato pela leitura de sempre,
      Mauro

  3. mas se descartarmos que em 1705 já havia as primeiras edificações – curral para passageiros, por exemplo e mineração de aluvião à beira do córrego da Penha – ´portanto o início de tudo, estaremos também negando que Mariana, a primeira cidade de Minas de Minas, teria nascida em 1696, que é oficialmente a data da primeira capital de Minas.

    Em 1696 um grupo de bandeirantes desbrava (e matava índios) as terras que depois dariam em Minas Gerais.
    Os bandeirantes decidiram acampar para passar a noite à beira de um curso dágua. Alguns ficaram por lá. Nascia a vila que depois virou Mariana, que hoje tem 323 anos.

    Então, Itabira tem 314 anos

    • Mauro Andrade Moura on

      Com relação às datas é isto mesmo.
      O primeiro local onde foi declarado a descoberta do ouro, por António Rodrigues Arzão, foi em Cataguases.
      Do Ribeirão do Carmo a história é meio controversa.
      Obviamente que já tinha sido encontrado o mineral doirado, porém era segredo de estado dos bandeirantes paulistas.
      Isso de matar índio, uns foram mortos em batalhas, outros aculturados e outros mais comiam os invasores.

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