Chatô sobrevoa Itabira e imagina que o Brasil se tornaria alguma coisa no mundo amanhã com o seu minério de ferro  

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O porco frito na própria banha

(A bordo do Raposo Tavares, 28 de fevereiro de 1943, entre Itabirito e Perdões)

Por Assis Chateaubriand

– E se fossemos rever o Pico de Itabira, propus a Olavo Fontoura, Carlos Rizzini e Célio Rocha Bastos, que nos acompanhavam nesta excursão. Faz um sol flavo e generoso. Olhei no hangar, e o Caué, avião da Companhia Vale do Rio Doce já tinha saído, rumo de Itabira do Mato Dentro.

São oitenta quilômetros pelo ar, de Belo Horizonte a Itabira. Levantámos voo, e, sem embargo do faro aeronáutico do tenente Olavo Fontoura presumir que o tempo se estava tornando mais precário, na rota para S. Paulo, ninguém resistiu, inclusive ele próprio, a visita à cidade que tem a massa de hematita de mais alto teor dos depósitos ferríferos deste país. Ao nos aproximar de Itabira, a bússola enlouqueceu. A imantação de tanto ferro dá para endoidar qualquer bússola.

Há quinze anos, o então tenente Netto do Reis me descreveu uma viagem que acabava de fazer sobre os cimos saturados de minério de ferro do Itabirito, pondo-me ao par do fenômeno de alucinação da bússola.

Faz doze dias sobrevoei pela primeira vez Itabira, com o capitão Jorge Azevedo. A cidade é uma joia, e o pico um desafio. Seria um crime que se tocasse neste parêntesis do Brasil imperial. É uma cidade contemporânea do imperador-menino, com papo de tucano, antes de 1850.

As casas são todas azuis, e tem tanta poesia como Bruges-la-Morte. Escrevo com o coração úmido de emoção. Só experimentei coisa igual há vinte e seis anos, quando subi as pedras cheias de martírio e de abandono, com o velho Costa Senna para vermos o palácio do conde de Assumar, em Ouro Preto.

Dirijo aqui um apelo ao presidente da República e ao presidente de Minas para que promovam o progresso urbano de Itabira, dentro desse tipo de arquitetura colonial. Como seria lindo fazer a capital do vale do Rio Doce desenvolver-se no estilo da era em que ela atingiu a esse apogeu de crescimento!

Chateaubriand, o cidadão Kane brasileiro. No destaque, Chatô festeja com Doris Monteiro (ao centro) no Baile do Rádio (Fotos: acervo Cristina Silveira)

Escrevi na minha carreira de advogado cem vezes este nome de Itabira. De 1921 a 1925, empenhei as melhores forças da minha devoção profissional, do meu dever patriótico, para que se construísse pelo menos a estrada de ferro destinada ao transporte de minério, em substituição ao perfil antiquado, e sem condições técnicas, da Vitória-Minas.

Em dado momento, de acordo com Teixeira Soares, cheguei a declarar ao presidente Raul Soares que, se ele não quisesse fazer a estrada com Percival Farquhar, o segredo da operação financeira para construí-la estava ao alcance de qualquer governo de Minas ou federal.

“Qual é essa chave? – interrogou-me, sobrecenho carregado, o stendhaliano homem montanhês. Respondi-lhe secamente, dando duro na cabeça dos meus amigos de Minas:

– “A chave do negócio de Percival Farquhar é um segredo de Polichinelo, que ele não ocultou ao presidente Epitácio Pessoa, ao sr. Pires do Rio e tampouco ao sr. Bernardes. Trata-se de frigir o porco na própria banha. O Ruhr e a Inglaterra têm necessidade de um minério do teor elevado do nosso, para misturar com as qualidades inferiores da Lorena e do resto do continente.

Há fome mesmo, na Europa, de hematita da qualidade nobre que guardam as minas do seu Estado. O financiamento da Itabira Iron Ore Company, para equipar estrada de ferro, usina e porto de Santa Cruz, se realiza dentro de um ciclo hermético.

Armada de contratos para entrega de minério, por cinco, dez e quinze anos, a Otto Wolf, Thyssen e outros magnatas da metalurgia westfaliana e consortes do Reino Unido, a Itabira lastreará a sua emissão de títulos, para venda ao público, em grande parte, com aqueles contatos.

Ora, se Minas tem o propósito deliberado de recusar o negócio com o antigo incorporador da Brasil Railway, facílimo será obter do governo federal a encampação da Vitória-Minas e a desapropriação das jazidas de ferro ou adquirir outras, e tocar para frente a exportação do minério e a redução de uma parte no Brasil.

Tem os senhores um negócio de primeira ordem para a economia nacional, e que não poderá ser mais postergado. Basta o que se fez em 1913 e 14, com Sir Ernest Cassel. Há possibilidades amplas e seguras de o tomarmos em mão, e fazê-lo por nossa própria conta.

Então falemos franco ao incorporador Percival Farquhar, dizendo que Minas pretende operar em siderurgia e venda de minério como monopólio do Estado. A indecisão, diante de um caso de interesse público dessa natureza, é que se torna incompatível”.

Conclui a minha sumária exposição ao sr. Raul Soares com estas palavras que bem me lembro, porque eram um ardente dezembro:

– “Poderemos frigir o porco no seu próprio toucinho. Encerramos de vez. Encerramos de vez as conversas, com o sr. Farquhar. Façamos um intermediário de Minas partir para a Europa. Transformemos em ouro o ferro de Itabira, e logo teremos os 33 milhões de dólares necessários à reconstrução e adaptação da Vitória-Minas, como artéria transportadora de minério, os seis milhões da usina de Natividade e os dois milhões para o porto de embarque do minério em Santa cruz.”

Nunca mais me encontrei com o sr. Raul Soares, depois dessa conversa. Ouvi, entretanto, dos delegados, da Itabira que trataram posteriormente consigo, expressões de respeito pela firmeza com que agiu, como presidente de Minas na parte do contrato estadual.

Enunciou qual a modificação que desejava nesse contrato, e foi peremptório. Atendidos a esses pontos, nada tenho que objetar. Opino que os senhores devem prosseguir na execução dos planos financeiros na Europa e nos Estados para apressarmos os trabalhos da estrada, da usina e do porto.

Justo vinte anos depois saia o monopólio do Estado federal para os três serviços venda de minério, construção da usina e exploração da estrada.

No Norte empenha-se o governo na luta da borracha. Aqui é a batalha do ferro. Em ambas há que estirar e bater duro. Com 100 mil toneladas de borracha produzidas, 3 milhões de minério de ferro exportados, 1 milhão de aço laminado e duas ou três centenas de milhares de toneladas de alumínio – poderemos pensar em ser alguma coisa no mundo amanhã.

Por enquanto ainda estamos na categoria dos Estados de economia semicolonial. Agora entramos a engatinhar como nação independente.

[Diário de Pernambuco, 5 de março de 1943. Hemeroteca da Biblioteca Nacional/Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]

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2 Comentários

  1. João Tobias Vieira belisario on

    Um vislumbre real . Uma visão acertada . Só não imaginavam que o berço de toda esta riqueza de nada valeu . Simplesmente com os hoje uma cidade esburacada, uma meretriz que ainda acredita dar um caldo em fim de carreira . E a culpa foi de quem, desde que o dinheiro começou a desfilar em grande quantidade por aqui . Junto com o sonho de uma cidade promissora e rica também vieram agentes usurpadores e visionários corruptores . O poeta tava certo ..mas só uma mudanca na frase .. Itabira será sempre um retrato na parede , que ninguém notou muita diferença .

  2. Cristina Silveira on

    Alvíssaras! Finalmente um lucido. Será um Itabirano? Acho que não…. João Tobias, o seu comentário me dá alento. Um pensante não amante da derrota. Lúcido quanto a realidade da mineração em Minas.
    E aguarde novas notícias aqui na Vila sobre os “agentes usurpadores e visionários corruptos”.

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