Audiência Pública debate segurança com saudade do regime militar

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A Audiência Pública promovida pela Câmara Municipal ontem (11/7) à noite para debater a falta de segurança em Itabira contou com pequeno público, basicamente parentes e amigos do jovem Carlos Mota, 22 anos, assassinado na madrugada de domingo (4/6), no bairro Pedreira do Instituto. E foi marcada por um tom saudosista do regime militar (1964/85).

Vereador André Viana critica direitos humanos e declara voto em quem defende torturador (Fotos: Carlos Cruz)

O vereador André Viana Madeira (PTN), um dos autores do requerimento que resultou na realização da audiência, conclamou o público a votar nas eleições de 2018 em quem não defende os direitos da vagabundagem, não trata os direitos humanos como “direitos dos manos” e não transforma policial em bandido e esse em herói. “Por tudo isso, vou votar em Jair Bolsonaro (para presidente) ”, declarou em tom ufanista.

Para não se esquecer de lembrar, o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) é outro saudosista da ditadura militar, da qual foi fiel servidor. Ao votar pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do Destacamento de Operações de Informação-Centro de Operações de Defesa Interna  (DOI-Codi), denunciado como algoz de inúmeros presos políticos, inclusive da ex-presidente, torturada por ele com requintes de crueldade sadomasoquista.

Poder paralelo

Teve também quem defendesse na audiência a volta dos desfiles cívicos de estudantes, do ensino de moral e cívica, e o papel da família na luta contra os traficantes de drogas, apontados como principal causa da violência.

Vereadores propõem criar guarda civil armada

“Existe um poder paralelo do crime organizado em Itabira e que se formou porque em algum momento as autoridades deixaram que isso ocorresse. Onde o braço do poder público não atua, a bandidagem prospera”, disse o vereador Viana, depois de pedir mais policiamento ostensivo nas ruas e postos policiais nos bairros considerados mais violentos.

O parlamentar lamentou a ausência na Audiência Pública de representantes do poder judiciário e do Ministério Público. Outra ausência importante foi de profissionais que atuam nas áreas sociais, o que acabou dando aos debates um viés mais repressivo sem um enfoque social da questão da violência e do aumento da criminalidade no país.

Só faltou alguém dizer em público que “bandido bom é bandido morto”, embora muitos tenham afirmado que não há como recuperar quem já ingressou no submundo do crime. Também não houve quem defendesse publicamente a liberação do porte de armas de fogo para a população se defender da bandidagem armada para o cumprimento da lei de Talião, da justiça praticada com as próprias mãos.

Efeitos sem causa

Segundo o vereador Weverton “Vetão” Leandro Santos Andrade (PSB), outro autor do pedido de audiência, a violência cresceu bastante em Itabira com a crise econômica e o consequente desemprego. “Tivemos 19 homicídios este ano, diversos roubos e furtos. A sensação de impunidade é grande na cidade. Foram registradas mais de mil ocorrências nos últimos dois anos envolvendo adolescentes infratores.”

Major Rogério Fernandes rejeita posto policial e sugere investir em base comunitária móvel

O major Rogério Fernandes, do 26º batalhão da Polícia Militar, reconhece que há uma onda de violência, mas assegurou não ser por falta de policiamento ostensivo. “Tivemos mais de 5 mil operações realizadas e mais de mil prisões efetuadas este ano”, contabilizou.

Fernandes rebateu a proposta de abrir postos policiais nos bairros considerados mais violentos. “Isso vai contra a tendência de se ter uma base comunitária móvel que pode estar em vários bairros. Estamos atuando com operações pontuais e os resultados estão vindo.”

Seguindo a mesma tendência, o delegado regional da Polícia Civil, Paulo Tavares Neto, sustenta que a saída não é só ampliar o efetivo das polícias Civil e Militar. “De nada adianta prender mil, dois mil bandidos se logo depois estarão todos soltos”, disse, defendendo a necessidade de mudanças na legislação penal.

Para ele, o baixo contingente policial na cidade não é determinante para o aumento da criminalidade – e pelo sentimento de impunidade. “De todos os homicídios cometidos em Itabira, 90% foram apurados. É um dos maiores índices de apuração do Brasil, mesmo com a deficiência operacional que temos.”

Embora o tráfico de drogas tenha sido apontado como a principal causa da violência, não se tocou no tema da legalização, principalmente da maconha, como parte de uma política de redução de danos para o usuário e de minar a fonte de arrecadação para as organizações criminosas.

Delegado Paulo Tavares é contra a legalização da maconha

Entrevistado por este site sobre o tema após a audiência, o delegado Tavares reconheceu que a proposta é controversa, com autoridades policiais, profissionais das áreas da saúde e da educação a favor e contrários. E foi taxativo quando perguntado sobre qual é a sua opinião.

“Sou contra a legalização da maconha”, respondeu o delegado, para quem só o investimento em educação irá assegurar a boa formação de cidadãos sem depender de drogas. “A atual geração de menores infratores está perdida. Temos de impedir que as novas gerações sigam pelo mesmo caminho.”

Propostas

Além das 49 sugestões apresentadas pelo Conselho Comunitário de Segurança Pública (Consep) para aumentar a segurança, os vereadores também listaram algumas medidas que consideram essenciais.

Aumento do contingente militar é uma das propostas apresentadas na Audiência Pública

Segundo os edis itabiranos, é imprescindível aumentar o efetivo policial, assim como criar uma guarda civil pública armada para reforçar o policiamento ostensivo no combate à criminalidade.

Eles querem também que sejam intensificadas as operações policiais nas áreas mais afetadas e reincidentes, além de investir na polícia civil investigativa e abertura de postos policiais.

Propõem campanhas socioeducativas nas escolas e a construção de um centro de reintegração do menor infrator. E mais a execução de um plano estratégico de iluminação de áreas com maior incidência de criminalidade e sem urbanismo.

 

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