Atentado do Riocentro golpeou autoridade de Figueiredo e completa 40 anos sem culpados

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Explosão de bomba que matou sargento e feriu capitão trouxe à tona faceta mais obscura do grupo que se insurgia contra abertura do regime militar

Bernardo Pasqualette*

Folha, 16 de outubro de 1978. A principal manchete daquela segunda-feira repercutia uma das primeiras declarações de João Baptista Figueiredo, já na condição de presidente do Brasil: “Prendo quem for contra a abertura”.

Nas páginas do jornal, ficou registrada toda a audácia do general que acabara de ser alçado ao cargo político mais importante do país: “É para abrir mesmo. E quem quiser que não abra, eu prendo, arrebento”.

O recado estava dado. Se era uma promessa, soou como ameaça. Em pouco tempo, aqueles que se opunham ao processo de abertura política testariam a sinceridade de Figueiredo.

Iniciou-se uma série de atentados realizados pelo grupo contrário à flexibilização do regime. Gradativamente, a violência subia de tom. Se no início do governo Figueiredo os atentados eram cometidos na calada da noite e sem vítimas, em agosto de 1980 o surto terrorista mudaria de patamar.

Uma bomba endereçada à OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) vitimou fatalmente uma secretária da instituição. A senhora Lyda Monteiro, uma das funcionárias mais antigas da entidade, desafortunadamente abriu o envelope-bomba.

Sua morte foi dolorosa: esperou a chegada da ambulância por cerca de 20 minutos, consciente e com parte do braço arrancado de seu corpo. Morreria pouco depois em decorrência do trauma torácico, quando ainda se tentava uma transfusão de sangue no Hospital Souza Aguiar, no Rio de Janeiro.

Figueiredo reagia com fingida teatralidade, exibindo arroubos de bravura que não condiziam com a postura de seu governo diante do desafio publicamente lançado.

Na prática, havia mais imobilismo que ação. A complacência das autoridades dirigida às investigações dos primeiros atentados foi interpretada como uma espécie de leniência em relação às ações propriamente ditas. Agora, quem dera o recado fora o outro lado.

A aposta havia sido dobrada

Travava-se uma guerra particular nos subterrâneos do regime. Seus detalhes eram conhecidos por poucos, mas sua essência tinha como face visível a série de atentados que colocavam em xeque a própria autoridade presidencial. A abertura política lenta, gradual e segura, iniciada no governo Ernesto Geisel, estava sob ameaça.

Diante desse panorama sombrio, chega-se à noite de 30 de abril de 1981. Àquela altura sem adversários a confrontar o regime, o radicalismo de direita fabricava inimigos para justificar a existência extemporânea do aparato repressivo.

Naquela noite, véspera de feriado nacional, seria realizado um show no Riocentro. As 9.892 pessoas que passaram pelas catracas do centro de convenções não imaginavam o risco representado pelo Puma no estacionamento.

Dentro do veículo, dois oficiais do Exército e artefatos explosivos. Para mal dos pecados daqueles que se contrapunham à abertura, uma bomba explodiu antes do previsto, matando um sargento e estripando um capitão.

A deflagração precipitada do artefato trouxe à tona a faceta mais obscura do grupo que se insurgia diante da marcha rumo à democracia.

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