As pedras de Drummond

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Everaldo Gonçalves*

“Tinha uma pedra no meio do caminho.”

Com esta afirmação, em um poema sem rima, o mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) entrou para o fechado grupo dos modernistas paulistas. E qual era a pedra? O que o poeta quis dizer com a pedra que colocou no meio do caminho?

Recentemente, reli e me vali dessa enigmática poesia de Drummond, para mostrar que, muito embora o Brasil tenha sido decantado em prosa, como sendo um País rico em pedras preciosas, não o é sequer em versos, com elas. Agora, espero homenagear os cem anos e pico do poeta e, quem sabe, colocar uma pedra preciosa em cima de tão célebre poema.

Faz-se na vida, inclusive, mau uso delas – as pedras –, tanto no real como no imaginário. Valoriza-se, às vezes, o lado esotérico do fetiche das pedras, que não têm poder de cura algum – exceto o de um bom placebo –, em detrimento do belo em si, de suas cores ou das formas geométricas perfeitas do cristal, como se tivesse sido lapidado pela própria natureza, que pode ser superada pela mão do artista o qual faz da pedra bruta uma joia, um capital de elevado valor de troca, sem valor de uso, posto que é o supérfluo do supérfluo.

Garimpo de ouro em Itabira, quando tudo que era sólido se desmanchava no ar (Fotos: Eduardo Cruz)

O suprassumo da inutilidade, segundo Marx, é como se o trabalho do homem lhe tivesse dado a vida, cujo fetiche faz com que elas, nas vitrines expostas como mercadoria, nos olhem de maneira sedutora, chamando-nos para serem compradas. Porém, não é fácil organizar seu mercado. As pedras, nada mais que uma acumulação primitiva do capital, o extrativismo do capital pronto da natureza, perdem muito do seu valor potencial, devido ao baixíssimo teor na jazida e o elevado grau de incerteza na produção, por isso, baseada nos garimpos, em geral lavras clandestinas (80% da produção nacional), sem atestados de origem e autenticidade caem no mercado informal.

E o uso legal, em âmbito judicial, no qual pedras podem serem garantidas à penhora, nos termos do item dois do Código de Processo Civil (CPC), artigo 655, desconhecido, muito embora a Lei venha do Império, período em que constava, desde 1613, das Ordenações Filipinas. Antes de 2006, na garantia da penhora, primeiro vinha o dinheiro e, em segundo lugar, os metais e pedras preciosas; agora estão em oitava posição de preferência. Outro uso corrente e consagrado é “no penhor, um horror!” Quem já usou pode falar que tinha uma pedra! Lá é que vale a máxima de Marx (2001:29): “Tudo que é sólido e estável, de repente se desmancha no ar!”.

No penhor, afirmo (Gonçalves, 2003: 209), até o ouro vira pó. A garantia real vai sendo corroída por juros e taxas que, a cada renovação da cautela, se o usuário não tiver cautela, seu capital é exaurido até zerar ou ficar negativo, o que configura a menos-valia.

O País é rico, mas em parte é pobre, dado o mau uso das pedras, e o é também nas letras, por não usá-las a contento. No tocante às pedras, a literatura brasileira é mais do que pobre, é paupérrima. Nenhum conto de pedra tornou-se célebre, nem os do vigário –   tantos. O “Caçador de Esmeraldas” de Olavo Bilac aprende-se na escola, e nada mais. Foi a saga em busca das pedras verdes, que, aliás, não se sabe onde estão e por onde andou o bandeirante Fernão Dias Paes Leme. Mas, em seu rastro, iria surgir as Minas Gerais, e, agora, em Itabira, uma enxurrada de esmeraldas.

Na poética, com as pedras, tampouco há rimas preciosas. Não há, como se diz, pérolas, pois estas não são preciosas, dado que não são pedras, produtos naturais do reino mineral. É o Muiraquitã, o talismã de Macunaíma, o personagem modernista de Mário de Andrade, que deixa a floresta para reavê-la e perde-se na cidade, como um herói sem caráter, e caminha até encontrá-la, para retornar à selva e perdê-la. No “Cancioneiro da Inconfidência” de Cecília Meirelles, as tão decantadas turmalinas sequer estão na lista das pedras preciosas.

Etimologicamente, pedra, petrus, do latim, é uma substância natural do reino mineral, nome vulgar de uma rocha, agregado de minerais, que são cristais com composição química e física definida. No sentido gemológico, pedra é uma gema ou pedra gema, se em estado bruto, o cristal já possui valor, valor de troca. Já o termo pedra preciosa é reservado ao diamante, ao coríndon (rubi e safira) e ao berilo (água marinha e esmeralda), por possuir beleza, raridade, dureza, elevado valor e mercado. Quanto à legitimidade da pedra, ela é dada mais pela mão de quem a usa, do que pela do geólogo, pois na mão do pobre, o mais puro diamante vira vidro; na da madame, é um valioso brilhante.

Pedra, ao poeta, pode ser um fragmento de rocha, uma pedra preciosa ou não, uma lápide, um monumento ou um maciço rochoso, a montanha. Palco do célebre sermão da Igreja, cujo reinado foi construído em cima de uma pedra e de Pedro. Já, ao usuário, se for crack, é uma pedra no caminho que não tem volta.

Quando minúsculo, é o grão de areia ou silte, a fração menor. Se for inferior ao tamanho de uma mão, é um seixo. E, maior, um matacão ou um bloco. Dele, com o pixote, a cunha ou apenas com o marrão, o cantareiro faz a base ou o pedestal, que pela mão do escultor transforma-se em uma estátua, como o fez Michelangelo ao terminar seu “Moisés”, deixou sua marca ao bater com o cepo no cinzel, em seu joelho, e ordenar-lhe, de tão perfeita: “Parla!”

Se for muito grande, uma pedra vira um monólito, um morro, tal qual o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro ou o extinto Pico do Cauê, em Itabira, terra de Drummond e das antigas minas de ouro e de ferro, em Minas Gerais.

Drummond, nascido em berço de ouro e de ferro, da pedra-ferro e da pepita, na vida teve influência do minério, do risco, do fastígio, da incerteza ou do bamburro no garimpo dos mistérios das pedras. Estas, por sua vez, marcaram e refletiram-se em sua obra. Por vontade ou acaso, o minério rendeu muito caso e inspiração ao poeta mineiro. Drummond – sem mineirice – tem toda mineiridade e o legado do mineirismo. No coração romântico, na alma pura e pulso de ferro. Marcado nos contos, poemas de versos de rimas livres e rastro de minério. Ora no chão de ferro, cujas ruas de sua Itabira eram de “pés-de-moleque”, revestidas em 80% com seixos, placas e pedras do mais puro minério de ferro.

Ora no ouro, no outro, como diria o poeta, trocando um pelo outro no poema de sua lavra, a “Mineração do Outro”. Mas o próprio poeta, ateu, nunca orou na Igreja de altar coberto de ouro. Da lavra do metal amarelo, surgiu o Arraial de Itabira do Mato Dentro. Depois, vem o ferro da antiga Mina do Cauê, no pico do mesmo nome, a pedra que marcou tão bem o espírito do poeta e se exauriu como ele, embora este viva entre nós, posto que imortal. E, ainda que tarde, postumamente, tem a novidade, a pedra da esperança. A esmeralda, a pedra que tinha no meio do caminho, do bandeirante Fernão Dias, o qual também por lá passou. Ele que tinha encontrado as pedras verdes, tidas como turmalinas, mas bem poderiam ser as legítimas esmeraldas, que lá abundam. Assim é que ambos, Fernão e Drummond, se foram, enganados. O paulista com uma porção delas no travesseiro de seu ataúde. O mineiro, com as vistas cansadas, sem tê-las visto em Itabira. Pois a esmeralda, variedade verde do mineral berilo, pedra preciosa legítima, entre seus poderes teria o de curar as vistas e retinas fatigadas.

Hoje, Itabira, já quase sem ferro rico, concentra minério pobre, o itabirito, à custa do itabirano e do mineiro pobre. E, há pouco tempo, tornou-se um centro de produção e comércio de finas esmeraldas. Das lavras já famosas de Capoeirana, o sonho de Fernão Dias parece ter vingado. E, se é vero que passou por lá mesmo, na verdade, tinha descoberto, sim, esmeraldas. Hoje, de tanta pedra verde extraída em Itabira, com outras ocorrências na Bahia e em Goiás, o Brasil é tido como o principal produtor dessa pedra preciosa.

Um verde engano pode ter ocorrido, sim, tanto de um como de outro. Um se foi e as tinha como verdadeiras, o que podia ser mesmo; o outro morreu enganado, ou, antes, tivesse sido enganado na própria poesia:

Canto Mineral  

(Carlos Drummond de Andrade):

“E as esmeraldas,

Minas, que matavam

de esperança e febre

e nunca se achavam

e quando se achavam

eram um verde engano?”

A interrogação final do poema deixa mais dúvidas do que certezas sobre o engano. Quem errou, se é que o cometeu, pergunto eu? Uma vez que o bandeirante errou na pedra, desbravou as Gerais que viraram Minas, muitas, inclusive as esmeraldas que estão no percurso da montanha mágica de Sabarabuçu, cuja lenda conta que, uma vez tocadas, as pedras preciosas se metamorfoseavam no verde engano. E o poeta que se engana ou – como se por castigo, ou vaticínio – num reverso do verso, as pedras ordinárias, num toque de mágica de sua lavra, numa rima pobre, aí é que se engana. Sua Itabira, após sua morte, tornou-se uma nova vila rica, sem ouro, mas com o chão de ferro e o brilho da montanha de hematita apagado, com o fulgor do berilo verde que, sem engano, é sim a esmeralda. Essa pedra preciosa que a tinha escondida, que lá, em vez de surgir na montanha, dá nas profundezas da terra ou nas catas abertas de aluviões.

Alexandrita, pedra preciosa

Em suma, da lavra de Drummond, modernista, tinham saído poucas rimas ricas e algumas até preciosas, em um eterno retorno na origem das Minas do poeta. Nele tinha muitas Minas. A das Matas, que foram derrubadas para dar lugar aos pastos para o gado e o café. A do Sertão e a dos Campos Gerais – com cerrado também acabado – que deu muito tição perdido no fogo anual para a brota do pasto. Depois perdido por ser a base da siderurgia mineira, o carvão vegetal, que rouba no alto-forno o oxigênio da hematita e volta à atmosfera, aumentando o efeito-estufa. E a das Minas, da mineração que o poeta vaticinou o fim de tudo, em seu Tinha e em inúmeras outras crônicas.

Quem diria que um dia iria acabar o minério de Minas? Pois é: tinha manganês em Conselheiro Lafaiete; tinha ferro em Águas Claras na Serra do Curral e lá na Itabira de Drummond; até diamante no vale do Rio Jequitinhonha tinha; o ouro de rio em Minas, nem se fala que tem mais, foi cunhar a libra esterlina; e, logo-logo nem o nióbio Araxá mais terá; e outros minérios se vão no vagão, no porão do navio, quando não no avião, as pedras preciosas na mão. Minérios não dão duas vezes é o refrão que nos une no ditado tantas vezes gritado nas ruas pela UNE. A opulência e a fortuna fácil na lavra do ouro acabaram em um século de extração. Era a incerteza e riscos da mineração a par do sonho acalentado no ganho fácil, no tesouro, no maná, e a levar uma vida a procurar o que não tinha guardado.

O mineiro do garimpo, um homem diferente, misterioso, sonhador, arredio, de pouca fala, mansa, que diz que vai, mas não vai, e se diz que vai para um lado, é certo que vai para o outro. É solidário só no câncer, segundo outro grande mineiro tinhoso, Otto Lara Resende, que garimpou muitos contos. De garimpo quase nada diz ele, nem qualquer outro escritor tupiniquim, daquele artesão, o garimpeiro, que exerce um ofício, uma profissão tão conhecida, mas que não é mais reconhecida. Esse ser misterioso, que sonha acordado, dorme rico e acorda pobre, é um misto de indivíduo esperto da cidade, com o matuto de olhar de lince, que cochila de olho aberto, qual um estrábico, sempre vê o fundo da bateia e enxerga até a sombra do passante, que escuta de ouvido atento ao menor ruído, de folha caída ao vento.

Chove Ouro em Itabira: garimpo na grota do Minervino

O tempo e o ser, o concreto e o abstrato, o rico e o pobre, o trabalho é o jogo, o tudo e o nada, o dinheiro é o ouro em pó, em palheta, em granete e pepita, um vira no outro. O garimpo parece mentira ora dá, ora tira. Há quatro coisas na vida, segundo José Levi, garimpeiro, compositor de Diamantina-MG, que atrapalham o garimpeiro: mulher bonita, cachaça, jogo e dinheiro. O metal amarelo, o deus, o minério, o ore do inglês, que mesmo para quem ora, se acaba, ora na cata no aluvião, ora no veio no túnel, sem fim. Nasceu daí a incerteza nos rumos da mineração de grande porte, que não precisa da sorte, mas da cobiça e da boa vontade do estrangeiro. Do minério bruto, do lúmpen, o mais puro minério de ferro dá o rolado, o chapinha, o bitolado e o fino, antes rejeitado, agora é aglomerado na nobre pelota. No início da República, as terras com minério em Itabira, o nosso solo e subsolo, as concessões eram dos ingleses, da Itabira Ore, que depois passaram às mãos de outro estrangeiro, capitaneada pelo norte-americano Percival Farquhar et CIA. Até que estourou a Segunda Grande Guerra Mundial e outro espectro, com a cruz gamada do nazismo de Hitler, fez com que Getúlio, mesmo com seus Camisas Verdes, libertasse-nos do jugo estrangeiro, vingando a empresa estatal. Uma, em Volta Redonda (RJ), a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Outra, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), que nasceu na Itabira (MG) de nosso poeta maior, que já não a tem mais como antes, nem nós, que ficamos sem Ele, sem Ela e sem o minério.

Em tudo de Drummond tinha pedra, que repetiu à exaustão, de fato, ao repetir o tinha uma pedra, que agora Itabira já não tem mais aquela sua pedra rica.

Em 1924, o então jovem Drummond – um legítimo “pé-de-pomba”, pé-vermelho tal qual a mim, ele com a sola marcada pela tinta indelével do solo do minério de ferro e eu com a sola do couro do seleiro, meu pai e a terra roxa da alteração do basalto – lavrou uma poesia, na verdade um poema ou poemeto, que foi publicado em 1928, na edição nº 3 da “Revista de Antropofagia”, causando enorme furor:

No meio do caminho

(Carlos Drummond de Andrade, 1928):

“No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.” 

A crítica foi desfavorável. Uns viram logo, entretanto, o “Modernista das Alterosas”, na poesia solta, sem métrica, de rimas pobres, e um enigma, uma aporia, um caminho sem fim, que não levava a nada e, mesmo assim sem volta, em um repetir sem fim o tinha, um eterno retorno nietzschiano. É uma revolta ao clássico, ao convencional, abandono das formas e construções métricas perfeitas, daí o modernismo do poeta. Em vez de usar a prosa e a escrita culta da época, com sujeito, verbo, predicado e o complemento, ele, liberto como poucos, inovou, dando vida e significado ao oculto, expressando-se com liberdade e desenvoltura. Repetiu, em dez linhas, a partir do título: sete vezes meio, caminho, tinha e pedra. E que cada um interprete como queira ver, com a ajuda de seu legado:

Legado

(Carlos Drummond de Andrade – Claro Enigma – 1951):

“Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.”

Em seu caminho agora havia uma pedra, não tinha mais? Não uma, a única, mas muitas. Nasceu numa pedra, a própria decantada por ele, sua Itabira, do tupi, ita = pedra e bira = brilho. Pedra que brilha, puro minério de ferro. A hematita, mineral denso, cujo metro cúbico pesa 5,25 toneladas, com dureza seis. Que lá ocorria, tinha, minério consagrado no mundo como o de mais elevado teor, 70% de ferro e o restante de oxigênio. Hematita, a pedra cinza-preta, de traço vermelho, dura, maciça, botrioidal, folheada, pulverulenta ou nas variedades. Uma há em escamas, brilhante, especular, a especularita. Outra é a magnetita, cujo poder de atração tem mudado o caminho de muita gente boa, pois até a bússola junto dela fica louca. Quando hidratada dá o ocre, pigmento amarelo das pinturas rupestres. Mas, o nome principal, hematita, vem do tupi e do grego hemos, de sangue, pedra-sangue, que é a cor vermelha do pó dessa pedra, não o hemos de havemos, que virou abemos e deu temos. Sangue esse das veias poéticas do itabirano de peito de aço e coração sensível que faz das lembranças o retrato do pico que não existe mais:

Confidência do Itabirano

 (Carlos Drummond de Andrade):

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!”

Lá na terra natal, um chão de ferro, havia sim uma pedra muito grande, um morro, uma montanha de ferro. Tinha mesmo no seu caminho, que lhe cansou a retina de tanto vê-la bem na frente de sua cidadezinha. Como num vaticínio, hoje já não tem mais, levaram o minério para longe, para Michigan, para Detroit, fazer aço, chapa, automóvel. Para Londres, Manchester, Liverpool e para a Europa Continental, na guerra. Depois, para recuperar o mundo do pós-guerra, no Japão, Alemanha e Itália e nos países aliados vencedores. De novo nosso minério suportou, nos canhões, a Guerra da Coreia. Agora, em um negócio da China, vendeu-se a Vale toda, com um vale, que se pagou com o dinheiro que tinha no caixa – nossa empresa maior não é mais nossa. O minério vai e vem de trem, no porão, na forma de algum bem, nem que seja um que aqui se tem, como um guarda-chuva chinês, que se usa uma única vez.

Mina de Conceição, em Itabira, quando ainda havia pico e hematita

A Montanha de ferro foi removida, não pela fé, que não remove montanha alguma, nem pela boa-fé de muitos, antes sim, pela má-fé de poucos!

Assim é que: no meio do caminho tinha uma pedra! Que já não tem mais.

O tinha é o pretérito perfeito; o tem o presente, que demos para alguém, assim não se tem futuro, pois minério nunca mais o terá. No lugar do tinha, o correto, o mais adequado, seria havia e, por isso, duramente criticado por fugir do falar culto, que o poeta aboliu. Foi redundante, ousado, repetiu o Ter, como se fosse um Ser, que se foi sem tê-lo, sem nada dever ao haver.

Havia uma pedra no meio do caminho… E assim por diante, sucessivamente, até cansar a fala, mas não as vistas. E, afinal, que pedra poderia cansar as vistas, as retinas tão fatigadas, se nem idoso era o poeta na ocasião? Eis a questão: decifra-me ou te devoro, perguntou a esfinge da fábula, com seus olhos verdes. Tantos acham, entendem, interpretam, defendem, escrevem em vão e tentam explicar a poética livre que tem o mineiro modernista. Líder de sua geração, sem que se reconhecesse o tal no modernismo montanhês, segundo Pedro Nava (Beira Mar/Memórias 4, 1979: 171), a quem carinhosamente Carlos, naquele tempo, era: “um moço de cabeça bem posta no longo pescoço de figura de Modigliani…”

Homem de vida espartana, de hora certa passeando em Copacabana, no Posto Seis, no trabalho público era um servidor brioso, o perfeito burocrata. Na vida privada, uma verdadeira incógnita, que escrevia nas entrelinhas, um tipo esguio de chapéu, terno, capa, guarda-chuva e galocha, uma figura caricata. Um fenótipo longilíneo, pescoçudo, de perfil reto, calvo e de óculos marcantes. Sujeito introspectivo, de verbo fácil e muitos adjetivos, de muita escrita e pouca fala. Cioso no amor (muitas vezes piegas), mas vale a pena procurar pelo seu lado obsceno, para quem “a bunda são duas luas gêmeas” (“A bunda, que engraçada”. Drummond …). Um tipo recatado, recôndito, recluso, introvertido, crítico mordaz, irônico, esquivo, lírico, erudito, fechado, com bons e poucos amigos. Incrédulo, profano, gauche, ambíguo e contraditório tal qual um dialético que seguiu outra Bíblia, “O Manifesto de Karl Marx”, muito anterior ao “Manifesto dos Mineiros”, que não assinou. Mas emprestou seu nome e prestou serviços na “Tribuna Popular”, o jornal de Luiz Carlos Prestes, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, que cedo abandonou o velho PC, sem aderir ao novo, o computador.

Sobre o significado da pedra, ele mesmo, ao que se sabe, nunca falou se se tratava de uma apenas e de qual pedra. Nem ao menos se havia mais de uma pedra no meio do seu próprio caminho. Seria um estorvo tantas vezes a atrapalhar a vida do poeta, que, sem rumo, saiu de sua cidadezinha em busca de outros mares, primeiro em Belo Horizonte, estado sem mar, no presente, mas que o teve há mais de um bilhão de anos. Era nas espumas de versos das rodas de prosa de tantos bares, nos arredores da Rua da Bahia. Foi a Ouro Preto, passando por outros picos, de Itabirito, que também se vai, e do Itacolomi, pedra flexível; e, em vez de estudar as pedras na Gloriosa Escola de Minas, preferiu as poções e os sais de outra faculdade, de onde saiu diplomado, sem virar boticário.

Depois, sim, o farmacêutico, teve seu mar no Rio, em sua Copacabana. Em sua chegada, era o Rio de Getúlio, de outro mar, um mar de lama, cuja ditadura serviu, de 1934 a 1945, no Ministério da Educação, como Chefe de Gabinete do amigo Gustavo Capanema, ali no prédio modernista de Oscar Niemeyer, no Castelo, quase na lateral do aeroporto Santos Dumont, outro mineiro célebre, o “Pai da Aviação”. Na partida um mundo sujo que tem tanta coisa que não gostaria de ter de ver, com poucas que não pode mais!

A pedra de Drummond não era uma pedrinha qualquer, um pedregulho, um seixo, um calhau ou mesmo um matacão, como se pensa ou têm interpretado os homens das letras. Baseio-me na obra atual de Davi Arrigucci Jr. (Arrigucci, 2002: 68-74), muito bem analisada na forma, mas que, sem saber de pedra, perdeu-se no conteúdo da poesia. A leitura quase direta, o óbvio, o simples é mais fácil de compreender. Quando se quer ir além e penetrar na alma do poeta, para entender seu verso, interpretar seu pensamento, pode ser impossível. No caso tem de saber de suas Minas, não uma, mas de tantas Minas, do ambiente do poeta, não basta a análise literária. Eu, um homem das pedras, vejo tudo de outra forma. Já o crítico, não. Veja-se o que Arrigucci entendeu:

“Como pedra de escândalo em que todos tropeçam, é sempre citado, mas só considerado de passagem e, na verdade, pouco estudado analiticamente, apesar da grande importância para compreensão da obra toda” (idem: 69).

“por fim, a completa banalidade do que ali se considera literalmente um acontecimento, isto é topar com uma pedra no meio do caminho”. (idem: 70)

“Aqui ele se mostra como lance permutativo, que pela troca repetida de partes de verso faz do texto tecido verbal, tramado pelo retorno rítmico dos segmentos como lançadeira de um tear, repisando pela repetição circular e infindável o efeito da alma do desconcerto da pedra no meio do caminho”. (idem: 71)

“na sua mesma comicidade grotesca conota ainda algo terrível, cujo efeito corrói a alma, ensimesmada e abatida diante da pedra irremovível”. (idem: 71)

“a rigor, o poema se reduz, portanto, a uma situação narrativa básica – a do caminhante que se defronta com o obstáculo –, a situação essa que se converte no drama íntimo de quem se abate diante da barreira”. (idem: 72)

“a pedra está no início de tudo e também, no fim. Atingindo a sensibilidade do poeta, ela desencadeia uma reflexão, pois cria a aporia que esta no princípio de todo querer saber”. (idem: 72)

Drummond não está mais entre nós, não vive mais, para afirmar o que tinha no meio de seu caminho. A pedra de seu caminho se foi de vez, assim como o poeta, que imortal ficou nos versos, ingênuos, figurados, românticos, enigmáticos e profundos. Ele era quase uma unanimidade nacional, que achava que tinha uma pedra, que aos poucos foi sendo levada, de Itabira, de Minas, do Pará, do Brasil, de trem e de navio. Ela que, no alto-forno com carvão, sem o carbono virou aço, virou chapa, virou trem, virou navio, bicicleta, carro, moto, caminhão. Fez a guerra e os tanques, os canhões, as armas brancas e de fogo para tirar a alma de tantas vidas. Mas, não fez a estátua do poeta, lá no seu Posto Seis de Copacabana, onde de óculos, que os cegos têm quebrado, está sentado num banco de pedra e de costas ao mar, em ferro para eternizá-lo e evitar os vândalos, que, por merecido, tinham de levar ao menos uma boa pedrada!

*Jornalista, geólogo, ex-professor da USP – Universidade de São Paulo e da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais; ex-presidente da CPFL – Cia Paulista de Força e Luz.
E-mail: everaldogoncalves@uol.com.br

 

 

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