Ana Maria Primavesi, precursora da agroecologia no Brasil

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Produtores e cientistas falam sobre a importância da agrônoma para o desenvolvimento da agricultura orgânica, com trabalho focado na qualidade do solo

A senhora olha a terra na mão do sujeito, pega um pouco, avalia a textura e concorda, com um meneio de cabeça, que era, de fato, um bom solo. Um solo vivo.

Essa situação ocorreu em 2012 e está registrada em vídeo. Os personagens eram o maior produtor e exportador de açúcar orgânico do País, Leontino Balbo, do Grupo Balbo e criador da marca Native, e a senhora, na época com 91 anos, uma de suas inspirações na lida do campo: a engenheira agrônoma Ana Maria Primavesi, que faleceu em 5 de janeiro de 2020.

Assim como Leontino Balbo, que cultiva 20 mil hectares de cana-de-açúcar orgânica e certificada em Sertãozinho, na região de Ribeirão Preto (SP), Primavesi contribuiu com milhares de outros produtores rurais no sentido de buscar uma agricultura sem uso de defensivos e adubos químicos, e com base em muita observação e na interação entre planta e solo – que, no caso dos trópicos, deve ser vivo, ou seja, repleto de microrganismos que interagem com os minerais e vegetais, num fino equilíbrio.

“A base da agricultura tropical é a riqueza de microrganismos no solo, que, ao contrário dos solos de clima temperado, é pobre de nutrientes, mas rico em vida”, costumava ensinar a agrônoma. “Eles não são patógenos, são mobilizadores de nutrientes e a garantia de fertilidade”, arrematava. “Solo saudável, planta saudável, ser humano e animais saudáveis”, era outro de seus mantras.

Pode-se dizer, sem exagero, que, se alimentos orgânicos multiplicam-se hoje nas prateleiras dos supermercados, nas feiras livres, lojas de produtos naturais, deliveries e sacolões, essa engenheira agrônoma nascida na Áustria e radicada no Brasil por mais de 60 anos teve tudo a ver com isso.

Foi ela quem lançou as bases da agroecologia em solos tropicais, há 41 anos, ao publicar seu livro “Manejo ecológico do solo”, um manual que traduz a ciência da vida contida na terra para que o agricultor a aplique na prática e até hoje é livro de cabeceira para uma infinidade deles.

“É uma obra muito importante porque chama a atenção para alguns aspectos da agronomia e da agricultura que a ciência acadêmica convencional insistia, naquela época, em ignorar”, conta Leontino Balbo, que se formou em agronomia em 1984, na Unesp de Jaboticabal.

Sobre a visita de oito anos atrás aos canaviais da Usina São Francisco, em Sertãozinho (SP), Balbo lembra que Primavesi “não era de conversa fiada”. “Não estava nem aí se a elogiavam ou admiravam. Estava é preocupada se os seus conhecimentos estavam sendo aplicados ou não”, continua. “Eu provei a ela que sim e ainda disse que, para mim, essas práticas eram o futuro da agricultura.”

Ao citar vários outros pesquisadores que também foram importantes para seu trabalho de recuperação do solo, como Vladimir Vernadsky, Rudolf Steiner, Darwin, Goethe e Justus von Liebig, o produtor de cana orgânica diz que, “conceitualmente”, foi fundamentalmente inspirado por eles. “Mas, no campo prático, foi a Primavesi; meu exemplar de Manejo Ecológico do Solo está até desgastado de tanto que eu consulto.”

“Foi a primeira, e talvez única vez, que eu vi um livro de agricultura se tornar best seller”, confirma a pesquisadora especializada em ciência de solos Maria Leonor Lopes Assad, professora aposentada do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que participou da criação do programa de agroecologia da universidade.

A cientista acredita que o sucesso do livro, além da carência de informações sistematizadas sobre agroecologia tropical na época, ocorreu porque Ana Primavesi “foi a primeira a falar de uma forma aberta e simples e que muitos entendiam”. “Seu grande mérito foi apresentar de forma simples conhecimentos que são as aulas número 1, 2 e 3 de manejo e conservação do solo na academia.”

Leontino Balbo acrescenta que o trabalho de Ana Primavesi lhe chamou a atenção porque se baseia em quatro pilares: a importância da bioestrutura do solo, a interação radicular da planta com a vida animal do solo – “Eu usei muito isso no meu trabalho”, diz, falando sobre a importância da manutenção de matéria orgânica no solo e os benefícios dos adubos verdes, “que são muitos”.

Carreira

No meio acadêmico, além de ter se formado em 1942, com mestrado em Agronomia na Áustria, Ana Primavesi lecionou por 12 anos na Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, entre 1962 e 1974, onde também realizou pesquisas sobre biologia no solo, juntamente com seu marido, Artur, que fundou o Instituto de Solos e Culturas.

“Nas aulas nos assentamentos, ela não fazia questão de exibir conceitos complexos, a não ser que as pessoas pedissem”, lembra o agricultor e técnico agropecuário do Movimento Sem Terra (MST) José Maria Tardin, que também teve a oportunidade de promover cursos com Ana Primavesi na Escola Latino-Americana de Agroecologia, no Assentamento Contestado, no município paranaense de Lapa.

“Ela não tinha essa empáfia academicista, de falar termos rebuscados; mas se alguém porventura dissesse que queria entender mais conceitualmente, ela desenvolvia o pensamento”, continua. “Desde que começaram os grandes encontros de agroecologia, a partir dos anos 1990, ela não falhava em um.”

Nos contatos diretos com agricultores, Tardin conta que Ana Primavesi sempre recomendava “olhar o solo”. “Ela dizia que a gente tinha que ‘conversar’ com a terra, cheirar, sentir com as mãos, ficar atento à sua aparência, consistência, e, a partir daí, começar a entender o que se passa com o ambiente no entorno e as plantas”, lembra. “No caso das plantas, ensinava a observar as raízes, as folhas, para detectar o que poderia estar faltando de nutrientes; era sempre um ensinamento bastante prático e efetivo.”

E nunca se furtava a responder a qualquer pergunta, de um jeito “muito humano e sensível, o que atraía bastante as pessoas em torno dela”, afirma.

O também agrônomo e presidente do Instituto Brasil Orgânico (IBO), Rogério Dias, conta que quando Ana Primavesi lançou seu livro sobre manejo ecológico do solo “pouco se falava em perda de biodiversidade no país”. “Ouvíamos sobre ecologia nos meios urbanos, não no meio rural”, observa. “E a dra. Ana já falava disso.”

Como presidente do IBO, Dias conta que, atualmente, é clara a busca de vários produtores convencionais por métodos mais sustentáveis de produção. “São agricultores que percebem a ‘falência’ do pacote químico, em termos de gastos excessivos com insumos e também de problemas de saúde, além da percepção da maior consciência da população em relação à preservação ambiental.”

Ele comenta, porém, que, mesmo entre produtores interessados em fazer a transição agroecológica, há aqueles que querem um “pacote pronto”. “Infelizmente, ainda tem gente no movimento orgânico que está na lógica do ‘pacote’, que é como funciona a agricultura convencional, com o pacote adubo químico-sementes transgênicas-agrotóxicos”, lamenta. “Mas, quando eles percebem que têm de ter uma visão sistêmica, inevitavelmente se deparam com a Primavesi.”

Para Dias, que mantém um cultivo orgânico nos arredores de Brasília, “sempre foi claro” que, como Ana Primavesi preconizava, “tudo começa com o solo”. “O solo sempre foi minha obsessão; nunca pude ver um solo descoberto, exposto”, continua. “Isso é uma coisa que tem de ser trabalhada o tempo todo, para que o solo possa estar cada vez mais vivo, e hoje vejo resultados fantásticos.”

Sobre esse aspecto, um dos principais ensinamentos da agrônoma Primavesi era que uma planta necessita de pelo menos 45 tipos de nutrientes para crescer saudável e conseguir, paralelamente, criar defesas naturais contra pragas e doenças.

E a agricultura convencional trabalha com apenas três macronutrientes (nitrogênio, fósforo e potássio) e poucos micronutrientes, como zinco, cobre, ferro, manganês molibdênio, boro e cloro. Já na agroecologia e com um solo vivo, a riqueza de nutrientes garantida pelo solo nutre a planta – e, consequentemente, os seres humanos.

Dias avalia que, com todos esses ensinamentos, “cada dia mais atuais”, Ana Primavesi “influenciou gerações”. “Ela teve a capacidade de falar para várias gerações; seus ensinamentos não foram ficando para trás, pelo contrário. Cada vez mais estamos tendo provas científicas de que tudo aquilo que ela preconizava, as relações entre microrganismos no solo e a saúde das plantas, além da sustentabilidade dos cultivos, era verdade.”

Quanto à agricultura convencional, Dias acha que aos poucos “ela vai se render” a processos mais sustentáveis e que garantam a fertilidade de fato do solo. “Vários produtores estão se voltando a isso porque não têm mais para onde correr”, observa.

Na Embrapa Cerrados, em Brasília, por exemplo, uma tecnologia desenvolvida ali traria uma imensa satisfação a Ana Primavesi, acredita a pesquisadora Ieda Mendes, especializada em microbiologia do solo.

“Nós desenvolvemos uma análise alternativa da qualidade do solo, que mede o nível de vida por meio de duas enzimas”, explica ela, acrescentando que a análise convencional de solo baseia-se apenas na sua composição química, e não biológica.

“É uma visão que não vai muito além do excesso ou deficiência de nutrientes”, comenta, adicionando que a bioanálise do solo vai de encontro com o que Ana Primavesi pregava, de se observar a importância da vida microbiológica como condicionante da fertilidade.

“É uma pena que a dra. Ana não esteja mais aqui para ver esse tipo de análise sistematizada, que virou realidade”, diz Ieda. “Agora podemos oferecer aos agricultores, em maior escala, tudo o que ela ensinava e fazia empiricamente.” A pesquisadora explica que, com a ferramenta, é possível constatar a “saúde” do solo. “Seria uma honra apresentar a tecnologia para ela.”

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