Agronegócios e escravidão – resistências ao discurso de sustentabilidade

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Por José Rodrigues Filho*

[EcoDebate] As pesquisas estão mostrando que a escravidão no Brasil atrasou o processo de industrialização, mas é preciso mostrar o que está acontecendo com o agronegócio brasileiro que, ao invés de acelerar a industrialização e desenvolvimento sustentável, fortaleceu uma base agrícola de dois blocos: um bloco elitista e conservador nas mãos de poucos, detentores de todos os privilégios, em detrimento do bloco de produtores marginalizados do progresso, incapazes de prosperar e gerar renda.

Como resultado, tem-se o enriquecimento cada vez maior de uma pequena elite, aumentando as desigualdades e encarecendo os alimentos no país. Esta divisão se mostra alarmante quando se percebe que pouco mais de 10% dos estabelecimentos rurais são responsáveis por quase 90% da produção agropecuária.

Assim sendo, temos o bloco de acumulação de riquezas e outro com muitos estabelecimentos de baixa produtividade e produção, que se convencionou chamar de socialização da pobreza da agricultura familiar.

A falta de uma reforma agrária levou o setor agropecuário a uma modernização conservadora perversa, reprodutora de desigualdades, escravidão, culminando com estes dois blocos antagônicos, que impedem a industrialização do país.

Considerando que o agronegócio envolve uma cadeia de diferentes atividades, incluindo a agroindústria, é preciso estudar mais profundamente este setor, cujas atividades podem estar dimensionadas no setor industrial. Acredita-se que com o avanço das tecnologias e mercado, seja possível encarar a sustentabilidade no setor da agroindústria, embora não exista provas sobre isto.

O setor do agronegócio brasileiro tenta usar o seu discurso de sustentabilidade e marketing sustentável, mas o que se observa é que a medida que aumentam as pesquisas em várias áreas, a péssima reputação das empresas e degradação ambiental tornam-se evidentes.

Além desta desigualdade gritante do setor, estamos acompanhando a expansão de agrotóxicos, queimadas e degradação ambiental no Brasil, mostrando que é impossível o setor agropecuário brasileiro atender aos pilares básicos da sustentabilidade, ou seja, a sustentabilidade social e ambiental. Pior do que isto, ainda se tem registros de milhares de trabalhadores sendo submetido à escravidão e trabalho forçado.

A noção de sustentabilidade corporativa está surgindo, tentando conectar os três pilares de desenvolvimento sustentável – econômico, social e ambiental, embora se perceba a falta de integração de sustentabilidade na governança corporativa, que vai exigir muitos esforços. Do ponto de vista teórico esta integração vem sendo discutida, mas do ponto de vista prático este objetivo não foi ainda realizado.

O grande problema com a sustentabilidade corporativa é o seu enfoque estreito e simplista, formulado em torno de uma sustentabilidade fraca, que significa a continuação de se ganhar dinheiro mantendo os negócios como sempre. Neste sentido, tenta-se reforçar uma poderosa metáfora de sustentabilidade, na suposição de que estas corporações estão agindo dentro dos princípios de sustentabilidade.

Não é verdade, mas a metáfora é usada rotineiramente no discurso do agronegócio. Estudo em grandes empresas brasileiras evidenciou que elas não usam a sustentabilidade e nem estão interessadas em usá-la, mas enganosamente usam a metáfora de sustentabilidade fraca.

Neste sentido, nestas empresas a ambiguidade estratégica de sustentabilidade é de tal forma que o termo sustentabilidade não tem nenhum sentido, além de assegurar boa lucratividade.
Por fim, sustentabilidade não se apresenta como um dilema ou problema para estas empresas, uma vez que, na visão delas, já alcançaram a sustentabilidade. Felizmente, algumas empresas no mundo já estão se enquadrando em enfoques que permitem um futuro sustentável, fugindo da visão puramente econômica.

Para se discutir sustentabilidade no setor do agronegócio é necessário mudanças profundas e inovações, a partir de políticas que busquem uma integração de todas suas atividades com outros setores da economia.

Por fim, no atual modelo de agronegócio, a agricultura familiar e a reforma agrária não são contempladas e a terra é apropriada para produzir e exportar, visando acumulação de capital e desigualdades.

Como já foi dito, enquanto não se resolver problemas relacionados com a barbárie do capital financeiro na agricultura, a violência no campo, a expropriação e a reforma agrária não se pode pensar em sustentabilidade de agronegócio no Brasil.

*Jose Rodrigues Filho é professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard. Recentemente foi professor visitante na McMaster University, Canadá. https://jrodriguesfilho.blogspot.com/

No destaque, a Polícia Federal liberta trabalhadores vivendo em condições análogas à escravidão (Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil)

 

 

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