A participação dos judeus e cristãos-novos na criação e colonização do Sul do Brasil

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2ª parte

Por Mauro Andrade Moura 

Guerra de famílias e a expulsão dos jesuítas de São Paulo

Passado um século, e após as campanhas de busca de índios no Guairá pelos primeiros colonizadores de São Paulo, principalmente as capitaneadas pelo sertanista e cristão-novo Antônio Raposo Tavares, estoura a primeira guerra civil na colônia brasileira. Eram os Pires contra os Camargos, cada lado formava um clã familiar e as idas e vindas dessa guerra duraram perto de duas décadas, bem ao estilo medieval.

Óleo sobre tela: Oscar Pereira da Silva – 1931 – Aclamação de Amador Bueno. No destaque, capela de Nossa Senhora do Rosário, iniciada em 1628, atual Museu de Embu das Artes (Foto: Mauro Moura)

Os Pires, sempre incomodados pelos castelhanos Camargos, apesar das ligações familiares, por terem ascendência judia, se mantiveram firmes na criação do Brasil, tendo um dos seus filhos, findado o período Filipino em 1640, o Amador Bueno de Ribeira, como o aclamado do reino brasileiro, também ele meio espanhol, declinou da aclamação se mostrando um grande súdito português na recriação do império português.

Interessante notar que nessa luta de clãs, apoiavam-se os sevilhanos Camargos com os Buenos contra os portugueses Pires, mesmo sendo os Buenos netos dos Pires.

O início das desavenças

“Alberto Pires, filho de Salvador Pires II e Inês Monteiro de Alvarenga, a Matrona, casou-se em S. Paulo com Leonor de Camargo Cabral, f.a de Estevão Gomes Cabral e de Gabriela Ortiz de Camargo. À respeito escreveu Pedro Taques o seguinte: “Deste matrimônio não teve (Alberto Pires) fruto algum pela fatalidade que expomos. Foi Alberto Pires extremosamente amante de sua mulher. Em um dos dias de carnes tolendas, como chamam em Castela, e de entrudo, no Brasil, quando Alberto Pires estava em brinquedos que o inveterado costume destes dias introduziu sem desculpa na maior parte dos reinos da Europa, sucedeu receber Leonor de Camargo Cabral do próprio marido uma limitada pancada na fronte da parte esquerda, e caiu no mesmo instante morta. Esta casualidade não teve testemunhas de vista que acreditassem na inocência do sucesso para ficar o marido livre da suspeita de homicida. Era Alberto Pires por natureza rústico (porque nele não lavrou o buril da discrição de seus pais com a polícia em que criaram os filhos, civilizando-os com a doutrina das escolas dos pátios do colégio dos jesuítas de S. Paulo), e com o repente da desgraça acontecida, destituído de prudencial discurso, se encheu de funestas imagens, mais filhas da ignorância que do temor, (se é que no mesmo ínterim se não deixou penetrar de diabólicas sugestões), e concebeu executar uma barbaridade para desmentir uma suspeita, sem o demover de tão maligno intento o acordo de que na execução dele, primeiro maculava a própria honra, do que libertava a sua inocência. Para cumprir a funesta ideia que tinha concebido fingiu um convite simulado. Mandou chamar Antônio Pedroso de Barros seu cunhado (irmão de Fernão Paes de Barros e de Pedro Vaz de Barros e outros da principal nobreza das famílias de S. Paulo) para que viesse entrudar; e, como é costume juntarem-se os parentes em uma casa, onde são banqueteados, se persuadiu que o convidado não faltava a essa rogativa, ainda quando não era distante o lugar de uma a outra casa. Fez Alberto Pires espera ao cunhado Antônio Pedroso em lugar oculto à entrada da fazenda, e emparelhando com o sítio da cilada lhe fez tiro com um bacamarte que o tinha preparado (com balas) para lhe não errar fogo e para conseguir efetuar tão atroz insulto, e o matou. Conseguida esta bárbara tirania, juntou a este cadáver o de sua mulher Leonor Cabral no mesmo sítio onde executara o infame delito. Mandou logo chamar seus parentes à toda a pressa e aceleração, e acudindo muitos, a estes publicou que em desagravo de sua honra, matara os adúlteros que lhe ofendiam a pureza do tálamo sacramental, cujos corpos estavam no mesmo lugar onde tinham cometido a torpeza. Sem preceder o mínimo acordo de reflexão se arrebataram os ânimos enfurecidos dos parentes do agressor Alberto Pires que lhe aplaudiram a insolência, como ação briosa, com que lavava a mancha de sua desonra no próprio sangue daqueles adúlteros. Porém a Divina Providência quis que a inocência não ficasse manchada, e se veio a descobrir a realidade do acontecido sucesso de Leonor Cabral, brincando com seu marido, e a sugestão, que nele produzira tanto desacordo. Então os irmãos dos mortos em numeroso corpo de armas (cada partido solicitava o despique pela dor que lhe ocupava) procuraram também lavar a ofensa da sua mágoa no mesmo sangue do autor dela, tirando-lhe a vida à ferro frio. A matrona D. Inês (já viúva), persuadida de seu grande respeito, se capacitou que segurava a vida de Alberto Pires, seu filho, recolhendo-o a sua casa e proteção; e com este conceito ficou a sua casa sendo sacrário, onde se julgava seguro, e bem oculto o insolente réu, a quem os magoados e ofendidos da família dos Camargos e da família dos Pedrosos Barros protestavam beber-lhe o sangue ou pelos fios do ferro ou pelas bocas das espingardas. Este vingativo e tumultuoso corpo, tendo certeza de que Alberto Pires se homiziava nas casas da fazenda de sua mãe Inês Monteiro, no silêncio da noite encaminharam (pág. 126) a sua diligencia para este sítio, e quebrando os foros do respeito desta matrona, lhe puseram a casa em cerco;” in Genealogia Paulistana, Tomo II.

Prosseguindo os tempos e mantida a disputa entre os clãs familiares, passou para o interesse político de qual partido seria o mandante da vila de São Paulo. E, após eleição, tendo perdido a campanha os Camargos para os Pires, aqueles não aceitaram e forçaram a manutenção da governança, sendo retaliados pelos oponentes.

Nos informa Silva Leme em sua Genealogia Paulistana:

“O Capitão Fernão de Camargo, o Tigre de alcunha, ocupou o cargo de juiz ordinário em S. Paulo (o encontramos nesse cargo em 1653) e estava já casado em 1630, quando faleceu sua mãe, com Mariana do Prado, filha do espanhol João de Santa Maria, natural de Castela (que veio ao Brasil como secretário de D. Francisco de Sousa) e de Filipa do Prado (Tit. Lemes Cap. 1.º § 9.º). Com seu irmão José Ortiz de Camargo foi o capitão Fernão de Camargo o chefe do partido dos Camargos, que levantou-se contra o dos Pires, capitaneado por João Pires e seu genro Francisco Nunes de Siqueira (o Redentor da pátria (Tit. Pires Cap. 10.º). O autor da Nobiliarquia Paulistana Pedro Taques de Almeida acusa a Fernão de Camargo como assassino (a falsa fé) de Pedro Taques no largo da Sé (então igreja matriz de S. Paulo) em 1641. Vide o que a respeito deste crime escrevemos em Tit. Taques Cap. 1.º. Ali mostra-se que, se realmente foi Fernão de Camargo o executor do crime, é este em parte atenuado porque foi o resultado de uma conspiração. Não descobrimos a data do falecimento, nem o inventário do capitão Fernão de Camargo; porém de diversos documentos descobrimos os 14 seguintes filhos”

Nessas ligações familiares, podemos citar alguns personagens e sertanistas da época:

Estátua em homenagem ao sertanista Antônio Raposo Tavares na cidade de Beja – Portugal

Do lado dos Pires, além de João Pires, o velho, cunhado da “Matrona”, foram apoiadores deles o Fernão Dias Pais Leme, Rodrigues Velho, Lourenço Castanho, Inês Monteiro de Alvarenga a “Matrona” (viúva do Salvador Pires II) e Nunes de Siqueira dentre outros;

Do Lado dos Camargos, sendo os propriamente ditos Camargos, El Tigre e o irmão José Ortiz Camargo, Sanches de Aguilar, Barbosa Calheiros, Correia soares, Buenos (como dito também eram Pires) e muitos outros da vila de São Paulo.

Tratado de paz entre os Pires e os Camargos no ano de 1660, parte:

“e logo pelos ditos Capitaens Fernão Dias Paes e José Ortiz de Camargo e Henrique da Cunha Gago foi dito que eles por si e me nome de suas famílias e parentes amigos e aliados, presentes e ausentes, se obrigavão por suas pessoas a estar por todo o conteúdo e declarado neste auto; e de agora, nem em tempo algum, hirem contra ele, em todo ou em parte. Antes como leaes vassalos de Sua Magestade tratarem da firmeza e estabilidade da paz e união que desde hoje em diante prometem guardar e observar entre si.”

E, no decorrer destes tempos da criação de São Paulo, temos a notícia da expulsão dos jesuítas daquela província em 1640, ação esta promovida por El Tigre e por muitos outros paulistanos interessados em se verem livres dos mandos dos jesuítas.”

Seguia São Paulo em tempos bicudos, os jesuítas pressionando para que os sertanistas não trouxessem mais os índios, os silvícolas, de outras regiões como escravos e também estes sertanistas que andavam no fio da navalha por serem estes mesmos jesuítas os delegados da inquisição em terras portuguesas.

Na vila de São Paulo, as ações contra os padres inacianos foram mais intensas e extremas. Os representantes das Câmaras Municipais de São Paulo reuniram-se para discutir o assunto e, sob forte pressão dos principais moradores da vila de São Paulo, em 2 de julho de 1640, a Câmara intimou o reitor dos jesuítas, padre Nicolau Botelho, a que ele e os religiosos de sua ordem se recolhessem ao colégio do Rio de Janeiro, dando-lhes seis dias de prazo para o cumprimento dessa determinação.

Actas da Câmara da Cidade de São Paulo de 1640-1652, Vol. 5, Typographia Piratininga, 1915. p. 25-26.

João Pires, o Velho, e Fernão Dias Paes Lemes eram apoiadores dos jesuítas. Bem sabemos e ter notícias do lado sefaradita dos Pires e o próprio tio do Fernão Dias, seu homônimo, que era taxado de cristão-novo, sendo a mulher do descobridor das tão sonhadas esmeraldas, a Maria Betting, também cristã-nova.

Pedro Ortiz de Camargo, f.o do Cap. Fernão Camargo – El Tigre, faleceu em 1698, no cargo de juiz ordinário, assassinado pelo Tenente-general Gaspar de Godoy Collaço, por causa das insolências que aquele praticava no exercício de seu cargo. Foi Pedro Ortiz potentado pelo domínio que tinha sobre um grande número de índios armados, os quais tinha conquistado no sertão.

Genealogia Paulistana, Tomo I 

“Em 1 de junho de 1698 o governador Artur de Sá e Menezes escreve ao rei D. Pedro II de Portugal sobre a aitação em que encontrou São Paulo: «Chegado que fui a São Paulo, achei morto ao sobredirot Pedro Ortiz de Camargo, servindo nesse mesmo tempo de juiz ordinário; violentamente o mataram com um seu mesmo bacamarte, ao meio dia, e foi coisa prodigiosa, porque o matador é um dos nossos melhores homens que há naquelas capitanias, tanto pelo seu modo d vida como por ser muito observante de todos os preceitos e ordens de Sua Majestade, estranhando sempre o não se lhe dar aquela devida execução que merecem com que parece que foi divina providência que o melhor homem matasse ao mais tirano e inobediente vassalo. E como lhe faltara o castigo que por tantos títulos merecia, quis Deus que pagasse a enormidade de seus delitos, porque depois de lhe atirarem, foi dando mais de cem passos com o coração passado por duas balas e foi cair ao pé do pelourinho, aonde merecia ser justiçado, porque tinha feito quatro mortes violentas, fora muitos mais crimes de latrocínio e violências que não tem número E achando estas famílias em forma de se darem batalha, mediei este negocio de sorte que ficou tudo sossegado, retirando-se o matador para outra vila.”

Gaspar de Godoy Colaço, com ligação aos Pires, foi mandado em forma de castigo pelo governador Artur de Sá e Meneses para o sertão da Vacaria. Sendo este cristão-novo tanto pelo lado paterno dos Godoy Moreira como da mãe Pires da Motta, além de grande descendência na região do Quadrilátero Ferrífero, incluindo Itabira/Nova Era/Rio Piracicaba – MG, bem como todos os demais nominados aqui. 

Demais livros e teses consultados:

-Lutas de Famílias no Brasil, do autor Luiz de Aguiar Costa Pinto;

-História da Capitania de São Vicente, de Pedro Taques de Almeida Paes Leme;

-Dicionário de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil, de Francisco de Assis Carvalho Franco;

-Tribulações do Povo de Israel, tese de doutorado do Prof. Marcelo Meira Amaral Bogaciovas;

https://escravidaoindigena.wordpress.com/relacao-entre-jesuitas-e-paulistas/;

-Nobiliarquia Paulistana, de Pedro Taques de Almeida;

-Genealogia Paulistana, de Luiz Gonzaga da Silva Leme; e

-Wikipédia.

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2 Comentários

  1. Ângela Maria Ferreira Parma on

    Bom dia.
    Sempre aprendo muito com suas leituras. Obrigado.
    Você tem alguma coisa relacionada à Guerra do Paraguai?
    Abraços.
    Ângela

    • Mauro Andrade Moura on

      Bom dia, Ângela.

      Por acaso eu tinha um livro muito interessante, porém deixei-o para reencardenar, o rapaz faleceu, e não consegui mais o livro.
      A única coisa que posso afirmar desse livro, podemos chegar à conclusão que o Conde D´Eu era realmente foi um psicopata.

      Grato pela leitura,
      Mauro

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