A falta que o poeta faz a Itabira do Mato Dentro

WhatsApp Pinterest LinkedIn +

Pela primeira vez em sua história, a Câmara Municipal de Itabira terá uma agenda só para celebrar a vida e a obra do filho mais ilustre de Itabira, o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Vereador Paulo Soares quer ver a Câmara debatendo a obra de Drummond e incrementar o turismo cultural (Fotos: Carlos Cruz, acervo de O Cometa e Google)

A agenda constará de palestras e intervenções culturais, a maior parte nas terças-feiras, durante as sessões ordinárias, para lembrar os “30 anos sem Drummond”, nome que foi dado ao projeto aprovado pelo legislativo, de autoria do vereador Paulo Soares (PRB), presidente do Sindicato Metabase.

As homenagens ao poeta no legislativo itabirano se estenderão entre o mês de agosto, quando ocorreu o seu falecimento, no dia 17, aos 84 anos de “infarto fulminante”, do modo como ele manifestou desejar a sua morte, até o dia 31 de outubro, data de seu nascimento, em 1902.

Drummond em seu apartamento , no Rio de Janeiro

“Drummond é eterno, mas infelizmente muita gente ainda não o conhece em Itabira. Eu mesmo só fui conhecer (a sua obra) quando tinha 35 anos de idade”, confessou o vereador sindicalista.

“Ele (o poeta) é referência em nossa cidade. Resgatar o personagem histórico e a sua obra literária é de grande importância para Itabira, inclusive para o seu desenvolvimento”, defende Paulo Soares, que vê também, dessa forma, uma maneira de incentivar o turismo literário em Itabira.

A proposta do vereador não é novidade e tem sido debatida à exaustão, sem trocadilho com o fim da mineração, que vive o seu crepúsculo no município. Isso mesmo tendo pela frente todo o ciclo do itabirito compacto, além da possibilidade de processar o minério de outras minas. Nesse contexto, o turismo cultural é sempre apontado como uma das alternativas à mineração.

Abandono

Mas, de fato e não de ficção, o que tem sido feito para que isso ocorra? Pouco, quase nada. “Precisamos despertar o interesse pela sua obra e revitalizar os monumentos que temos na cidade em sua homenagem. Fomos abençoados por ter o minério de ferro e também pelo fato de aqui ter nascido um dos maiores poetas da língua portuguesa”, salientou o vereador.

Casa de Drummond: muito espaço para pouco acervo

Não será uma tarefa fácil, dado o estado de abandono em que se encontram os diversos marcos drummondianos, edificados para celebrar o menino antigo e as referências literárias que fazem menção à sua cidade natal.

Os Caminhos Drummondianos, por exemplo, um museu de território, precisa ser revitalizado não só com a substituição das placas que estão deterioradas e que foram confeccionadas em material  (ferro fundido) inadequado à proposta. Em muitas, a simples leitura dos poemas torna-se tarefa difícil. Isso sem contar o matagal em volta de grande parte, além da sujeira com a disposição de lixos por incultos moradores.

Escultura de Drummond em frente ao Centro Cultural: obra de arte de Genin

O Memorial Drummond, obra do ex-prefeito Jackson Tavares (PT), que acatou proposta cultural do engenheiro Altamir Barros e projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer, dispõe de um acervo pobre e pouco representativo da obra literária e da infância do poeta em Itabira.

No quase abandono também se encontra a Casa de Drummond, onde o poeta passou a infância. No ostracismo está também a reconstruída Casa do Pontal, entregue à comunidade pela Vale em 2004 e que até hoje os sucessivos gestores da política cultural não descobriram o que fazer com esse patrimônio.

Drummonzinhas na Câmara Municipal declamam poemas

A réplica da Fazenda do Pontal permanece apenas como um arremedo daquilo que foi um dia a histórica fazenda da infância do menino antigo – com raros shows e atividades culturais esparsas acontecendo no local. A obra não passa de um patrimônio que se tornou histórico, edificada e transformada em um belo local, mas sem o conteúdo cultural que a sua reminiscência evoca.

Críticas

Já na obra literária do poeta não faltam evocações críticas e de exaltação à terra natal. Basta garimpar para que sejam encontradas profundas reflexões, como em Vila de Utopia, ou em muitos outros poemas, podendo citar ainda O maior trem do mundo e Lira itabirana, ambos publicados originalmente em 1984 no jornal O Cometa.

O poeta criticou a mineração pela má distribuição de tributos e agressão ao meio ambiente

Drummond escreveu esses dois poemas como forma de contribuir com a realização de um Encontro Nacional de Cidades Mineradoras, em agosto de 1984, em Itabira. Em um primeiro momento, quando foi solicitado a divulgar o encontro, o poeta se negou a contribuir, alegando que não mais acreditava na palavra dos homens públicos de Itabira.

Poucos dias depois, ele enviou os dois poemas, um grito de dor e desesperança. Isso depois de ver a montanha pulverizada sem grandes ganhos para a cidade, uma vez que os tributos eram escassos e a derrota se anunciava incomparável – e irremediável, enquanto os itabiranos cruzam os braços e veem a vida passar devagar em Itabira do Mato Dentro.

Como o vereador Paulo Soares, que conheceu a obra do poeta tardiamente, há ainda muitos em Itabira que não a conhecem – e têm o hábito de falar mal do poeta, provincianamente. É comum ouvir na cidade que Drummond não ligava para Itabira, que para ele não passava de uma fotografia na parede de seu apartamento, no Rio. Muitos achavam, como ainda acham, que o poeta “esnobava” a sua terra natal.

Não é verdade. O poeta simplesmente decidiu manter viva em sua “retina fatigada” a imagem de sua Itabira antiga, de quando ele a deixou, com seus poucos mais de 4 mil habitantes, ainda na adolescência, em 1915, para estudar em Nova Friburgo (RJ), depois no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte.

Drummond ainda jovem retornou algumas vezes a Itabira e criticou a letargia do itabirano

Seu retorno a Itabira só ocorreu em 1926, já casado com Dolores Dutra de Moraes, para lecionar Geografia e Português no antigo Ginásio Sul-Americano.

A sua experiência como professor durou pouco tempo, mudando-se de vez de sua cidade natal, retornando para Belo Horizonte – e depois para o Rio de Janeiro, em definitivo.

Seu último retorno a Itabira se deu em 1954, quando esteve na cidade para cuidar do traslado do corpo de sua mãe, Julieta Augusta Drummond de Andrade. Essa passagem rápida por Itabira acabou por reforçar ainda mais a ideia de que o poeta renegou a sua cidade natal.

Defesa

Drummond, mesmo se sentindo mal compreendido pelos seus conterrâneos, nunca deixou de defender os direitos de Itabira. Manifestou-se, por diversas vezes, a sua indignação pelo que veio ocorrer a partir de 1942, com o advento da mineração em larga escala, com a consequente supressão da vegetação e extração predatória do minério no pico do Cauê – e depois na mina Conceição e na serra do Esmeril.

O Menino Antigo (Foto de Brás Martins)

Para o poeta, esse processo acelerado, degradante e muitas vezes desumano de exploração mineral, contava com a silenciosa cumplicidade e conivência dos itabiranos. “Penso, às vezes, cruamente, que os itabiranos venderam a alma para a Companhia Vale do Rio Doce”, escreveu.

Hoje a grande maioria dos moradores de Itabira é constituída por aqueles que no tempo de Drummond eram chamados de “adventícios”, chegados de fora, estrangeiros na cidade. São trabalhadores e comerciantes atraídos pela mineração no afã de aqui enriquecer sem criar raízes, para depois retornar à sua cidade de origem, como é comum na cultura garimpeira.

E para muitos desses moradores, o poeta só ficou de fato conhecido quando o seu retrato foi estampado na nota de NCz$ 50,00, moeda brasileira que prevaleceu de 1989 a 1990. Na ocasião, houve um corte de três zeros, tamanha era a inflação no período. Desvalorizada, a nota acabou chegando às mãos dos assalariados, tornando pelo menos a foto do poeta mais conhecida.

Nota com a efígie de Drummond na nota NCR$ 50: popularização efêmera

Portanto, se os vereadores querem mesmo que o poeta se torne conhecido e entendido em sua terra natal, divulguem mais a sua obra. Não apenas as crônicas e poemas que tratam de sua infância mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Mas também, e principalmente, as que apresentam uma visão crítica da letargia do itabirano e da exploração da mineração – e os impactos que provoca ao meio ambiente e à vida de seus conterrâneos. Sem isso, é despolitizar o poeta e a sua obra rica em literatura e em conteúdo.

Compartilhe.

Sobre o Autor

8 Comentários

  1. Aguilay Silveira on

    Fazer a cidade respirar poesia e cultura é uma bela atitude e um bom começo para tratar Drummond como atrativo turístico. Penso que é preciso fazer melhor o dever de casa e arrumar a casa.

  2. Precisamos preparar a cidade a altura do poeta. Preparando o Museu de Território Caminhos Drummondianos, prepara-se tudo, pois o Memorial, A Casa de Drummond, O Museu de Itabira e etc, fazem parte do único Museu de Território do Mundo que dialoga com a poesia.

  3. Aguilay Silveira on

    Incluindo arrumar a casa, a estátua do poeta que está em frente ao Centro Cultural, casa que leva seu nome, está míope, à muito os seus óculos foram roubados.
    Outra ponto importante numa terra de poeta é a biblioteca municipal, que precisa de um olhar mais cuidadoso. Falta a obra completa do poeta.

    • Parabéns pela matéria e pelas observações sobre as necessárias melhorias físicas e valorizações dos patrimônios municipais, assim como do (re)conhecimento do poeta, e o despertar de sua obra à população! Paira uma falta de vigor, entusiasmo, principalmente de contemporaneidade, ao se tratar de Drummond e da disseminação de sua obra ainda, na cidade…sinto eu.

  4. cristinica de cervantes on

    chocante neste artigo é o fato do presidente do metabase ser filiado ao PRB! é brincadeira! é piada né não? ou é mesmo mais uma vergonha nacional. cadê o bita, o negão? … isso é uma desonra pra classe trabalhadora; deve ser pelego de casca grossa, é pior do ser do solidariedade do paulinho sem FORÇA ou do Bunda Canalha do gervásio.

  5. Mauro Andrade Moura on

    Interessante saber ainda, que todo o cuidado que o nosso Poeta tinha com a língua mater.
    Mesmo assim os curadores das placas enferrujadas insistiram em não passar os poemas aos cuidados de um linquista a fim de evitar os erros de ortografias que ainda persistem das antigas para as atuais placas dos Caminhos Drummondianos.

  6. Mauro Andrade Moura on

    Resta ainda saber se os R$200 mil que foram liberados pelo Fundo Estadual de Cultura para a reforma do combalido Memorial Drummond ainda estão disponíveis ou foram obrigatoriamente devolvidos à Secretaria de Estado de Cultura por falta da devida utilização?

  7. Pingback: Marcos Borges interpreta Drummond na Câmara Municipal

Deixe um comentário