Workshop promovido pela Acita não teve o brilho do minério e nem debateu o seu fim iminente

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Carlos Cruz

Pode-se dizer que foi até mais ou menos animada a festa de encerramento da sexta edição do Workshop Itabirano de Negócios (WIN) – Caminhos para a Diversificação Econômica, evento realizado no parque de exposições, nos dias 29 a 31 do mês passado, promovido pela Associação Comercial Industrial de Serviços e Agropecuária de Itabira (Acita), com patrocínio da Prefeitura e da Vale.

No WIN teve mostra da “indústria criativa”, mas faltou a presença de outros segmentos (Fotos: Carlos Cruz, Mauro Moura e Divulgação)

Essa relativa animação ocorreu com a noite da Paiada, quando se conheceram os vencedores da 13ª edição do Circuito do Sabor.

O festival gastronômico ocorreu no mês de julho, mas só agora teve os nomes dos vencedores divulgados.

E, também, foi até animado o show solo do cantor e compositor Arnaldo Brandão, veterano vocalista e dono da banda Hanói-Hanói.

Os elogios param aqui. A expectativa era de que essa edição do WIN se tornasse um grande fórum do ano para debater a atual conjuntura que o município vive com a anunciada exaustão de suas minas por volta de 2028.

Arnaldo Brandão, da banda Hanói-Hanói fez show solo no encerramento do WIN (Foto: Divulgação)

Nada, ou quase nada, se falou sobre a necessidade de dar início ao processo do descomissionamento das minas de Itabira, etapa importantíssima para se saber como será o enceramento.

Como também nada foi dito sobre as possíveis medidas compensatórias que o município legalmente pode usufruir quando o fim ocorrer.

Trata-se de um debate que deve envolver todos os segmentos sociais. E que precisa, inclusive, passar por uma longa e intensa discussão regional.

Para esse fórum de debates, que não houve no workshop da Acita, deveriam ter sido convidadas lideranças políticas, econômicas e sociais de cidades vizinhas (Mariana, Ouro Preto, Catas Altas, Santa Bárbara, Barão de Cocais, Rio Piracicaba).

Afinal, todas vivem, em maior ou menor intensidade, a iminência do fim da mineração. Ou que a exaustão mineral já tenha ocorrido em algumas delas.

A Acita perdeu a oportunidade de se tornar protagonista, como foi no início da década de 1990 quando lançou o projeto Itabira 2025, com o qual o município iria diversificar a sua economia e se tornar independente da mineração. Hora de fazer um balanço do que se fez – e, sobretudo, do que se deixou de fazer durante todo esse tempo.

Ausências

Artesãs do distrito Senhora do Carmo: alternativas

É fato, e devo ser criticado por dizer isso, que o WIN desbotou, perdeu o brilho que chegou a desfrutar nas primeiras edições.

A programação foi pífia e a ausência das principais autoridades municipais foi notada já na abertura.

Não compareceu o prefeito Ronaldo Magalhães (PTB). O gerente da Vale, Rodrigo Chaves, também não apareceu.

Neidson Freitas (PP), presidente da Câmara, foi outra autoridade ausente. E até o secretário de Desenvolvimento Econômico do município, José Don Carlos, também não deu o ar da graça na noite de abertura.

Projetos

Já nos estandes pulularam os agentes imobiliários tentando convencer os parcos consumidores de alta renda a investir em seus empreendimentos residenciais e comerciais.

As novas faculdades que aqui se instalam, além da Funcesi e da Unifei, também se apresentaram. São muitas – e com elas até parece que Itabira está se transformando em centro universitário.

Mas com a crise instalada no país, com o esvaziamento do Pró-Uni e do Fies, haverá alunos na cidade e na região para tantas ofertas?

A conferir, torcendo para que dê certo o projeto universitário que se arrasta pelo menos desde a década de 1970 do século passado, quando Itabira “dividiu” com Itaúna o título de Cidade Educativa.

Coral da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade

Para se ver como a cidade do poeta anda mesmo devagar, compare as duas cidades em termos de qualidade do ensino (básico e superior) – e tire suas conclusões.

Mas como nunca é tarde para se começar, que Itabira enfim prospere como Cidade Universitária.

Nos estandes do WIN a predominância foi do comércio varejista, de perfumaria, salão de beleza, eletrodomésticos e revendas de automóveis.

A Unifei até que apresentou o protótipo de um carro elétrico desenvolvido por alunos e professores do campus de Itabira. Já as startups são ideias incipientes que podem dar certo – ou não.

“A área de novas tecnologias estava mais para feira de ciências de 2º grau”, comentou um crítico visitante. Pouco se viu da “pujante” nova indústria itabirana, ainda que insistam no turismo e na prestação de serviços culturais como sendo indústria criativa.

Mais ausências

O segmento mais importante do Distrito Industrial e que mais emprega, o metalmecânico, embora seja altamente dependente da mineração, não esteve presente na mostra de como anda a economia local.

Não se fizeram presentes também os fabricantes de cervejas artesanais. Talvez, nesse caso, tenha sido por esse segmento ainda estar se organizando e legalizando a produção.

De positivo registra-se a criação da Central de Compras para os sitiantes e fazendeiros, liderada pelo Sindicato Rural, como forma de baratear os custos da produção agropecuária no município.

Ainda para a agroindústria foi apresentada a proposta de “integração lucrativa de florestas, culturas agrícolas e animais”. Pode até parecer novidade, mas não é.

Na década de 1990, a própria Vale chegou a incentivar essa produção agroflorestal consorciada com a pecuária – e que, como quase tudo que se incentiva no município, não foi para frente.

“O meu para-brisa é maior que o retrovisor”, diz Eugênio Müller

Eugênio Müller, presidente da Acita

Para Eugênio Müller, presidente da Acita e a segunda maior liderança municipal presente na abertura do WIN, Itabira caminha firme e forte rumo à diversificação econômica.

“O minério acaba, mas a cidade não vai acabar. Juntamente com mais de 70 entidades, numa união regional, encontraremos esse futuro”, disse ele, otimista, na solenidade abertura do WIN.

Müller disse que o importante é o tempo presente, não se devendo apegar ao passado.

“O meu para-brisa é muito maior que o retrovisor”, disse ele, advogando que ficar revirando o passado em busca de irregularidades no gasto dos recursos do Fundesi, por exemplo, pode não ser um bom caminho.

Já o representante da Vale, André Fernandes, gerente de Manutenção da usina Conceição, nada disse sobre o fim próximo do minério. Mas reafirmou o compromisso da empresa com a cidade onde a mineração nasceu e a empresa cresceu até virar uma multinacional.

André Fernandes, representante da Vale

“A Vale continua atuante e parceira, como parte do problema e da solução”, disse ele. “Vamos participar do grupo criado pelo prefeito para detalhar as ações para a diversificação econômica do município.”

Dalma Barcelos, vice-prefeita, representando o prefeito, também insistiu na tese de que a tão almejada diversificação econômica já está acontecendo.

“Já somos polo em educação”, exagerou, ainda que se aceite que a cidade é polo microrregional (Itambé, Santa Maria, Ferros, Santo Antônio, Passabém, São Sebastião) no segmento de ensino superior.

Novo perfil econômico

Eugênio Müller considera que o iminente fim do minério não é para se exasperar, pois a conjuntura não é assim tão grave.

“O fim do minério é uma realidade que se enfrenta na cidade. Qualquer itabirano que acreditou que o minério não vai acabar está fadado à loucura.”

Dalma Barcelos, vice-prefeita

Segundo ele, os dirigentes empresariais, capitaneados pela entidade que dirige, já trabalham a diversificação enquanto existe minério.

“O PIB de Itabira, em 2016, foi em quase 60% gerado pelo comércio e pelos serviços. E só 40% pela indústria”, disse ele, para quem esse é um indicador de que a diversificação já acontece nesses segmentos.

“A diversificação não ocorre de forma mágica. Não virá uma grande indústria para Itabira”, afirma, para em seguida indicar uma possível saída:

“Os caminhos para a diversificação são a tecnologia (o tão prometido parque tecnológico da Unifei), a indústria criativa (turismo, arte, cultura, entretenimento) e o agronegócio”, sinaliza.

Profeta do fim

“Não quero ser mais um profeta do fim. De nada adianta ficar como Tutu Caramujo achando que um dia haverá a derrota”, compara.

Tutu Caramujo é Antonio Alves de Araújo, ex-presidente da Câmara e prefeito de Itabira (1869/72), e que foi imortalizado no poema Itabira, de Carlos Drummond de Andrade. “Os ingleses compram a mina. Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável.”

Se a derrota não será mesmo incomparável, em poucos anos saberemos.

Mas é certo que não existem mais os ingleses comprando a mina. Mas pode-se ter os chineses que, segundo fontes fidedignas, têm forte interesse em adquirir o complexo minerador de Itabira.

E isso pode não estar longe de acontecer. Afinal, eles já são sócios da Vale em muitos empreendimentos mineradores.

E o prefeito Ronaldo Magalhães, anuncia seus assessores, irá a China para ver o que o grande dragão do oriente tem de bom para Itabira.

Confira os vencedores do Circuito do Sabor

Autoridades municipais com os vencedores do Circuito do Sabor

No encerramento do WIN foi enfim anunciado os vencedores da 13ª edição do Circuito do Sabor, o festival de gastronomia que aconteceu no mês de julho.

A espetaria Assim Assado ficou com o primeiro lugar, sagrando-se bicampeã com o prato Rigatonni Fries.

Já o Meet Restaurante e Lounge ficou com a segunda colocação, com um risoto de galinha caipira com queijo minas e quiabo.

E o terceiro lugar levou o restaurante Lili, com o prato galeto à moda mineira.

Participaram do festival 13 estabelecimentos, entre bares e restaurantes. Enfim, um bom indicador de que pelo menos nesse segmento a diversificação já se faz presente em Itabira.

 

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