Vistorias e correções estruturais de obras municipais devem, sob pena de negligência, ocorrer por toda a cidade após as chuvas

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Carlos Cruz

Itabira tem várias obras construídas há muitos anos que, sem vistorias e sofrendo com as intempéries do tempo, podem estar sujeitas à ruptura em situações extremas, como ocorre neste período, com as chuvas severas, com acumulados entre 150 e 300 milímetros (mm) de precipitação, o que têm deixado o estado de Minas Gerais em estado de alerta e de pânico, com registro de 58 mortes e decretação de estado de emergência em 196 municípios mineiros.

Canal aberto na avenida Carlos de Paula Andrade: esgoto ainda é lançado no córrego da Penha, embora o Saae sustente que trata 91% dos efluentes sanitários da cidade. Nesse trecho é comum ocorrer transbordamento com as fortes chuvas (Fotos: Carlos Cruz). No destaque, tempestade se forma sobre a cidade (Foto: Esdras Vinícius)

Vistorias técnicas são necessárias ao longo do canal da Penha, que teve mais uma placa lateral deslocada com as chuvas. E há também trechos com risco de ruptura, principalmente na parte mais estreita e com menor capacidade de vazão.

É o caso do trecho próximo à Prefeitura, na avenida Carlos de Paula Andrade, que recebe as contribuições dos córregos da Penha, Água Santa e do riacho que desce da avenida das Rosas.

Além de o canal ser mais estreito, a declividade é também menor. Em consequência, é comum haver transbordamento nesse trecho, o que ocorre também no final da avenida Li Guerra, no bairro da Praia.

O canal da Penha foi construído sobre rejeitos de minério de ferro que, até a década de 1970, descia da mina Cauê, assoreando o leito e as margens do córrego numa faixa que se estende para além do bairro da Praia.

Como hoje tragicamente se sabe, rejeito de minério se move com a água, provocando mortes e destruições por onde passa.

Trecho da avenida doutor Guerra, no bairro Pará/Centro: risco de ruptura, conforme é possível observar com as trincas e afundamento da pista

Na avenida doutor Guerra, no bairro Pará/Centro, a ameaça é de deslizamento de terra no imóvel pertencente ao Clube Atlético Itabirano (CAI). E isso, caso ocorra, pode arrastar junto parte da via pública. Os sinais aparentes já são visíveis com trincas no asfalto.

E a avenida já começa a afundar, um claro sinal de que o terreno está cedendo com a infiltração de água de chuva, o que aumenta o risco de ruptura. Se ocorrer, pode levar junto parte da avenida – e até mesmo o talude existente em frente ao cemitério do Cruzeiro.

Viadutos

Viaduto do Alto Pereira estava com ferragens aparentes enferrujadas. Foi rebocado e pintado. É do final da década de 1960 e nunca passou por vistoria técnica para saber como está a sua estrutura

No viaduto do Alto Pereira, a Prefeitura fez uma maquiagem, com reboco e pintura, encobrindo as ferragens já deterioradas.

Durante a reforma, não foi verificada como está a estrutura do viaduto, construído no segundo governo do prefeito Daniel Grisolia (1967/70). Antes da maquiagem, o viaduto estava com as ferragens aparentes e enferrujadas, o que é indicativo de risco de colapso.

Os viadutos da estrada de ferro, assim como já ocorreu com a estrutura existente no bairro Major Lage de Baixo, indo pelo Caminho Novo, também devem passar por vistorias e reforço de suas estruturas. A ação é necessária e urgente , ação urgente e necessária – e é de responsabilidade da mineradora Vale.

Coronel Linhares

Na rua Coronel Linhares o guarda-corpo já se encontra inclinado. A Prefeitura fez uma “amarração” com cintas de aço, mas o perigo persiste

No Brasil não existe cultura de prevenção e todos os anos, com as chuvas, fica a torcida para que o pior não ocorra – e as tristes consequências são as tragédias anunciadas por quase todo estado de Minas Gerais.

Se não há em Itabira grandes rios que possam transbordar e invadir residências com a ferocidade da natureza aprisionada, a cidade tem estruturas antigas de concreto, que podem ameaçar a segurança de moradores e propriedades. Leia mais aqui e também aqui.

Na rua coronel Linhares Guerra, acima da catedral, os sinais de deterioração são claros e estão à mostra no guarda-corpo que está perdendo suporte. Para impedir a sua queda, no governo passado, a Prefeitura executou um serviço de contenção, com cintas de aço – um paliativo que não elimina a ameaça de ruptura. O certo, diz um engenheiro ouvido pela reportagem, seria refazer os pilares de contenção.

Como se sabe, prevenção salva vidas e a negligência mata. Daí que as vistorias técnicas são necessárias – e urgentes. Mas só elas não bastam. É preciso agir para corrigir as falhas estruturais e prevenir para impedir novas ameaças apareçam.

Prevenção

A vistoria e a reestruturação dessas obras antigas, carcomidas pelo tempo e pela falta de manutenção, devem ser feitas preventivamente, para que não aconteçam mortes anunciadas, como tantas que ocorreram no estado de Minas Gerais, no Espírito Santo – e em outros estados nos anos anteriores.

É preciso corrigir as falhas estruturais, sob a pena de a administração municipal ser responsabilizada criminalmente por negligência, caso ocorra alguma ruptura.

Todos os anos a história se repete e a culpa não é das severas chuvas que caem nesta época do ano. É decorrente da negligência, da falta de vistoria e da prevenção, com contenção de encostas e remoção de moradores em áreas de risco para locais seguros.

E que sejam abertos mais parques florestais, ao invés de leiloar lotes públicos (áreas verdes) para fazer “caixa” para o prefeito investir em obras, quando a cidade demanda por “pulmões verdes”, que ajudam também a amortizar e infiltrar no subsolo as águas das chuvas.

Que a Prefeitura faça as vistorias necessárias.  E que as obras de recuperação e reforço dessas estruturas sejam executadas enquanto o município ainda dispõe de recursos da mineração, que devem exaurir com as minas, a partir de 2028.

 

 

 

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