Vinicius de Moraes, o poeta que cultuou o samba

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Lenin Novaes*

 O gênero musical bossa-nova, que ganhou o mundo, completou 60 anos dia 10 deste mês, tendo como marco inicial a gravação de “Deixa de saudade”, música de autoria de Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim, na voz de João Gilberto, naquela data, no ano de 1958. Aliás, os três são considerados a santíssima trindade do movimento que consagrou nomes como Nara Leão, João Donato, Johnny Alf, Joyce, Leny Andrade, Oscar Castro Neves, Roberto Menescal, Billy Blanco e Carlos Lyra, entre outros. Até Roberto Carlos, no início da carreira, se aventurou no gênero, com as gravações de “João e Maria” e “Fora do tom”, no estilo vocal de João Gilberto.

Vinicius Moraes, Tom Jobim e João Gilberto: santíssima trindade da bossa-nova (Fotos: acervo Lenin Novaes)

Bem, prezados leitores e leitoras da Vila de Utopia, do mais expoente letrista da bossa-nova, Vinicius de Moraes, a letra de “Samba da benção”, musicada por Baden Powell, parece um manifesto. E é possível que assim seja, em louvação a expressivos artistas que dignificaram a música brasileira. Apesar do enorme sucesso alcançado, a letra mereceu crítica por parte de segmentos da sociedade, que repudiava a afirmação dele no verso “Eu, por exemplo, o capitão do mato Vinicius de Moraes”. Houve e ainda há quem diz que: “Capitão do mato é a puta que o pariu”.

Capitão do mato significava pessoa (homem branco ou escravo alforriado) que exercia “serviço”, na sociedade escravista brasileira, entre os séculos XVII e XIX, de capturar escravos fugitivos, sendo paga para caçar gente. Os capitães eram temidos, mas, socialmente, não tinham prestígio. Eles, às vezes, sequestravam escravos e, depois, os devolviam aos “senhores” cobrando recompensa. Determinadas vezes os capitães do mato matavam cativos para não serem descobertos. Asseguravam, de certa forma, que os “senhores” permanecessem no poder e os escravos não tentassem fugir ou se rebelar contra seus “donos”.

Confiram a letra de “Samba de benção”:

É melhor ser alegre que ser triste/Alegria é a melhor coisa que existe/É assim como a luz no coração/Mas pra fazer um samba com beleza/É preciso um bocado de tristeza/É preciso um bocado de tristeza/Senão, não se faz um samba não (declamando – Senão é como amar uma mulher só linda/E daí?/ Uma mulher tem que ter qualquer coisa além de beleza/Qualquer coisa de triste/Qualquer coisa que chora/Qualquer coisa que sente saudade/Um molejo de amor machucado/Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher/Feita apenas para amar/Para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão (cantando – Fazer samba não é contar piada/Quem faz samba assim não é de nada/O bom samba é uma forma de oração/Porque o samba é a tristeza que balança/E a tristeza tem sempre uma esperança/A tristeza tem sempre uma esperança/De um dia não ser mais triste não (declamando – Feito essa gente que anda por aí brincando com a vida/Cuidado, companheiro/A vida é pra valer/E não se engane não/Tem uma só/Duas mesmo que é bom/Ninguém vai me dizer que tem/Sem provar muito bem provado/Com certidão passada em cartório do céu/E assinado embaixo: Deus/E com firma reconhecida/A vida não é brincadeira, amigo/A vida é arte do encontro/Embora haja tanto desencontro pela vida/Há sempre uma mulher à sua espera/Com os olhos cheios de carinho/E as mãos cheias de perdão/Ponha um pouco de amor na sua vida/Como no seu samba (cantando – Ponha um pouco de amor numa cadência/E vai ver que ninguém no mundo vence/A beleza que tem um samba, não/Porque o samba nasceu lá na Bahia/E se hoje ele é branco na poesia/Se hoje ele é branco na poesia/Ele é negro demais no coração (declamando – Eu, por exemplo, o capitão do mato Vinicius de Moraes/Poeta e diplomata/O branco mais preto do Brasil/Na linha direta de Xangô, saravá/A bênção, Senhora, a maior ialorixá da Bahia/Terra de Caymmi e João Gilberto/A bênção, Pixinguinha, tu que choraste na flauta todas as minhas mágoas de amor/A bênção, Sinhô, a benção, Cartola/A bênção, Ismael Silva/Sua bênção, Heitor dos Prazeres/A bênção, Nelson Cavaquinho/A bênção, Geraldo Pereira/A bênção, meu bom Cyro Monteiro, você, sobrinho de Nonô/A bênção, Noel/Sua bênção, Ary/A bênção, todos os grandes sambistas do Brasil/Branco, preto, mulato, lindo como a pele macia de Oxum/A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim, parceiro e amigo querido/Que já viajaste tantas canções comigo e ainda há tantas a viajar/A bênção, Carlinhos Lyra, parceiro cem por cento/Você que une a ação ao sentimento e ao pensamento/A bênção/A bênção, Baden Powell, amigo novo, parceiro novo/Que fizeste este samba comigo, a bênção, amigo/A bênção, maestro Moacir Santos/Que não és um só, és tantos como o meu Brasil de todos os santos/Inclusive meu São Sebastião/Saravá/A bênção, que eu vou partir/Eu vou ter que dizer adeus (cantando – Ponha um pouco de amor numa cadência/E vai ver que ninguém no mundo vence/A beleza que tem um samba, não/Porque o samba nasceu lá na Bahia/E se hoje ele é branco na poesia/Se hoje ele é branco na poesia/Ele é negro demais no coração.

Marcus Vinicius de Moraes nasceu 19 outubro de 1913, na Gávea, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro e, madrugada de 9 de julho de 1980, se sentiu mal na banheira de casa, naquele bairro, falecendo em seguida. Tinha passado o dia anterior com o parceiro e amigo Toquinho, com o qual acertava detalhes do 2º volume do álbum Arca de Noé, disco que saiu em 1981. Vinicius foi o segundo dos quatro filhos do casal Clodoaldo Pereira da Silva Moraes e Lídia Cruz:  Lygia; Laetitia, e Helius.

Vinicius de Moraes, o poetinha

Iniciou os estudos na Escola Primária Afrânio Peixoto. Em 1924 ingressou no Colégio Santo Inácio. Integrava o coral e começou a montar peças de teatro. Três anos depois se tornou amigo dos irmãos Haroldo e Paulo Tapajós, ensaindo as primeiras composições. Em 1929 concluiu o ginásio e entrou na Faculdade de Direito do Catete, hoje Faculdade Nacional de Direito (UFRJ). Lá conheceu o romancista Otavio Faria, que o incentivou na vocação literária. Graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1933.

Anos depois foi censor cinematográfico e ganhou bolsa para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford. Em 1941 retornou ao Brasil e trabalhou como crítico de cinema no jornal A Manhã. Foi reprovado em seu primeiro concurso para o Ministério das Relações Exteriores, voltando a concorrer em 1943, quando foi aprovado. Em 1946 assumiu o primeiro posto diplomático como vice-cônsul em Los Angeles. Nos anos 1950 atuou no campo diplomático em Paris e em Roma, onde participava de encontros na casa do escritor Sérgio Buarque de Hollanda, pai de Chico Buarque de Hollanda.

Chamado carinhosamente de Poetinha, apelido dado por Tom Jobim, pois Vinicius sempre se referia a tudo no dimunitivo, como lembra Chico Buarque. O Poetinha se casou nove vezes e as esposas foram Beatriz Azevedo de Melo, Regina Pederneiras, Lila Bôscoli, Maria Lúcia Proença, Nelita de Abreu, Cristina Gurjão, Gesse Gessy, Marta Rodrigues Santamaria e Gilda de Queirós Mattoso.

A poesia foi a primeira e sua maior vocação. Na música teve entre os principais parceiros Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque e Carlos Lyra. Ele estava em Portugal, realizando espetáculos, alguns com Chico Buarque e Nara Leão, quando o regime militar instituiu o AI-5. E o motivo justificado para o afastamento dele da função diplomática foi o comportamento boêmio. Foi anistiado post-mortem pela Justiça em 1998. A Câmara dos Deputados aprovou em fevereiro de 2010 sua promoção ao cargo de ministro de primeira classe do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o equivalente a embaixador, que é o cargo mais alto da carreira diplomática.

Trajetória musical

A música “Loura ou morena”, no gênero foxtrote, composta em 1928, com Haroldo Tapajós, e gravada em 1932 pela dupla Irmãos Tapajós, é o primeiro registro de Vinicius de Moraes como letrista. O primeiro livro, O caminho para a distância, publicou em 1933. E teve gravadas as músicas “Dor de uma saudade”, parceria com Joaquim Medina, e “O beijo que você não quis dar” e “Canção da noite”, com Haroldo Tapajós. Ganhou o Prêmio Felipe D’Oliveira pelo livro Forma e exegese, em 1935, lançando no ano seguinte a publicação Ariana, a mulher.

Publicou, em 1943, Cinco elegias, e, em 1946, Poemas, sonetos e baladas, ilustrado com  desenhos de Carlos Leão. Em Barcelona, na Espanha, dois anos depois, publicou o livro Pátria minha. A cantora Aracy de Almeida, em 1953, gravou dele, em parceria com Antonio Maria, “Quando tu passas por mim”. Ela, no ano seguinte, voltou a gravar mais uma música da dupla, “Dobrado de amor a São Paulo”. Ainda em 1954 sua peça Orfeu da Conceição foi premiada no Concurso do IV Centenário de São Paulo.

Orfeu da Conceição teve cenário de Oscar Niemeyer, na montagem de 1956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com trilha sonora incluindo “Se todos fossem iguais a você”, “Um nome de mulher”, “Lamento no morro”, entre outras, estabelecendo uma das mais fecundas parcerias na história da música popular: Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom Jobim.

Aracy de Almeida, em 1957, gravou dele, com Adoniran Barbosa, “Bom dia, tristeza”, e Tito Madi gravou “Se todos fossem iguais a você”, e, ainda, Bill Farr gravou “Eu não existo sem você” e Agnaldo Rayol gravou “Serenata do adeus”. Em 1958, Elizeth Cardoso lançou o disco Canção do amor demais, tendo no repertório músicas de Vinicius com Tom Jobim. Ano seguinte, Lueli Figueiró gravou “A felicidade” e “O nosso amor”. Também “A felicidade” teve gravação, naquele mesmo ano, de Severino Araújo e Sua Orquestra e, ainda, por Chiquinho do Acordeon.

Tom Jobim e Vinicius de Moraes: amizade e parceria

Em 1961ele gravou “Água de beber” e “Lamento no morro”, mais parceria com Tom Jobim. Ainda no ano se tornou parceiro de Carlos Lyra nas músicas “Você e eu”, “Coisa mais linda”, “Primeira namorada” e “Nada como te amar”. Em 1962, Orlando Silva gravou “Canção da eterna despedida”, parceria com Tom Jobim, e Ângela Maria gravou “Em noite de luar”, parceria com Ary Barroso). Publicou Antologia poética, Procura-se uma rosa e Para viver um grande amor, livro de crônicas e poemas.

Vinicius compôs com Pixinguinha a trilha sonora do filme Sol sobre a lama, de Alex Vianny, e escreveu letras para dois chorinhos daquele parceiro: “Lamento” e “Mundo melhor”, que logo se tornariam clássicos. E logo em segida fez parceria com Baden Powell, que rendeu inúmeros sucessos: “Só por amor”, “Canção de amor e paz”, “Pra que chorar”, “Tem dó”, “Tempo feliz”, “Formosa”, “Apelo”, “Samba em prelúdio”, “Canto de Ossanha” e muitos outros, além de “Samba da bênção”, que mais tarde seria incluído na trilha sonora do filme Um homem e uma mulher, do diretor francês Claude Lelouch.

Participou, em agosto de 1962, com Tom Jobim, João Gilberto e Os Cariocas, de um dos mais importantes shows da bossa nova, Encontro, na Boate Au Bon Gourmet, onde foram lançadas as músicas”Garota de Ipanema”, “Só danço samba”, “Insensatez”, “Ela é carioca” e “Samba do avião”. Na mesma boate foi montada a peça Pobre menina rica, de sua autoria, com trilha sonora em parceria com Carlos Lyra, tendo as canções “Sabe você”, “Primavera” e “Samba do carioca”, lançando a cantora Nara Leão. Elza Soares gravou “Só danço samba”, Pery Ribeiro e também o Tamba Trio gravaram “Garota de Ipanema” e Jair Rodrigues gravou “O morro não tem vez”, todas com Tom Jobim.

Com a atriz Odete Lara, em 1963, lançou disco contendo “Berimbau”, “Só por amor”, “Mulher carioca” e “Samba em prelúdio”, entre outras, todas com Baden Powell, tendo arranjos e regência de Moacir Santos. No mesmo ano, a Copacabana lançou o disco Elizeth interpreta Vinícius, contendo parcerias do poeta com Moacir Santos, Baden Powell, Vadico e Nilo Queiroz, com arranjos de Moacir Santos. Ano seguinte cantou junto com Dorival Caymmi, Quarteto em Cy e o Conjunto de Oscar Castro Neves na Boate Zum Zum, que resultou em disco tendo “Carta a Tom”, “Dia da criação”, “Minha namorada”, “Bom-dia, amigo”, “Das rosas”, “Saudades da Bahia”, “História de pescadores” e “Adalgiza”.

Participou do I Festival Nacional de Música Popular Brasileira, em 1965, conquistando o primeiro e o segundo lugares com “Arrastão”, parceria com Edu Lobo, defendida por Elis Regina, e “Valsa do amor que não vem”, parceria com Baden Powell, defendida por Elizeth Cardoso. Também com Edu Lobo, compôs “Zambi” e “Canção do amanhecer”, que se engajaram no clima de protesto da época, apresentadas em projetos do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Em 1965 lançou o livro Cordélia e o Peregrino, pelo serviço de Documentação do MEC. E, em sua homenagem, foi realizado o show Vinícius: poesia e canção, em São Paulo. No ano seguinte participou, ao lado de Maria Bethânia e Gilberto Gil, do show Pois é, no Teatro Opinião. E gravou o disco Afro sambas, com parceria de Baden Powell, que participou da gravação tocando violão.

A parceria com Toquinho  rendeu vários sucessos e a dupla passou a realizar shows pelo Brasil, percorrendo, inclusive, circuito universitário. Em 1971 lançou disco com Toquinho, destacando-se “Maria vai com as outras”, “Testamento”, “Morena flor” e “A rosa desfolhada”, parceria de ambos. Ano seguinte, com Toquinho, lançou o disco São demais os perigos dessa vida, tendo “Para viver um grande amor”, “Regra três” e “Cotidiano nº 2”. Em 1973, ao lado de Toquinho e Clara Nunes, participou do show O poeta, a maça e o violão, no Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia.

Bem, prezados leitores e leitoras, Vinicius de Moraes deixou mais de 20 discos e vários livros de poesia. É significativa a obra dele na literatura e na música. E faz parte das nossas vidas. E creio que é justo ilustrar a faceta do poeta com Soneto de fidelidade:

“De tudo ao meu amor serei atento/Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto/Que mesmo em face do maior encanto/Dele se encante mais meu pensamento/Quero vivê-lo em cada vão momento/E em seu louvor hei de espalhar meu canto/E rir meu riso e derramar meu pranto/Ao seu pesar ou seu contentamento/E assim, quando mais tarde me procure/Quem sabe a morte, angústia de quem vive/Quem sabe a solidão, fim de quem ama/Eu possa me dizer do amor que tive/Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure.

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional de Poesias para jornalistas, em homenagem ao poeta e jornalista Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som (MIS).

 

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Sobre o Autor

1 comentário

  1. Moisés Damião de Souza on

    Lenin Novaes*

    O gênero musical bossa-nova, que ganhou o mundo, completou 60 anos dia 10 deste mês, tendo como marco inicial a gravação de “Deixa de saudade”, música de autoria de Vinicius de Moraes e Antonio Carlos Jobim, na voz de João Gilberto.
    Chega de saudade, né?

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