Vinhedo do Alto de Alfié – Notas e comentários

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Pelo agrônomo Amyntas de Assis Lage

A viticultura mineira data dos tempos coloniais. A diversidade das zonas onde prosperou a videira e a variedade de casta e de métodos de culturas utilizadas foi tão grande, que pode ser comparada a uma colcha de retalhos, tendo deixado em cada zona pelo menos sinais profundos de recordações indeléveis.

Começaremos hoje focalizando um vinhedo localizado no município de São Domingos do Prata, cidade situada no noroeste mineiro, próxima do vale do Rio Doce.

Vinhedo do Alfié, na antiga fazenda do Bicudo, em São Domingos do Prata. Na foto em destaque, a Fazenda da Betânia, em Itabira, onde funcionou o Instituto Agronômico  (Fotos do livro Adeus, São José da Lagoa, de José Baptista Filho e dos acervos de Altamir Barros e Cristina Silveira)

Quem viajou de São José da Lagoa a Santana de Alfié, guarda, certamente, uma lembrança, impressões daquele caminho, todo cheio de marcas inesquecíveis. Depois de percorrer uma região prospera, com grandes e bem organizadas fazendas mistas, localizadas em terrenos muito férteis, encontraria a certa altura, uma espessa mata virgem que deveria ser atravessada. Do outro lado da mata deparava com um morro longo e íngreme que ainda conserva a denominação de Morro do Cuité. Galgado esse morro, prosseguia a viagem por meio da mata, protegido pela sombra das árvores, encantando naturalmente com a riqueza da flora que cobria a região com as mais variadas cores que os vegetais ostentam. De quando em quando um exuberante e variado perfume embriagava os sentidos do viajante. Eram as essências florestais que abrindo suas flores espargiam pelo ar a fragrância daqueles deliciosos e suaves aromas.

Juca Alvim (primeiro à esquerda), dr. Carlos Brunman, um visitante e Raoul de Caux, à direita), no Instituto Agronômico, em Itabira. Dr. Brunman foi sepultado na Fazenda Betânia

A fauna também se fazia representar por enorme variedade de pássaros que pareciam prestar homenagem aos que passavam. As cigarras e as borboletas eram incontáveis e enchiam o ambiente de alegria.

Assim escoavam-se cerca de três horas em marcha lenta, a passo, sobre o dorso de animais adestrados. Era de impressionar a travessia dessa encantadora mata. Afinal, já habituado com tanta variação sonora e visual, ao sair da mata, avistava o viajor umas casinhas cujos terrenos próximos eram cobertos de samambaia, e que evidenciava a ação devastadora do fogo e a acidez elevada do solo.

Ao terminar a curva do caminho com uma porteira caprichosamente confeccionada e muito bem assentada. Depois de transposta vislumbrava um panorama indescritível. Parecia uma visão, era como que um cais que se levantava naquela altura da estrada.

Uma casa ao longe situada no centro de um jardim circundado de pomares dispostos com gosto, tendo de ambos os lados e mais afastado, um enorme parreiral todo protegido por quebra-ventos. Um pouco adiante, extensos gramados que constituíam as belíssimas pastagens com frondosas árvores de espaço em espaço, em cujas sombras descansavam robustos animais.

O caminho que conduz à sede da fazenda era ladeado por árvores formando uma vereda que dava prazer em andar por ela.

Chegado à sede, em primeiro plano encontrava a cavalaria onde deixava a montaria; uma “borboleta” dava acesso ao jardim e, finalmente, a casa cuja parte fronteiriça dispunha de uma vasta e confortável varanda.

Raoul de Caux e sua mulher Bernardina Martins da Costa de Caux

Então aparecia a figura magra e alta do dr. Raoul de Caux que sempre recebia as visitas com lhaneza e hospitalidade.

Se deslumbrado estava o viajante com o panorama que o surpreendera, mais encantado ficaria com o trato acolhedor que lhe era dispensado pelo dr. Caux e pela família.

Mas logo acudia um pensamento: como viera aquele homem se instalar naquelas longínquas paragens?

É o que vamos narrar.

Em 1896, o governador de Minas Gerais, sr. Bias Fortes, resolveu organizar o ensino agrícola no estado mediterrâneo. Para chefia desse serviço convidou o dr. Gorceix, fundador da afamada Escola de Minas, de Ouro Preto, e que então se achava na Europa. Este contratou o dr. Caux para chefe de cultura e professor do Instituto Agrônomo de Itabira.

O referido Instituto, criado na gestão municipal do dr. Guerra, que exercia grande influência política naquela época, foi extinta em 1898, já no governo de Silviano Brandão, por ter este sofrido oposição dos itabiranos durante sua candidatura a governança do Estado.

O Instituto era um modelo de organização, eficiência e trabalho.

Dr. Carlos Brunman, seu diretor, tão desgostoso, com a interrupção de seus interessantes trabalhos, que teve vida curta após a extinção daquele templo de estudos. Vindo a falecer depois, e seu sepultamento foi feito nos próprios terrenos do Instituto, em local próxima à sua residência.

Dizia-se que o profundo desgosto fora a causa principal de sua morte.

Os três filhos mais velhos de Raoul de Caux: Luiza, Nenen e Henry de Caux

Talvez, se não houvesse sido extinto aquele centro de ensino e pesquisas agronômicas, muitas investigações que hoje apenas se esboçam em nosso estado, poderiam ser problemas resolvidos.

Todo itabirano lamenta com justa razão aquele ato inamistoso e tão prejudicial a uma rica e enorme região que é o Vale do Rio Doce.

Com a extinção do Instituto, foram dispensados os professores. O dr. Raoul de Caux regressou à Europa, porém no Brasil, no fogo do calor tropical, o seu coração tinha se queimado.

Não durou muito a sua ausência, pois impelido pelos ditames do coração, voltou para as proximidades de Itabira, disposto a lutar e a vencer, em companhia da outra metade de seu coração.

Viajou muito, escolheu terras, observou o clima e, fazendo sociedade com um de seus ex-discípulos, Nuno Lage – meu querido pai – resolveu instalar o seu vinhedo nos terrenos já descritos.

Experimentou muitas castas de videiras e acabou por escolher a Isabel e a Norten Virgina, as quais lhe proporcionavam renda apreciável.

Em vista de meu pai ter o encargo de uma enorme e movimentada fazenda mista, a sociedade foi desfeita, amistosamente.

O dr. Caux completou sua obra montando uma cantina semi-subterrânea, comprando todo o maquinário da França e iniciando a elaboração de vinhos.

Garrafa do vinho produzido por Raoul de Caux

Os seus produtos, vinho tinto, vinho branco, seco e doce, destilados e sucos de uva, logo granjearam fama. Em várias exposições, a que concorreram, foram premiados com valiosas medalhas, honrados diplomas, etc. A indústria progrediu rapidamente. O dr. de Caux se viu na contingência de fazer escola. Praticou operários para a lavoura, outros para os trabalhos da cantina, para tanoaria, etc. As dificuldades a vencer eram inúmeras e, se não fosse a fibra, a vontade férrea de vencer, talvez não teria alcançado o objetivo almejado, o sonho de muitos anos.

Escolheu e experimentou madeiras para o vasilhame vinário e, dentre muitas, selecionou o araribá, a jequitibá rosa, e ipê amarelo, a canela, a marmelada e algumas outras.

Com o aparecimento das moléstias e pragas que deveriam liquidar os vinhedos de todo o mundo, este também começou a dar sinais de fraqueza. Nessa ocasião,desfrutava o dr. de Caux de uma solida situação financeira e seus filhos, na maioria, já estavam casados. Nunca faltara ao dr. de Caux recursos para as suas viagens à Europa, nem para a educação de seus filhos, um dos quais, o mais velho, estudara na Europa.

Depois de tanta luta, já envelhecido e cansado, vendo seu velho solar despovoar-se dos entes queridos, resolvera em 1945 transferir sua residência para Itabira, deixando o vinhedo à mercê de sua própria sorte.

Em abril deste ano, o casal comemorará as bodas de ouro. Seus filhos e genros estão com a disposição de reformar o vinhedo. Para tanto, convidaram o chefe da Estação e Enologia de Caldas para ajudar a traçar os planos de cuja execução ressurgirá aquela fonte de riqueza, que foi o conhecido vinhedo de Bicudo, que tantas tradições possui e tantas saudades e recordações trazem ao subescritor deste relato histórico.

Esperamos, com entusiasmo, ver reorganizado o vinhedo em questão e sentimo-nos aparelhados para enfrentar os três grandes males da videira, a filoxera, o míldio e o eidio. Procuraremos orientá-los de acordo com os modelos de técnica moderna mais recomendada para o caso e na escolha de variedades capazes de resistir às inclemências do clima de forma a originarem produtos de valor e de fácil mercado.

Em outras crônicas, continuaremos a localizar, historiar e bibliografar os vitivinicultores mineiros de maior evidência.

(Revista de Tecnologia das Bebidas – Caldas-RS – 17 de abril de 1950)

 

 

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3 Comentários

  1. Mauro Andrade Moura on

    De acordo com Hugo Belisário de Caux, neto do Raux de Caux, a terceira pessoa da esquerda para a direita, na terceira fotografia, o visitante era o Pedro Nolasco.
    Pedro Nolasco foi o criador da ferrovia que hoje conhecemos como Estrada de Ferro Viatória a Minas, que, infelizmente, contrariando o desejo de seu criador, hoje só leva e não traz…

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