Vida útil do aterro sanitário de Itabira pode ir até 2035, mas só se for sem recicláveis e materiais que devem servir para compostagem

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Desde o fim de março, resíduos recicláveis recolhidos em Itabira, como papel, vidro, ferro, alumínio, que têm valor econômico e mercado assegurado, além de outros materiais não orgânicos (secos), continuam sendo recolhidos pela Coleta Seletiva, mas deixaram de passar pelo Centro de Triagem, no bairro Nova Vista. E estão seguindo direto para o aterro sanitário.

A medida foi adotada pela Itaurb, que é responsável pela coleta dos resíduos urbanos (orgânicos e recicláveis), mas não pela gestão do aterro sanitário, a cargo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, por meio de empresa terceirizada.

A suspensão do serviço de triagem atende recomendação do Ministério Público, como parte das ações de enfrentamento ao novo coronavírus (covid-19). É para evitar contaminações dos operadores que trabalham na separação desses resíduos.

Com isso, acaba com a concentração de trabalhadores no pequeno galpão onde funciona o raquítico Centro de Triagem, o mesmo do início da coleta seletiva em Itabira, no final da década de 1980. A medida, entretanto, não altera o calendário da coleta seletiva, que se mantém em todos os bairros.

A recomendação é para a população continuar fazendo a separação dos resíduos secos (recicláveis) dos orgânicos. Trata-se, portanto, de uma situação emergencial. Mas se permanecer por muito tempo pode comprometer a vida útil do aterro sanitário de Itabira.

Ganho ambiental

O aterro sanitário de Itabira foi inaugurado em 12 de novembro de 2012, como parte do cumprimento da Licença de Operação Corretiva (LOC). Entretanto, mesmo tendo investido no empreendimento, a Vale não o reconhece como parte da condicionante ambiental.

Para a empresa, trata-se de uma ação de relacionamento com a Prefeitura. Entende que a condicionante estabelecia apenas a “elaboração de cronograma executivo para a implantação de aterro”, e que, portanto, somente com a elaboração de projeto a condicionante já teria sido cumprida.

É a mesma situação em relação à questão da água, cuja viabilização das alternativas de captação a empresa nao vê como sua obrigação. Isso mesmo detendo o monopólio dos aquíferos, das nascentes e dos afluentes que existiam na encosta da Serra do Esmeril, hoje Minas do Meio.

O investimento da Vale na “ação de relacionamento” para viabilizar o aterro sanitário foi de R$ 11 milhões, não corrigidos, informa a mineradora no seu informativo Notícias com a cobertura da inauguração.

Com o início da operação do aterro sanitário, em 2012, Itabira entrou para o rol dos poucos municípios brasileiros que cumprem o que dispõe a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

Com o aterro foi enterrado o antigo lixão, onde, por mais de 40 anos, a cidade dispôs os seus resíduos sem nenhum controle ambiental, em meio a criatório de porcos e cães abandonados.

Vida útil

Resíduos devem ser cobertos e compactados no mesmo dia o recolhimento para impedir a proliferação de vetores. No dia dessa foto, já à tardezinha isso ainda não teria ocorrido (Fotos: Carlos Cruz)

Na mesma edição do jornal Notícias o então engenheiro Paulo Therezo, que trabalhava na Gerência de Meio Ambiente da Vale, e que acompanhou as obras de implantação, assegurou que, com gestão correta, o aterro teria capacidade para receber os resíduos orgânicos gerados em Itabira por um prazo de 23 anos, a contar da data de inauguração.

Ou seja, mantendo-se a projeção de crescimento da cidade, o seu horizonte de existência se estenderia até 2035. Isso com a disposição diária de 46 toneladas de resíduos orgânicos, de um total de 56 toneladas que o município tem gerado.

A diferença de 10 toneladas é composta de resíduos recicláveis que eram segregados no Centro de Triagem – e que agora seguem direto para o aterro. No caso dessa disposição, em caráter emergencial, durar por cerca de três meses, isso não causará impacto a ponto de reduzir drasticamente a vida útil do aterro.

Representará apenas cerca de 0,2% do volume total de sua capacidade, que é de exatos 464.541 metros cúbicos, como está em seu projeto. Irá acrescentar, em três meses, cerca de 5% ao volume previsto para ser disposto em 2020.

Impacto muito maior ocorre há mais tempo com a destinação ao aterro sanitário da parcela dos resíduos que deveria ser destinada à compostagem (fração orgânica). No passado, quando a Prefeitura mantinha jardineiros cuidando de praças e jardins, esse adubo orgânico servia para fazer a correção do solo.

Considerando que essa disposição indevida vem acontecendo desde a inauguração do aterro, essa fração que deveria servir à compostagem (restos de frutas e legumes de varejistas) irá ocupar cerca de 200.000 metros cúbicos. E pode, aí sim, comprometer em cerca de 40% a capacidade do aterro sanitário. E, claro, irá abreviar significativamente a sua vida útil.

Má gestão

No entanto, mesmo se essa disposição emergencial de resíduos recicláveis se estender por longo prazo, associada a não compostagem dos resíduos orgânicos, a redução do horizonte de exaustão será inevitável em um período de tempo bem menor que inicialmente projetado.

Além disso, outro fator que pode agravar o comprometimento da vida útil é uma má gestão do aterro. Isso pode ocorrer, por exemplo, com uma operação inadequada, com baixa compactação dos resíduos na célula, seja por excesso de material de cobertura (solo), como também com a disposição de material inerte (resíduos de construção). Nesse último caso, não há evidência de que esteja ocorrendo essa disposição indevida.

Mas o certo é que a conjugação de todos esses fatores pode ser desastrosa, pois levaria ao colapso de sua capacidade em curto espaço de tempo. Além disso, a não cobertura diária dos resíduos pode provocar o surgimento de vetores, como ratos, baratas, além de cães e outros animais em busca de alimento.

Compactação

Presença de animais entre os resíduos deveria ser cena do passado, mas não é: sacos vermelhos seriam indícios de resíduos da área de saúde? Se for, é outra irregularidade

Antes da decisão pela disposição de recicláveis junto com os resíduos orgânicos, a reportagem deste site esteve no aterro, fotografando da estrada vicinal que leva ao distrito de Ipoema.

Pelo grande volume de material que estava descoberto, já no fim da tarde, nada indicava que daria tempo de ser realizada a cobertura diária de terra ao final da jornada, conforme determina a legislação para a operação de aterros sanitários.

Também foi constatada a presença de animais (cavalos) em meio aos resíduos, que já se apresentavam com a mistura de material orgânico com o reciclável, antes mesmo de se adotar a medida emergencial.

Em um retorno ao aterro neste mês, a disposição de resíduos já se apresentou de acordo com as normas, com todo material coberto e compactado. E não havia mais animais em meio aos resíduos, sendo que uma nova célula foi preparada para receber esses materiais.

Proteção

Uma nova célula foi preparada para receber os resíduos orgânicos misturados aos recicláveis

Segundo explicou no jornal Notícias o então engenheiro da Vale, Paulo Therezo, que acompanhou a instalação do aterro, a sua construção seguiu as normas técnicas, observando as medidas de controle ambiental.

Para não contaminar o meio ambiente, o fundo e as laterais de cada célula foram dotados de camadas impermeabilizantes.

“São elas que impedem a infiltração do chorume, o que contaminaria não só o solo, mas eventualmente o lençol freático e os cursos d´água.” Chorume é o resíduo líquido derivado da matéria orgânica em decomposição.

O aterro foi instalado observando também a necessidade de controlar a emissão de gases, como o metano que, se lançado no meio ambiente, compromete a camada de ozônio. E, acumulados, podem provocar incêndios.

De acordo com relato de moradores vizinhos, pequenos incêndios têm ocorrido com certa frequência no aterro. Isso indica um mau funcionamento das medidas de controle.Para que essa queima não ocorra, foram instalados drenos horizontes por onde deve ocorrer o extravasamento de gases, como está no projeto original.

A ocorrência de incêndios, ainda que pequenos, indicam que esses extravasores podem não estar funcionando ou não estão sendo operados adequadamente.

Sindicato cobra melhorias nas condições de trabalho na Central de Resíduos e para coletores

Auro Gonzaga, do Sintisepmi, reivindica melhorias no Centro de Triagem e material de segurança para coletores

O Sindicato dos Trabalhadores e Servidores Públicos Municipais de Itabira (Sintsepmi) tem cobrado mais equipamentos de segurança para todos os que fazem a coleta de resíduos e a limpeza com varrição da cidade.

Para o presidente Auro Gonzaga é hora de a Prefeitura aproveitar essa parada dos serviços de segregação de resíduos para melhorar as condições de trabalho no Centro de Triagem.

Segundo ele, as condições de trabalho são insalubres e o risco de acidentes é grande. “O telhado está com goteiras e as correias estão esgarçadas, precisam ser substituídas antes que provoquem acidentes. A carregadeira está sem freios”, denunciou o sindicalista em vídeo postado na rede social.

“Todo dinheiro obtido com a venda de material reciclado deveria ser investido na melhoria do Centro de Triagem”, é o que ele reivindica. Mas o certo seria transferir a central do bairro Nova Vista para outro local mais apropriado.

Por exemplo, próximo da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Laboriau, onde, inclusive, deveria ser instalada uma Central de Resíduos, outra condicionante não cumprida pela mineradora Vale.

Com a transferência, a central de triagem deixaria de impactar a vizinhança do bairro Nova Vista, que já sofre com a insalubridade de esgoto que, há mais de 30 anos, corre a céu aberto na margem da barragem do Pontal.

O sindicato pede aos moradores para condicionarem adequadamente os resíduos em sacos plásticos. E que sejam higienizados com álcool antes de levados para fora de casa, para não contaminar os coletores com o novo coronavírus.

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